Mostrando postagens com marcador Teófilo Braga. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Teófilo Braga. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

O Boi Cardil (Conto popular português), de Teófilo Braga

 

O BOI CARDIL 

Um rei tinha um criado, em quem depositava a maior confiança, porque era o homem que nunca em sua vida tinha dito uma mentira. Recebeu o rei um presente de boi muito formoso, a que chamavam o boi Cardil; o rei tinha-o em tanta estimação que o mandou para uma das suas tapadas acompanhado do criado fiel para tratar dele. Teve uma ocasião uma conversa com um fidalgo, e falou da grande confiança que tinha na fidelidade do seu criado. O fidalgo riu-se:

 – Por que te ris? – perguntou o rei. 

– É porque ele é como os outros todos, que enganam os amos. 

– Este não! 

– Pois eu aposto a minha cabeça como ele é capaz de mentir até ao rei. 

Ficou apostado. Foi o fidalgo para casa, mas não sabia como fazer cair o criado na esparrela e andava muito triste. Uma filha nova e muito formosa, quando soube a causa da aflição do pai, disse: 

– Descanse, meu pai, que eu hei de fazer com que ele há de mentir por força ao rei. 

O pai deu licença. Ela vestiu-se de veludo carmesim, mangas e saia curta, toda decotada, e cabelos pelos ombros e foi passear para a tapada; até que se encontrou com o rapaz que guardava o boi Cardil. Ela começou logo: 

– Há muito tempo que trago uma paixão, e nunca te pude dizer nada. 

O rapaz ficou atrapalhado e não queria acreditar naquilo, mas ela tais coisas disse e jeitinhos deu que ele ficou pelo beiço. Quando o rapaz já estava rendido, ela exigiu-lhe que, em paga do seu amor, matasse o boi Cardil. Ele assim fez e deu-se por bem pago todo o santíssimo dia. 

A filha do fidalgo foi-se embora, e contou ao pai como o rapaz tinha matado o boi Cardil; o fidalgo foi contá-lo ao rei, fiado em que o rapaz havia de explicar a morte do boi com alguma mentira. O rei ficou furioso quando soube que o criado lhe tinha matado o boi Cardil, em que punha tanta estimação. Mandou chamar o criado. 

Veio o criado, e o rei fingiu que nada sabia; perguntou-lhe: 

– Então como vai o boi? 

O criado julgou ver ali o fim da sua vida e disse: 

Senhor! pernas alvas
E corpo gentil,
Matar me fizeram
Nosso boi Cardil.

O rei mandou que se explicasse melhor; o moço contou tudo. O rei ficou satisfeito por ganhar a aposta, e disse para o fidalgo: 

– Não te mando cortar a cabeça como tinhas apostado, porque te basta a desonra de tua filha. E a ele não o castigo porque a sua fidelidade é maior do que o meu desgosto.

 

---
Ano de publicação: 1883
Origem: Portugal
(Algarve)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)

O aprendiz de mago (Conto popular português), de Teófilo Braga

 

O APRENDIZ DE MAGO
 

Um homem de grandes artes tinha na sua companhia um sobrinho, que lhe guardava a casa quando precisava sair. De uma vez deu-lhe duas chaves, e disse: 

– Estas chaves são daquelas duas portas; não mas abras por coisa nenhuma do mundo, senão morres. 

O rapaz, assim que se viu só, não se lembrou mais da ameaça e abriu uma das portas. Apenas viu um campo escuro e um lobo que vinha correndo para arremeter contra ele. Fechou a porta a toda a pressa passado de medo. Daí a pouco chegou o Mago: 

– Desgraçado! para que me abriste aquela porta, tendo-te avisado que perderias a vida? 

O rapaz tais choros fez que o Mago lhe perdoou. De outra vez saiu o tio e fez-lhe a mesma recomendação. Não ia muito longe, quando o sobrinho deu volta à chave da outra porta, e apenas viu uma campina com um cavalo branco a pastar. Nisto lembrou-se da ameaça do tio e já o sentindo subir pela escada, começou a gritar: 

– Ai que agora é que estou perdido! 

O cavalo branco falou-lhe: 

– Apanha desse chão um ramo, uma pedra e um punhado de areia, e monta já quanto antes em mim. 

Palavras não eram ditas, o Mago abriu a porta da casa: o rapaz salta para cima do cavalo branco e grita: 

– Foge! que aí chega o meu tio para me matar. 

O cavalo branco correu pelos ares fora; mas indo lá muito longe, o rapaz torna a gritar: 

– Corre! que meu tio já me apanha para me matar. 

O cavalo branco correu mais, e quando o Mago estava quase a apanhá-los, disse para o rapaz: 

– Deita fora o ramo. 

Fez-se logo ali uma floresta muito fechada, e, enquanto o Mago abria caminho por ela, puseram-se muito longe. Ainda o rapaz tornou outra vez a gritar: 

– Corre! que já aí está meu tio, que me vai matar. 

Disse o cavalo branco: 

– Bota fora a pedra. 

Logo ali se levantou uma grande serra cheia de penedias, que o Mago teve de subir, enquanto eles avançavam caminho. Mais adiante, grita o rapaz: 

– Corre, que meu tio agarra-nos. 

– Pois atira ao vento o punhado de areia, disse-lhe o cavalo branco. 

Apareceu logo ali um mar sem fim, que o Mago não pôde atravessar. Foram dar a uma terra onde se estavam fazendo muitos prantos. O cavalo branco ali largou o rapaz e disse-lhe que quando se visse em grandes trabalhos por ele chamasse mas que nunca dissesse como viera ter ali. O rapaz foi andando e perguntou por quem eram aqueles grandes prantos. 

– É porque a filha do rei foi roubada por um gigante que vive em uma ilha aonde ninguém pode chegar. 

– Pois eu sou capaz de ir lá. 

Foram dizê-lo ao rei; o rei obrigou-o com pena de morte a cumprir o que dissera. O rapaz valeu-se do cavalo branco, e conseguiu ir à ilha trazendo de lá a princesa, porque apanhara o gigante dormindo. 

