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sábado, 1 de janeiro de 2022

Barceloz (Conto Popular), de Sílvio Romero

 

BARCELOZ

Em uma noite chuvosa de fazer horror estavam três fadas cumprindo o seu fado no jardim que ficava ao lado da casa de Barceloz, namorador das flores em botão, no que levava as noites todas velando. Como eram, por esse motivo, as fadas privadas de cumprir com sua missão naquele lugar, combinaram encantar a Barceloz na ocasião em que estivesse namorando o bogari. Apareceram nessa noite tenebrosa as três fadas, e na ocasião em que chegou o moço à janela puseram-se a julgá-lo. Dizia a primeira: 

— Este, que nos tem atrapalhado, há de sete anos não falar, e tendo esta flor para seu sustento.

A segunda disse: 

— Neste tempo há de tornar-se em mato virgem, não vindo alma viva nestes ermos durante os sete anos.

— A terceira disse: 

— Só há de ser desencantado pela filha da Peregrina, que está cumprindo a mesma pena.

Ditas estas palavras Barceloz encantou-se, a casa e todos que nela existiam. Quando Barceloz estava com seis anos de encanto a Ninfa, filha da Peregrina, completou os sete, e seguiu o mesmo destino de sua mãe, retirando-se em direção ao Reino da Torre de Ouro.

Anoitecendo-lhe no meio do caminho, e sendo noite escura e chuvosa, ela, como mulher, teve medo de ficar nas matas medonhas, e continuou a andar, a ver se encontrava alguma casa. Perdendo a esperança de a encontrar procurou uma árvore bem copuda e agasalhou-se debaixo à espera do sol. Alta noite chegaram as fadas, e então disse a primeira: 

—  Fademos, manas, fademos; no Reino da Torre de Ouro tem de haver uma grande festa, e tem-se de fazer uma escolha para desencantarem a mata que foi Barceloz, o Campo Negro, e a Bela das Belas. Estes três reinos têm de ser desencantados pelas três Peregrinas. Ninfa desencanta a Barceloz, a Morena desencanta a Bela das Belas, e Nandi o Campo Negro.

Ninfa que aí estava ouviu toda a conversa, pôs-se quieta e assustada.

Ao romper do dia pôs-se em caminho, e chegou trêmula de fome à beira de um rio, onde estava uma velha lavando roupa. A velha disse: 

— Minha netinha, o que faz você por aqui? Como é tão bonitinha! Eu quero levá-la para minha casa: quer morar comigo?

A moça respondeu: 

— Não posso ficar morando, posso ficar uns dias para descansar da viagem.

— Eu — disse a velha — só quero ter o gosto de te ver em minha casa.

Seguiram ambas. Chegando elas à casa, tiniam todas as coisas como se fossem repiques de sinos, e a Peregrina ficou pasmada de ouvir tanto rumor em sua chegada. A velha respondeu:

— Isto é meu filho que te desconheceu.

A velha apresentou a Peregrina ao filho, e este perguntou-lhe para onde ia. 

— Vou — respondeu a moça — ao Reino da Torre de Ouro; vou desencantar a um infeliz que está encantado no Reino das matas.

Disse então o monstro: 

— Ainda este ano lá não chegarás, e podes ir descansada que não hás de desencantar a Barceloz, pois só um beija-flor que ele tem a beijar; o bogari dar-te-á cabo da pele, e também uma serpente ao pé da janela, que só o vê-la faz horror; mas como minha mãe muito te quer, eu te vou dar alguns esclarecimentos. Leva este bogari e esta bola de vidro; acharás por estes dois objetos avultada quantia, que não deves aceitar. O rei também há de querer comprá-los; também lho não vendas. Ao chegares a Barceloz deve ser ao meio-dia, hora em que o beija-flor foi à fonte, e a serpente dorme; põe a flor na boca de Barceloz, e a bola na boca da serpente, e espera que venha o beija-flor; na chegada dele tira a flor do ramo e guarda. Quando o passarinho beijar a flor que está na boca de Barceloz, o passarinho cai, e a serpente acorda e quer morder, mas quebra os dentes na bola. Barceloz então se desencanta, aparece o palacete, e deves tirar do dedo do moço um anel que deves guardar para quando fores chamada pelo rei, e ele há de servir de sinal para casares com o moço, vencendo as invejosas.

