terça-feira, 7 de dezembro de 2021

O soldado que foi para o céu (Conto popular português), de Teófilo Braga

 

O SOLDADO QUE FOI PARA O CÉU

Ia uma vez um soldado para casa com a baixa; quando ia a passar por uma ponte encontrou um pobre de pedir, que não tinha dinheiro para pagar a passagem e estava ali parado. Ora o soldado nunca tinha feito bem a ninguém; mas naquele instante teve pena do velhinho e carregou com ele às costas e passou a ponte. O soldado não pagou nada, porque os soldados não pagam, e o velho também não pagou nada porque ia às costas do soldado. Logo que chegou ao outro lado, pôs o velho no chão, e ia despedir-se dele, quando o pobre lhe disse:

— Camarada, peça alguma coisa, que o que eu quero é agradecer-lhe.

— Ora o que lhe hei de eu pedir?

— Peça tudo o que quiser.

O soldado pediu: Que todas as vezes que disser: “Salta aqui à minha mochilinha!” nenhuma coisa deixe de obedecer à minha ordem. E que onde quer que me eu assente ninguém me possa mandar levantar.

O velho disse-lhe que estava concedido. Foi-se o soldado muito contente para casa e nunca mais trabalhou, e viveu bem, sem lhe faltar nada. Se queria pão, carne, vinho, dinheiro, dizia: “Salta aqui à minha mochilinha”, e tinha logo tudo o que lhe era preciso. Veio o tempo e o soldado estava para morrer; os diabos vieram logo para lhe levarem a alma, mas o soldado viu-os e gritou: “Saltem aqui já à minha mochilinha!” Os diabos não tiveram remédio senão obedecer; ele assim que os apanhou dentro da mochila mandou-a a casa do ferreiro para que lhe malhasse em cima até os deixar em estilhas. Por fim o soldado morreu, e como tinha passado sempre na má vida, foi parar ao inferno. Os diabos assim que o lá viram começaram a gritar:

Fecha portas e postigos,
Senão seremos aqui todos batidos.

E aferrolharam as portas, e o soldado não pôde entrar para lá; foi então bater às portas do céu. Sam Pedro assim que o viu, disse-lhe:

— Vens enganado! Não entras cá. Não te lembras da má vida que levaste?

Responde-lhe o soldado:

— Oh, senhor São Pedro! no inferno não me quiseram. Eu agora para onde hei de ir?

— Arranja-te lá como puderes.

O soldado viu meia porta do céu aberta, e pega no barrete e atira-o lá para dentro, e disse:

— Oh senhor São Pedro, deixe-me ir apanhar o meu barrete.

São Pedro deixou; mas o soldado assim que se viu dentro do portal, sentou-se logo na cadeira dele. São Pedro quis mandá-lo sair mas não pôde e foi dali à pressa queixar-se a nosso senhor, que lhe disse:

— Deixa-o entrar Pedro, não tens outro remédio, porque assim lhe estava prometido.

E o soldado sempre ficou no céu.

 

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Ano de publicação: 1883
Origem: Portugal
(Algarve)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)

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