A princesa assim que chegou ao palácio não parava de chorar. Perguntou-lhe o rei: 

– Por que choras tanto, minha filha? 

– Choro porque perdi o meu anel que me tinha dado a fada minha madrinha e, enquanto o não tornar a achar, estou sujeita a ser roubada outra vez ou ficar para sempre encantada. 

O rei mandou lançar o pregão em como dava a mão da princesa a quem achasse o anel que ela tinha perdido. O rapaz chamou o cavalo branco, que lhe trouxe do fundo do mar o anel, mas o rei não lhe queria já dar a mão da princesa; porém ela é que declarou que casaria com o jovem para que dissessem sempre: Palavra de rei não torna atrás.

 

---
Ano de publicação: 1883
Origem: Portugal
(Eixo - Aveiro)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)

O cego e o moço (Conto popular português), de Teófilo Braga

 

 O CEGO E O MOÇO

Um cego andava pedindo esmola pela mão de um moço; a uma porta deram-lhe um naco de pão e um bocado de linguiça. O moço pegou no pão e deu-o ao cego para metê-lo na sacola, e ia comendo a linguiça muito à sorrelfa. O cego, desconfiado, pelo caminho começa a bradar com o moço: 

– Ó grande tratante, cheira-me a linguiça! Acolá deram-me linguiça e tu só me entregaste o pão. 

– Pela minha salvação, que não deram senão pão. 

– Mas cheira-me a linguiça, refinado larápio! 

E começou a bater com o bordão no moço pancadas de criar bicho. O moço era ladino e disse lá para si que o cego lhas havia de pagar. Quando iam por uns campos onde estavam uns sobreiros, o moço embicou o cego para um tronco, e grita-lhe: 

– Salta, que é rego. O cego vai para saltar e bate com os focinhos

 

---
Ano de publicação: 1883
Origem: Portugal
(Trancoso)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)

Sempre não (Conto popular português), de Teófilo Braga

 

SEMPRE NÃO
 

Um cavaleiro, casado com uma dama nobre e formosa, teve de ir fazer uma longa jornada: receando acontecesse algum caso desagradável enquanto estivesse ausente, fez com que a mulher lhe prometesse que enquanto ele estivesse fora de casa diria a tudo: – Não. Assim pensava o cavaleiro que resguardaria o seu castelo do atrevimento dos pajens ou de qualquer aventureiro que por ali passasse. O cavaleiro já havia muito que se demorava na corte, e a mulher aborrecida na solidão do castelo não tinha outra distração senão passar as tardes a olhar para longe, da torre do miradouro. Um dia passou um cavaleiro, todo galante, e cumprimentou a dama: ela fez-lhe a sua mesura. O cavaleiro viu-a tão formosa, que sentiu logo ali uma grande paixão, e disse: 

– Senhora de toda a formosura! Consentis que descanse esta noite no vosso solar? 

Ela respondeu: 

– Não! 

O cavaleiro ficou um pouco admirado da secura daquele não, e continuou: 

– Pois quereis que seja comido dos lobos ao atravessar a serra? 

Ela respondeu: 

– Não. 

Mais pasmado ficou o cavaleiro com aquela mudança, e insistiu: 

– E quereis que vá cair nas mãos dos salteadores ao passar pela floresta? 

Ela respondeu: 

– Não. 

Começou o cavaleiro a compreender que aquele Não seria talvez sermão encomendado, e virou as suas perguntas: 

– Então fechais-me o vosso castelo? 

Ela respondeu: 

– Não. 

– Recusais que pernoite aqui? 

– Não. 

Diante destas respostas o cavaleiro entrou no castelo e foi conversar com a dama e a tudo o que lhe dizia ela foi sempre respondendo 

– Não. 

Quando no fim do serão se despediam para se recolherem a suas câmaras, disse o cavaleiro: 

– Consentis que eu fique longe de vós? 

Ela respondeu: 

– Não. 

– E que me retire do vosso quarto? 

– Não. 

O cavaleiro partiu, e chegou à corte, onde estavam muitos fidalgos conversando ao braseiro, e contando as suas aventuras. Coube a vez ao que tinha chegado, e contou a história do Não; mas quando ia já a contar a modo como se metera na cama da castelã, o marido já sem ter mão em si, perguntou agoniado: 

– Mas onde foi isso cavaleiro? 

O outro percebeu a aflição do marido e continuou sereno: 

– Ora quando ia eu a entrar para o quarto da dama, tropeço no tapete, sinto um grande solavanco, e acordo! Fiquei desesperado em interromper-se um sonho tão lindo. 

O marido respirou aliviado, mas de todas as histórias foi aquela a mais estimada.

 

---
Ano de publicação: 1883
Origem: Portugal
(Açores)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)

Os Três Conselhos (Conto popular português), de Teófilo Braga

 

OS TRÊS CONSELHOS
 

Um pobre rapaz tinha casado, e para arranjar a sua vida, logo ao fim do primeiro ano teve de ir servir uns patrões muito longe. Ele era assim bom homem, e pediu ao amo que lhe fosse guardando na mão o dinheiro das soldadas. Ao fim de uns quatro anos já tinha um par de moedas, que lhe chegava para comprar um eidico, e quis voltar para casa. O patrão disse-lhe:

– Qual queres, três bons conselhos que te hão de servir para toda a vida, ou o teu dinheiro?

– Ele, o dinheiro é sangue, como diz o outro.

– Mas podem roubar-to pelo caminho e matarem-te.

– Pois então venham de lá os conselhos.

Disse-lhe o patrão:

– O primeiro conselho que te dou é que nunca te metas por atalho, podendo andar pela estrada real.

– Cá me fica para meu governo.

– O segundo, é que nunca pernoites em casa de homem velho casado com mulher nova. Agora o terceiro vem a ser: nunca te decidas pelas primeiras aparências.