Assim fez a Ninfa. Depois de tudo acabado, foi ela ter à presença do rei. Todos os sábios duvidaram que essa tivesse tanto ânimo. Ela mostrou o anel, que todos reconheceram. De repente chegou outra mulher, dizendo que ela é que tinha desencantado a Barceloz, e a Ninfa foi condenada à morte; mas foi livre por não ter a outra apresentado prova alguma; foi então aquela condenada à morte, casou-se Ninfa com Barceloz, havendo muita festa pra festa.



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Ano de publicação: 1883
Origem: Sergipe (Brasil)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2022)

História de João (Conto Popular), de Sílvio Romero

 

HISTÓRIA DE JOÃO

Houve um homem que teve um filho chamado João: morrendo o pai o filho herdou um gato, um cachorro, três braças de terra e três pés de bananeiras. João deu o cachorro ao vizinho, vendeu as bananeiras e as terras, e comprou uma viola. Foi tocar no pastorador das ovelhas do rei; quando o pastor chegava, ele se escondia, e nunca o pastor podia ver quem tocava a viola. As ovelhas, já muito acostumadas com o som da viola, não queriam mais se recolher ao curral, e quando o vaquejador as perseguia elas se metiam pelo mato, e cada dia desaparecia uma cabeça. João as ia ajuntando e exercitando ao som da viola todas as manhãs e tardes, e acostumando-as com o gato seu companheiro. O rei vendo as suas ovelhas sumidas, e pensando ser desmazelo do pastor, o despediu. Vindo João à feira fazer compras para levar para o mato, viu um criado do rei procurando um homem ou menino que quisesse ser pastejador de suas ovelhas. Logo que o criado viu a João se agradou dele, e disse: 

— Amarelo, queres tu servir ao rei como seu pastor?

Respondeu João: 

— Que qualidade de rei é este que não caça e pasta no mato e precisa de ser pastorado? Esse rei é de pena, pelo ou cabelo?

O criado insultou-se, e disse-lhe: 

— Como te chamas?

João respondeu: 

— O Menino Ditoso.

O criado tomou-lhe o nome e largou-se para o palácio, e contou ao rei o que se tinha passado. Logo o rei mandou buscar o Ditoso debaixo de prisão. Chegou João com a sua viola e o gato metido num saco, e disse:

Deus vos salve, rei senhor,
nesta sua monarquia!
Salve a mim primeiramente
e depois a companhia.

Disse o rei: 

— Saibas que estás com sentença de morte, se não deres conta de todas as ovelhas que fugiram do rebanho.

Respondeu o Ditoso: 

— Eu sei lá quantas ovelhas faltaram no rebanho! 

Disse o rei: 

— Fugiram mil e quero todas aqui.

Retirou-se o João bem fresco; foi para o mato e deitou-se a dormir, e o gato foi caçar rolas para o jantar. Chegando a tarde, acordou o Ditoso e viu que nada ainda tinha feito, e pôs-se a tocar viola. Logo se reuniram todas as ovelhas, que eram duas mil e trezentas. Ele foi tocando a viola e seguindo para o palácio do rei, e as ovelhas foram acompanhando. O rei ficou espantado de ver tantas ovelhas, e disse-lhe: 

— Como pudeste ajuntar tantas ovelhas?

Respondeu: 

— Achei-as à toa.

— Serão minhas todas?  perguntou o rei. 

— Quem sabe não sou eu; veja se as conhece, eu trouxe as que encontrei.

— Tu agora tomarás conta do rebanho, que agora és meu pastor.

No outro dia antes do sol sair, o Ditoso pediu que batessem na porta do rei e dissessem que era tempo de seguirem para o mato. O rei acorda e chega à janela e diz: 

— Vai, Ditoso, pastorar.

O Ditoso respondeu: 

— Não posso sair sem rei, senhor, seguir no meio do rebanho, visto ser eu seu pastor, como disse.

— És o pastor das ovelhas do rei  disse este. 

— Agora sim — respondeu João  já me convenço de que o rei, meu senhor, não é de lã, nem de pena ou pelo; é rei de cabelo.

Nisto seguiu com o gato e as ovelhas para o mato.

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Ano de publicação: 1883
Origem: Sergipe (Brasil)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2022)

Os três irmãos (Conto popular), de Sílvio Romero

 

OS TRÊS IRMÃOS

Um homem teve três filhos que lhe pediram para aprender cada um o seu ofício. João aprendeu a ferreiro, José a carpinteiro e Joaquim a barbeiro. João e José pediram depois ao pai para irem ganhar a sua vida, e lhe pediram a bênção. Joaquim também pediu para ir ganhar a sua vida, e em vez de bênção pediu a sua herança. Quando este saiu deu uma topada que despegou uma unha do pé, e disse:

— Diabo te leve, portada do inferno!