O rapaz guardou na memória os três conselhos, que representavam todas as suas soldadas; e quando se ia embora, a dona da casa deu-lhe um bolo para o caminho, se tivesse fome; mas que era melhor comê-lo em casa com a mulher, quando lá chegasse. Partiu o homenzinho do Senhor, e encontrou-se na estrada com uns almocreves que levavam uns machos com fazendas; foram-se acompanhando e contando a sua vida, e chegando lá a um ponto da estrada, disse um almocreve que cortava ali por uns atalhos, porque poupava meia hora de caminho. O rapaz foi batendo pela estrada real, e quando ia chegando a um povoado, viu vir o almocreve todo esbaforido sem os machos; tinham-no roubado e espancado na quelha. Disse o moço:

– Já me valeu o primeiro conselho.

Seguiu o seu caminho, e chegou já de noite a uma venda, onde foi beber uma pinga, e onde tencionava pernoitar; mas quando viu o taverneiro já homem entrado, e a mulher ainda frescalhuda, pagou e foi andando sempre. Quando chegou à vila, ia lá um reboliço; era que a Justiça andava em busca de um assassino que tinha fugido com a mulher do taverneiro que fora morto naquela noite. Disse o rapaz lá consigo:

– Bem empregado dinheiro o que me levou o patrão por este conselho.

E picou o passo, para ainda naquele dia chegar a casa. E lá chegou; quando se ia aproximando da porta, viu dentro de casa um homem, sentado ao lume com a sua mulher! A sua primeira ideia foi ir matar logo ali a ambos. Lembrou-se do conselho, e curtiu consigo a sua dor, e entrou muito fresco pela porta dentro. A mulher veio abraçá-lo, e disse:

– Aqui está meu irmão, que chegou hoje mesmo do Brasil. Que dia! E tu também ao fim de quatro anos!

Abraçaram-se todos muito contentes, e quando foi a ceia para a mesa, o marido vai a partir o bolo, e aparece-lhe dentro todo o dinheiro das suas soldadas. E por isso diz o outro, ainda há quem faça bem.

 

---
Ano de publicação: 1883
Origem: Portugal
(Trancoso)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)

Os dois irmãos e a mulher morta (Conto popular português), de Teófilo Braga

) 

OS DOIS IRMÃOS E A MULHER MORTA
 

Eram dois irmãos, um rico, e o outro pobre; casaram, mas o pobre tinha muitos filhos, e o rico nenhum. Estavam de mal um com o outro, por intrigas da mulher do que era rico, que se envergonhava daqueles cunhados, e demais a mais compadres. Vai de uma vez o rico trazia umas manadas no campo, e uma rês transviou-se e foi cair num barrocal e lá ficou morta. Os filhos do pobre quando vieram do mato foram contar o caso à mãe:

— Pois ide lá ao barrocal buscar o novilho, porque assim sempre teremos que comer.

Os rapazes foram, fizeram-no em postas e trouxeram tudo para casa. A mulher do rico desconfiou, e disse ao marido que fosse a casa do irmão saber como aquilo era.

— Como é que hei de ir lá? Bem sabes que estou de mal com meu irmão, desde as partilhas. E de mais como é que se pode saber se foram os meus sobrinhos que espostejaram o novilho?

— Pois juro que foram os teus sobrinhos que roubaram a carne; foram, e sou eu que hei de pôr tudo em pratos limpos.

— Não sei de que feitio.

— Não sabes? Pois mete-me neste caixão, deixa-lhe um buraco para eu espreitar, e vai a casa de teu irmão pedir para o guardar.

— Com essa me rio eu. Pois com que pé hei de ir pedir a meu irmão para me guardar a caixa, estando nós desavindos?

— Tu não sabes da missa a metade. Vai ao compadre e dize-lhe que chegou tropa, e temos aquartelados em casa, e com medo do que der e vier lhe pedes para te guardar a caixa.

Dito e feito. O irmão pobre esteve por tudo e ficou muito glorioso de guardar a caixa das riquezas do irmão que sempre o desprezara; puseram-na junto da lareira. Como era já de noite, o rico despediu-se, e nisto começam os rapazes seus sobrinhos a fazer-lhe figas nas costas, e a gritar:

— Hoje há carne assada! hoje há carne assada! O novilho chega para todos tomarem uma barrigada.

A mulher do irmão rico deu um estremeção dentro da caixa, com raiva. Os rapazes calaram-se e disseram uns para os outros:

— Estão ratos na caixa.

— Deixa-los, vamos nós comendo; a estas horas a mulher de meu irmão está roendo as unhas de perra que ela é.

Nisto a comadre deu outro estremeção de furiosa.

— A caixa está cheia de ratos, com certeza.

— Bota-se-lhe água a ferver.

— Mas por onde?

— Aqui está um buraco. Foi por onde eles entraram.

Vão à panela da água para os pés e despejaram-na para dentro da caixa. A comadre e tia, que estava dentro dela, morreu sem tugir nem mugir.

O irmão rico estava com curiosidade de saber da experiência e foi buscar a caixa; o irmão pobre entregou-lha logo. Pelo caminho já lhe perguntava:

— Sempre foram eles que roubaram a carne?

Nada. Chegou a casa e quando abriu o caixão deu com a mulher morta, e negra com as escaldaduras.

— Ai, que ela morreu excomungada! Foi castigo de levantar esse aleive a meu irmão.

Tratou-se do enterro, e a mulher foi depositada na igreja para se lhe fazerem os ofícios no outro dia. Disse então o irmão pobre para a mulher:

— Se eu fosse de noite à igreja, tirava as joias que a excomungada leva para a cova.

— Lá isso faz pena ver estragar dinheiro.

O homem lá se introduziu conforme pôde na igreja, e fez uma trouxa de tudo o que pôde tirar à comadre excomungada. Não contente pegou no corpo e foi encostá-lo no altar-mor com o missal aberto diante. Quando o sacristão veio de manhã, ficou de queixo caído e correu a dar parte ao pároco da freguesia. Este foi entender-se com o marido da defunta que pagou bem os exorcismos, e o corpo enterrou-se logo depois de vestido e enfeitado com mais joias. O compadre pobre lembrou-se de ir furtar tudo isto ao cemitério. De noite, quando estava desenterrando a excomungada, ouviu vozes ao pé do cemitério. Pôs-se a escutar, e pelo que pescou, viu que eram uns estudantes que vinham de furtar um porco, e o tinham pousado em cima do muro do cemitério. Diz agora um deles:

— Falta-me o relógio! E esta? vou por ele.

— Eu vou contigo. Não há perigo que ninguém nos venha aqui tirar o porco.

O pobre assim que não sentiu ninguém foi ao lugar onde pousaram o porco, e tirou-o de dentro de um saco, onde estava, meteu dentro a excomungada, deixou-a ficar e safou-se com o porco para casa. Quando os estudantes vieram, pegaram no saco, e foram ter a casa de uma taberneira para lhes arranjar uma ceia; vão para abrir o saco e dão com a mulher morta. A estalajadeira berrou logo:

— Ai, que ela é a excomungada!

— E agora? como nos havemos de livrar desta? É a excomungada que se enterrou esta manhã.

— Vamos pô-la aí à porta de qualquer figurão da terra.

Pegaram nela e foram pô-la inteiriçada a uma porta; o corpo foi escorregando, escorregando, até que embarrou na aldraba da porta e fez barulho. Fanaram de dentro, mas como ninguém respondia vieram à janela. Viram um vulto, e pensando que estava a gazuar a porta, abriram-na de repente e deram-lhe muita pancada. O corpo caiu. O dono da casa pensou que o tinha matado, e para se ver livre da justiça, montou o corpo em cima de um burro e pô-lo a caminho para a feira. Ao passar pela porta do compadre pobre, diz ele para a mulher:

— Ainda aqui me aparece a excomungada. Desta vez sempre se ganha um burro.

E pegou no corpo e foi pô-lo num cerrado do padre. Quando o padre o soube foi exorcismá-lo montado na burra do sacristão, porque este o tinha avisado de que a excomungada andava no cavalo que pastava no cerrado. Assim que o cavalo viu a burra, correu atrás dela; o padre foge, a burra segue o caminho de casa, e ao entrar pela estrebaria dentro, o padre bate com a cabeça na padieira ao tempo que o cavalo chega com o corpo da excomungada. O padre quebrou a cabeça e morreu, e todos disseram que tinha sido a excomungada que lhe caiu em cima. O irmão rico pensou que a alma da mulher andava penada, e para a despenar foi ter com o irmão e deu-lhe os bens que lhe tinha roubado e ainda muito dinheiro.

 

---
Ano de publicação: 1883
Origem: Portugal (Alentejo)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021

O soldado que foi para o céu (Conto popular português), de Teófilo Braga

 

O SOLDADO QUE FOI PARA O CÉU

Ia uma vez um soldado para casa com a baixa; quando ia a passar por uma ponte encontrou um pobre de pedir, que não tinha dinheiro para pagar a passagem e estava ali parado. Ora o soldado nunca tinha feito bem a ninguém; mas naquele instante teve pena do velhinho e carregou com ele às costas e passou a ponte. O soldado não pagou nada, porque os soldados não pagam, e o velho também não pagou nada porque ia às costas do soldado. Logo que chegou ao outro lado, pôs o velho no chão, e ia despedir-se dele, quando o pobre lhe disse:

— Camarada, peça alguma coisa, que o que eu quero é agradecer-lhe.

— Ora o que lhe hei de eu pedir?

— Peça tudo o que quiser.

O soldado pediu: Que todas as vezes que disser: “Salta aqui à minha mochilinha!” nenhuma coisa deixe de obedecer à minha ordem. E que onde quer que me eu assente ninguém me possa mandar levantar.

O velho disse-lhe que estava concedido. Foi-se o soldado muito contente para casa e nunca mais trabalhou, e viveu bem, sem lhe faltar nada. Se queria pão, carne, vinho, dinheiro, dizia: “Salta aqui à minha mochilinha”, e tinha logo tudo o que lhe era preciso. Veio o tempo e o soldado estava para morrer; os diabos vieram logo para lhe levarem a alma, mas o soldado viu-os e gritou: “Saltem aqui já à minha mochilinha!” Os diabos não tiveram remédio senão obedecer; ele assim que os apanhou dentro da mochila mandou-a a casa do ferreiro para que lhe malhasse em cima até os deixar em estilhas. Por fim o soldado morreu, e como tinha passado sempre na má vida, foi parar ao inferno. Os diabos assim que o lá viram começaram a gritar:

Fecha portas e postigos,
Senão seremos aqui todos batidos.

E aferrolharam as portas, e o soldado não pôde entrar para lá; foi então bater às portas do céu. Sam Pedro assim que o viu, disse-lhe:

— Vens enganado! Não entras cá. Não te lembras da má vida que levaste?

Responde-lhe o soldado:

— Oh, senhor São Pedro! no inferno não me quiseram. Eu agora para onde hei de ir?

— Arranja-te lá como puderes.

O soldado viu meia porta do céu aberta, e pega no barrete e atira-o lá para dentro, e disse:

— Oh senhor São Pedro, deixe-me ir apanhar o meu barrete.

São Pedro deixou; mas o soldado assim que se viu dentro do portal, sentou-se logo na cadeira dele. São Pedro quis mandá-lo sair mas não pôde e foi dali à pressa queixar-se a nosso senhor, que lhe disse:

— Deixa-o entrar Pedro, não tens outro remédio, porque assim lhe estava prometido.

E o soldado sempre ficou no céu.

 

---
Ano de publicação: 1883
Origem: Portugal
(Algarve)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)

A Cara de Boi (Conto popular português), de Teófilo Braga

 

A CARA DE BOI
 

Era um rei, que tinha três filhos. Um dia disse:

— Pois, filhos, vão correr o mundo, e aquele que trouxer a mulher mais formosa é que há de ficar com o reino.

Partiram todos; os dois mais velhos acharam logo duas raparigas muito formosas, com quem se casaram. Uma era filha de uma padeira e a outra de um ferreiro. O mais novo andou por muitas terras, sem encontrar mulher que lhe agradasse.

Indo um dia por um escampado, cheio de fadiga, desceu do cavalo e deitou-se a uma sombra. Deu-lhe então na vista uma casa muito alta sem porta nenhuma, e só lá bem alto é que tinha uma janela. Esteve ali muito tempo, até que viu vir uma velha, que chegou ao muro da casa, bateu na parede e disse:

Arcelo, arcelo,
Deita o teu cabelo
Cá abaixo de repente,
Quero subir imediatamente.

Foi então que ele viu aparecer à janela uma trança de cabelo tão comprida, que ficou espantado com a sua beleza. A velha pegou-se a ela como se fosse uma corda e subiu para dentro de casa. Pouco tempo depois a velha tornou a sair, e o cavaleiro tendo desejo de ver de quem seria a trança, chegou-se à parede, bateu, e repetiu as palavras:

Arcelo, arcelo,
Deita o teu cabelo
Cá abaixo de repente,
Quero subir imediatamente.

A trança desceu pela janela abaixo, e o rapaz subiu. Ficou pasmado quando viu diante de si a cara mais linda do mundo. A menina deu um grande ai de aflição:

— Vá-se embora, senhor, que pode vir minha mãe, e tem artes de lhe causar todos os males que há.

— Não vou, sem a menina vir comigo, porque eu assim ganho o reino de meu pai. E se não quiser vir, boto-me desta janela abaixo.

Desceram ambos pela parede, e fugiram a toda a pressa no cavalo que estava folgado à sombra. Ainda não iam longe, quando ouviram uma voz:

— Para, para, filha cruel, não me deixes só no mundo.

E como a filha fosse sempre fugindo com o príncipe, a velha disse-lhe:

— Olha para trás ao menos, para receberes a bênção de tua mãe.

Assim que a menina se virou para trás, ela disse-lhe:

— Eu te fado, que essa cara linda que tens se torne em uma cara de boi.

Coitadinha, ficou logo com cara de boi.

Assim que o príncipe chegou à corte puseram-se todos a rir daquela figura horrenda, sem saber como ele se tinha apaixonado por cousa tão feia, que fazia fugir. O príncipe contou a sua desventura aos irmãos, mas quem é que se fiava? Estava quase a chegar o dia em que os três irmãos haviam de apresentar as suas mulheres diante de toda a corte, para se assentar qual era a mais linda, e qual deles é que havia de ficar com o reino.

A rainha velha tinha muita pena do filho, e lembrou-se de fazer demorar a cerimônia, para ver se a velha com o tempo perdoava à menina e lhe restituía a sua formosura.

Disse a rainha, que queria que antes da cerimônia da corte cada uma das suas três noras lhe bordasse um lenço. A filha da padeira e a do ferreiro não sabiam bordar, e trataram de enganar a rainha, arranjando quem lhes fizesse os bordados; a que tinha cara de boi pôs-se a chorar, e tanto chorou que lhe apareceu a velha, e disse:

— Não te rales mais; no dia em que tiveres de entregar o lenço à rainha eu cá to virei trazer.

Chegou o dia, e a velha veio entregar-lhe uma noz muito pequenina. A cara de boi foi levá-la à rainha, dizendo que ali estava o seu lenço. A rainha quebrou a noz e ficou pasmada com a mais fina cambraia, bordada com flores, ramos e aves.

Chegou o dia de irem à corte para serem apresentadas as três noras do rei; a cara de boi pôs-se a chorar, a chorar, até que lhe apareceu a velha que era mãe dela:

— Não chores mais; trago-te aqui um vestido para a festa. – Desdobrou-o; era todo bordado de ouro e pedrarias; a filha vestiu-o, mas quando o vestido era lindo, tanto ela ficava mais horrenda. E pôs-se a chorar, a chorar cada vez mais.

Quando já todos tinham entrado para a sala, faltava só ela; a velha disse-lhe:

— Vai agora tu.

A filha obedeceu, mais ia muito triste por ver-se tão medonha. Quando ia pelo corredor do palácio, a mãe disse-lhe cá de longe:

— Olha para trás. – E assim que a filha virou a cara, continuou: – Fica com a tua formosura. Mas não te esqueças de meteres nas mangas do vestido todos os bocadinhos de toucinho que puderes para me dar.

Então ela entrou na sala pelo braço do marido, e todos ficaram pasmados. A corte toda confessou que ela é que era a mais linda, e dali foram todos para a mesa do banquete. Enquanto estiveram jantando a menina não fazia senão meter bocadinhos de toucinho nas mangas do vestido; as outras duas, que a viam fazer aquilo, trataram de fazer o mesmo pensando que era moda. Acabado o jantar, começaram as danças, e a rainha ao ver o chão todo besuntado de gordura, e que a cada passo se escorregava em bocados de toucinho, perguntou quem é que fizera aquela porcaria. As damas disseram que o viram fazer à princesa herdeira, e por isso fizeram o mesmo. Começou cada uma a sacudir as mangas dos vestidos, e das mangas da menina começaram a cair aljofres e diamantes misturados com flores; as outras envergonhadas botaram-se pelas janelas fora, pelas escadas, corridas, e a que chamavam cara de boi é que veio a ser a rainha, porque o rei entregou a coroa ao filho.

 

---
Ano de publicação: 1883
Origem: Portugal
(Algarve)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)

O velho Querecas (Conto popular português), de Teófilo Braga

 

O VELHO QUERECAS
 

Eram três irmãs, muito pobres, que viviam do seu trabalho aturado. Naquela terra havia uma casa em que ninguém queria morar porque lá dentro ouviam-se de noite grandes gritos e terrores; as raparigas, para pouparem o aluguel, foram pedir para as deixarem morar naquela casa. A mais nova, como mais animosa, foi morar para o último andar.

Uma noite, mal ela se tinha acabado de deitar, ouviu uma voz gritar:

— Eu caio!

— Pois cai! — respondeu-lhe a rapariga. De um buraco do teto caiu uma perna. Depois soou de novo o mesmo grito:

— Eu caio!

— Pois cai! – repetiu a rapariga; e assim foram caindo os braços, o tronco, até que ela achou diante de si um homem já muito velho e calvo. O velho chegou-se próximo da rapariga, e perguntou-lhe:

— Não tens medo de mim?

— Não.

— Fazes muito bem; és a primeira e única pessoa que resiste ao medo de me ver. Em paga da tua coragem toma lá esta bolsa, e quando te vires nalguma aflição diz sempre: Valha-me aqui o velho Querecas.

O dinheiro da bolsa nunca se acabava, e as três irmãs começaram a viver com largueza. No entretanto a mais nova começou a sentir que por mais que se fechasse no seu quarto parecia-lhe que sentia meter-se alguém na cama com ela. Lembrou-se se seria o velho Querecas, e teve uma certa repugnância; mas para certificar-se, uma noite acendeu de repente a luz, e viu deitado ao pé dela um mancebo formoso, que estava adormecido. Estava tão embebida a olhar para ele, que lhe caiu um pingo de cera na cara. O mancebo acordou de repente, e disse:

— Ah! Desgraçada, o que fizeste; dobraste-me o encantamento, que estava quase no fim! Agora não me tornas mais a ver.

A menina chorou muito, e ainda mais quando conheceu o estado em que se achava. Lembrou-se então do segundo dom, e disse:

— Valha-me aqui o velho Querecas.

— Aqui estou já, e bem sei por que me chamas. Há só um modo de remediar o mal que a ti mesma fizeste. Toma lá estes três novelos, e vai andando sempre, sempre até onde eles se acabarem; onde quer que seja pede que te deem aí pousada do ar da noite.

A rapariga chorou por ter de deixar as irmãs, mas o que ela queria era quebrar o encantamento daquele moço; foi andando, andando até ir dar ao fim de muito tempo a um palácio cercado de um rico jardim. Espreitou pelo buraco da chave, e viu lá dentro uma sala com muitas mulheres trabalhando em lindos vestidos de noivado, e fazendo as roupinhas de uma criança. Teve receio de bater àquela porta, e foi rodeando o palácio, até que encontrou o hortelão, a quem pediu pousada. O hortelão respondeu-lhe:

— Você sabe em casa de quem está para vir assim pedir pousada?

— O que sei é que já me não tenho de cansada; e é por uma esmola.

O hortelão teve dó da rapariga e deu-lhe um canto no palheiro; ela deitou-se mais morta que viva, e ali mesmo deu um menino à luz. Tudo aquilo se transformou num quarto muito asseado e rico. Quando o hortelão veio ao outro dia, ficou pasmado com o que viu. Foi dar logo parte à rainha, que também quis certificar-se da maravilha.

Quando chegou ao lugar em que estava a menina deu um grito ao ver a criança:

— Oh senhora! Quem é o pai deste menino?

A rapariga ficou muito envergonhada por não poder logo dizê-lo; no meio da sua confusão contou o caso do velho Querecas. Foi então que a rainha se lembrou:

— Esse menino é o retrato de meu filho, que me desapareceu, sem nunca mais saber dele nova má nem boa.

A rainha levou a rapariga para o palácio, tratou de lavar a criança, e quando a despiu achou-lhe nas costas um grande sinal. Reparou, e viu que era um pequeno cadeado com uma chavinha. Quis ver se o abria, mas com receio disse à mãe que experimentasse a ver se dava volta àquela chavinha. Logo que a mãe pegou na chave abriu o cadeado, e imediatamente se quebrou o encantamento do príncipe que deveu a sua liberdade ao ânimo daquela rapariga com quem casou logo.

 

---
Ano de publicação: 1883
Origem: Portugal
(Algarve)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)

O Surrão (Conto popular português), de Teófilo Braga

 

O SURRÃO
 

Era uma vez uma pobre viúva, que tinha só uma filha que nunca saía da sua beira; outras raparigas da vizinhança foram-lhe pedir, que na véspera de São João deixasse ir a sua filha com elas para se banharem no rio. A rapariga foi com o rancho; antes de se meterem no banho, disse-lhe uma amiga:

— Tira os teus brincos e põe-nos em cima duma pedra, porque te podem cair na água.

Assim fez; quando estavam a brincar na água passou um velho, e vendo os brincos em cima de uma pedra, pegou neles e deitou-os para dentro do surrão.

A rapariga ficou muito aflita quando viu aquilo, e correu atrás do velho que já ia longe. O velho disse-lhe que entregava os brincos, contanto que ela os fosse buscar dentro ao surrão. A rapariga foi procurar os brincos, e o velho fechou o surrão, com ela dentro, botou-o às costas e foi-se de vez. Quando as outras moças apareceram sem a sua companheira, a pobre viúva lamentou-se sem esperança de tornar a achar a filha. O velho, ao passar a serra, abriu o surrão e disse para a pequena:

— Daqui em diante hás de me ajudar a ganhar a vida; eu ando pelas ruas, a pedir, e quando disser:

Canta surrão,
Senão levas com o bordão…

tens de cantar por força. Toma tento.

Por toda a parte por onde o velho passava todos ficavam admirados daquela maravilha. Chegou a uma terra, aonde já chegara a notícia de um velho que fazia cantar um surrão, e muita gente o cercou para se certificar. O velho depois que viu que já estavam bastantes curiosos, levantou o pão e disse:

Canta surrão,
Senão levas com o bordão.

Ouviu-se então um canto que dizia:

Estou metida neste surrão,
Onde a vida perderei,
Por amor dos meus brinquinhos
Que eu na fonte deixei.

As autoridades tiveram conhecimento daquele caso, e trataram de ver onde é que o velho pousava; foram ter com uma vendeira, que se prestou a deixar examinar o surrão quando o velho estivesse dormindo. Assim se fez; lá encontraram a pobre rapariga, muito triste e doente, que contou tudo, e então é que se soube do caso da viúva a quem tinham furtado a filha. A pequena saiu com as autoridades, que mandaram encher o surrão de todas as porcarias, de sorte que quando o velho foi ao outro dia mostrar o surrão, este não cantou; deu-lhe com o bordão, e então derramou-se pelo chão toda aquela porcaria que o povo lhe obrigou a lamber, sendo dali levado para a cadeia, e a menina para casa de sua mãe. 

 

---
Ano de publicação: 1883
Origem: Portugal
(Algarve)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)

O sal e a água (Conto popular português), de Teófilo Braga

 

O SAL E A ÁGUA
 

Um rei tinha três filhas; perguntou a cada uma delas por sua vez, qual era a mais sua amiga. A mais velha respondeu:

– Quero mais a meu pai, do que à luz do Sol.

Respondeu a do meio:

– Gosto mais de meu pai do que de mim mesma.

A mais moça respondeu:

– Quero-lhe tanto, como a comida quer o sal.

O rei entendeu por isto que a filha mais nova o não amava tanto como as outras, e pô-la fora do palácio. Ela foi muito triste por esse mundo, e chegou ao palácio de um rei, e aí se ofereceu para ser cozinheira. Um dia veio à mesa um pastel muito bem feito, e o rei ao parti-lo achou dentro um anel muito pequeno, e de grande preço. Perguntou a todas as damas da corte de quem seria aquele anel. Todas quiseram ver se o anel lhes servia: foi passando, até que foi chamada a cozinheira, e só a ela é que o anel servia. O príncipe viu isto e ficou logo apaixonado por ela, pensando que era de família de nobreza.

Começou então a espreitá-la, porque ela só cozinhava às escondidas, e viu-a vestida com trajos de princesa. Foi chamar o rei seu pai e ambos viram o caso. O rei deu licença ao filho para casar com ela, mas a menina tirou por condição que queria cozinhar pela sua mão o jantar do dia da boda. Para as festas de noivado convidou-se o rei que tinha três filhas, e que pusera fora de casa a mais nova. A princesa cozinhou o jantar, mas nos manjares que haviam de ser postos ao rei seu pai não botou sal de propósito. Todos comiam com vontade, mas só o rei convidado é que não comia. Por fim perguntou-lhe o dono da casa, por que é que o rei não comia? Respondeu ele, não sabendo que assistia ao casamento da filha:

– É porque a comida não tem sal.

O pai do noivo fingiu-se raivoso, e mandou que a cozinheira viesse ali dizer porque é que não tinha botado sal na comida. Veio então a menina vestida de princesa, mas assim que o pai a viu, conheceu-a logo, e confessou ali a sua culpa, por não ter percebido quanto era amado por sua filha, que lhe tinha dito, que lhe queria tanto como a comida quer o sal, e que depois de sofrer tanto nunca se queixara da injustiça de seu pai.

 

---
Ano de publicação: 1883
Origem: Portugal
(Porto)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)

A saia de esquilhas (Conto popular português), de Teófilo Braga

 

A SAIA DE ESQUILHAS
 

Um homem rico tinha três filhas, e costumava ir passar o verão com elas para o campo; ao voltar para a corte ficou a filha mais velha, que era muito esperta, encarregada de arranjar a bagagem. Depois de ter tudo arrumado e pronto para partir, foi ter com a caseira da quinta, que andava no arranjo da sua casa. Em cima de uma caixa estava uma roca com estopa, e a menina pegou nela para se entreter:

— Menina, não pegue nessa roca; pode meter alguma pua pelas unhas, e olhe que faz grandes dores.

A velha continuou a governar a sua casa, quando sentiu um grito; veio ver o que era. Era a menina que tinha caído desmaiada, sem sentidos. Deu-lhe a cheirar alecrim, alfazema, mas ela não voltava a si. Apoquentada com aquela desgraça, escondeu a menina, e logo que anoiteceu foi deitá-la na tapada real; pôs-lhe uma almofada para recostar a cabeça e cobriu-a com uma manta, fingindo que estava ali a dormir. Passado outro dia foi lá ver se a menina teria dado acordo de si. Nada. Calou-se muito calada e voltou para sua casa.

O príncipe costumava sempre andar à caça, e num dia recolheu-se àquela tapada, porque lhe anoiteceu depressa; mas foi grande o seu espanto quando descobriu ali uma menina muito formosa, a dormir, sozinha. Esteve primeiro a olhar para ela muito tempo; já se sentia apaixonado, e quis acordá-la; ela estava corada e risonha, mas não se movia. O príncipe quis acordá-la, porque bem conhecia que não estava morta, queria-lhe falar. Foi tudo impossível. Ali ficou junto dela, e todas as vezes que podia, fingia que ia para a caça, mas não fazia senão vir sentar-se para o pé da menina que ele já amava com loucura. Só o criado que o acompanhava é que sabia do segredo. O príncipe vinha à corte de fugida só quando era preciso, e tornava para a tapada, onde guardava a menina adormecida, que ainda assim veio a ter três filhos.

As crianças foram crescendo, e cada vez se tornavam mais encantadoras; mas o príncipe tinha uma grande pena da mãe estar naquele estado. Um dia andando um dos pequeninos a brincar em cima da cama, começou a pegar nas unhas da mãe, e por acaso, sem saber como, fez-lhe saltar da unha a pua que causara aquela doença. O príncipe, que estava ali, ficou maravilhado por vê-la mexer-se logo e começar a falar e a beijar os filhos, como se tivesse voltado à vida. O príncipe contou-lhe tudo como se tinha passado até ali, e disse-lhe que os seus três filhos se chamavam Cravo, Rosa e Jasmim. A rainha já andava desconfiada daquelas ausências do filho, e tratava de ver se descobria alguma coisa.

Uma ocasião o príncipe teve de ir a uma grande feira, e perguntou à sua namorada se queria que lhe trouxesse de lá alguma coisa; depois de muitas instâncias sempre disse:

— Pois traze-me de lá uma saia de esquilhas.

Não havia lá isso, mas o príncipe mandou-a fazer de propósito; era uma saia cheia de guizos, que tirilintavam. A menina ficou muito contente com a lembrança. Mas a rainha que maquinava a sua vingança, e que pelo pajem que acompanhava o filho já sabia tudo, fez com que o príncipe se demorasse muitos dias na corte. O filho com medo do gênio ruim da rainha não dizia nada, mas andava cheio de saudades; foi de uma vez que ela lhe ouviu um suspiro:

— Ai de mim,
Cravo, Rosa e Jasmim.

Isto lhe confirmou a verdade; a rainha chamou o pajem e disse-lhe:

— Vai já, quando não mando-te matar, e traze-me aqui o menino Cravo. Diz lá à minha nora que é ordem do príncipe, que me contou tudo.

O pajem trouxe o menino; mas a velha rainha entregou-o à criada dizendo:

— Ensopa-me esse menino para o jantar.

Quando o filho estava jantando, e com fastio, porque andava muito triste, a mãe disse-lhe:

— Come, come, que teu é.

Passados dias a rainha deu ordem ao pajem para ir buscar a menina Rosa. Seguiram-se as mesmas coisas. Depois deu ordem para lhe trazer o menino Jasmim. O príncipe já andava doente, e a velha rainha, dizia-lhe sempre à mesa:

— Come, come, que teu é.

Por fim não contente ainda desta vingança, mandou dizer à nora, que viesse à corte, porque a queria casar com o seu filho. A menina que já andava morta de saudades, por se ver sem os seus filhos, vestiu-se à pressa com a sua saia de esquilhas, e partiu para a corte. A rainha estava à espera dela e assim que a viu, deixou-a entrar para um corredor, e lançou-lhe as unhas furiosa para a afogar. A menina lutou para ver se lhe escapava, e quanto mais lutava, mais barulho fazia a saia de esquilhas.

O príncipe, que estava de cama, assim que ouviu aquele som lembrou-se de sua mulher e levantou-se para ir ver o que era. Viu a rainha querendo estrangular a nora. Chamou gente; e foi então que se soube das ordens que a rainha tinha dado para matarem os netos. O príncipe ainda ficou mais aflito e começou a gritar:

— Ai de mim,
Cravo, Rosa e Jasmim!

Foi então que a criada da coxinha disse que não tinha cumprido as ordens da rainha, e que tinha escondido os meninos. A rainha foi condenada, e o pajem sentenciado à morte, e a cozinheira em paga foi feita dama da nova rainha.

 

---
Ano de publicação: 1883
Origem: Portugal
(Algarve)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)

As três fadas (Conto popular português), de Teófilo Braga

 

AS TRÊS FADAS
 

Era uma vez uns casados que não tinham filhos, e viviam por isso muito descontentes. A mulher foi-se confessar ao Padre Santo Antônio, e contou-lhe o seu desgosto. O santo deu-lhe três maçãs, para que as comesse em jejum. A mulher chegou a casa, pôs as três maçãs sobre uma cômoda, e foi arranjar o almoço. O marido vindo de fora encontrou as três maçãs e comeu-as.

Ao almoço a mulher contou o sucedido na confissão, e o marido ficou todo assustado. A mulher foi outra vez falar com o santo, que lhe disse:

— Pois os trabalhos por que tinhas de passar, o teu marido que os passe.

Chegado o tempo o homem começou a gritar, chamou-se pessoa entendida, e abriram-no para o aliviar. O homem desesperado mandou deitar a criança no monte. Uma águia desceu do ar e levou a criança no bico e lá a criou com o leite que ia tirar às vacas que andavam pastando, e agasalhava-a com a roupa que pilhava pelos estendedouros. Fez-lhe uma casinha de palha, e ali se criou a pobre criança, que se tornou uma menina formosa.

Um dia passou por aquelas montanhas um príncipe que andava à caça; viu aquela menina tão linda, e perguntou-lhe se ela queria ir com ele. Respondeu que sim. Quando a meteu na carruagem, acudiu a águia para lha tirar, mas não podendo ainda lhe vazou um olho. A menina ficou com aquele grande defeito, mas o príncipe não deixou de a amar. Levou-a consigo, e escondeu-a no seu quarto no palácio. A rainha desconfiada de ver o filho sempre fechado no seu quarto, quis saber o que seria, e combinou uma grande caçada, que durava dias. Foram todos e por lá andaram, e a rainha pôde entrar no quarto do filho por uma porta que só ela sabia. Assim que entrou viu a menina:

— Ah! és tu, torta zarolha, que tanto encantas o meu filho? Anda de aí ver estes palácios e o jardim.

A menina foi com a rainha; assim que chegaram ao jardim, levou-a para o pé de um poço muito fundo, e deitou-a lá dentro. Quando veio o filho da caça, foi logo ter com ele:

— Aquela torta zarolha que tinhas fechada no teu quarto, assim que se lhe abriu a porta, botou a correr por aí fora, e ninguém foi capaz de a apanhar.

De noite passaram três fadas pelo pé do poço e sentiram uns gemidos:

— Que será? que não será?

— São vozes de mulher.

Chegaram à borda do poço para escutarem melhor, e disse uma das fadas:

— Eu te fado que saias desse poço cá para fora, e que sejas da maior perfeição do mundo.

— Pois eu te fado que tenhas uma tesourinha de prata, para cortares a língua a quem te perguntar as coisas duas vezes.

— E eu te fado que tenhas um palácio defronte do palácio da rainha, que seja velho por fora, mas por dentro chapeado de ouro e prata.

Ao outro dia, ficaram todos espantados no paço por verem um grande palácio antigo defronte, sem se lembrarem como e quando é que o ali edificaram. A rainha ainda ficou mais pasmada com aquilo, e mandou o seu velho camareiro saber o que era, e quem morava ali. 

O camareiro entrou no velho palácio mas ficou assombrado com o que viu por dentro; apareceu-lhe uma menina muito ricamente vestida, a quem fez as perguntas de mandado da rainha. Ela respondeu:

Diga a sua majestade
Que minha mãe me desejou,
Que foi meu pai que me teve
E nas silvas me deitou;
Uma águia me criou,

Na caça o príncipe me achou,
A rainha ao poço me deitou,
Mas três fadas me fadaram,
Para aqui me trouxeram
E eu d’aqui me não vou.

O camareiro não ficou logo com o recado na cabeça, e pediu à menina para o repetir; e ela disse então:

— Desanda tesourinha.

Caiu-lhe a língua num instante; o camareiro voltou para o palácio, e só podia dizer: ló-ló-ró, ló-ló-ró. A rainha mandou lá outro fidalgo, mas também lhe sucedeu o mesmo. Por fim foi lá o príncipe, e quando ouviu aqueles versos que a menina dizia, veio dar parte à rainha, que se quis certificar com os seus olhos, e depois deu licença para o filho casar com ela.

 

---
Ano de publicação: 1883
Origem: Portugal
(Algarve)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)