O pai respondeu: 

—Nele entrarás, maldito!

O filho partiu para se encontrar com os irmãos; andou mais de um mês e não os encontrou. Desenganando-se de os não encontrar deixou-se ficar numa cidade, e, por ser noite, foi dormir na guarda do tesouro. Nesta noite entraram quatro ladrões para roubarem o tesouro e Joaquim foi preso com eles. Não tendo Joaquim pessoa que o conhecesse, escreveu ao pai, que não lhe respondeu.

O ferreiro da cadeia mandou procurar um oficial do ofício e João se apresentou. Tomou parte na tenda e passou a contramestre, e depois a mestre. Precisou-se também de um carpinteiro e apresentou-se José. No dia em que este se apresentou na cadeia, saía Joaquim escoltado para a forca. Os dois irmãos foram-se empenhar com o rei e a rainha para o soltarem. O rei respondeu: 

— Minha palavra não torna atrás.

Partiram-se os irmãos sem esperança. Os quatro ladrões tinham sido absolvidos e toda a culpa recaía sobre Joaquim. Quando estava ele já para ser enforcado, chegou um cavaleiro, ordenando que suspendessem os trabalhos, e entrou pelo palácio adentro e disse ao rei: 

—Venho para que atendas ao pedido que te fizeram os irmãos daquele padecente; isto já quanto antes, senão morrerás tu e ficará ele salvo e com a coroa.

Num abrir e fechar de olhos, deu o cavaleiro, que era o demônio, três estouros, e morreu o rei, ficando Joaquim com a coroa. João e José ficaram como vassalos do irmão. O boato de tal grandeza chegou aos ouvidos do pai de Joaquim, que correu e foi pedir perdão ao filho pelo que lhe tinha dito, quando saíra ele de casa. Joaquim respondeu-lhe: “Eu passei por muitos maus transes e quem me salvou foi o diabo; quem há de valer a vossemecê dos mesmos transes será rainha mãe:

Quero agora que me mostre
traste que desde que nasci
nunca, nunca eu conheci!
Para a sua salvação
quero me diga afinal
onde foi ela parar...

Respondeu o velho: 

— Rei senhor, filho meu, tua mãe eu a matei por ter dado à luz três filhos de uma vez; eu te criei com leite de uma vaca que está em poder do Rei das Colunas no Campo das Feras.

O rei disse: 

— Quero minha mãe e a vaca que me amamentou, e isto sem demora.

Retirou-se o velho muito triste; encontrou um cavaleiro que lhe perguntou o que tinha, ao que o velho respondeu que nada sofria, mas sentia ir morrer por vontade de seu filho: “porque para livrar-me é preciso dar-lhe conta de minha mulher e de uma vaca; a mulher matei-a e a vaca vendi-a. Não tenho remédio; estou perdido.” Respondeu o cavaleiro: 

— Não digas tal; tudo isto tem remédio. Quando acabares de percorrer os três rios deste reinado, hás de achares o que procuras; os rios distam uns dos outros mil léguas.

Tratou o velho de seguir viagem. 

No cabo de quinhentos dias chegou ao primeiro rio. Ficou na margem do rio, por o não poder atravessar, e à noite deitou-se debaixo de um arvoredo. À meia-noite chegaram os diabinhos para fazerem suas visagens; no mesmo instante o velho acorda e põe-se a escutar. Pergunta o diabo mais velho: 

— Ó capenga, diz-me o que fizeste?

Respondeu o capenga: 

— No reino das Três Colunas eu fiz uma mulher conceber três filhos de uma só vez; porque sabia que o marido a havia de matar.

Os diferentes diabinhos foram contando as suas façanhas: — Eu fiz o marquês da Bruma queimar as librés dos seus criados; — eu tenho a filha da condessa escondida no Vale do Sultão; — eu fiz a princesa namorar o estribeiro do rei; eu fiz a rainha vender a coroa.

Cada diabo dava uma resposta destas. Findou-se a sessão. O velho levantou-se e pôs-se a viajar. No fim de quinhentos dias chegou ao segundo rio, e aí na margem deitou-se a dormir. À meia-noite começaram as fadas a chegar para fazer seu ajuntamento. Disse a fada mais velha: 

— Fademos, manas, o que fizeram?

Começaram as fadas a dar as suas respostas: 

— Eu fiz um rei deserdar do trono a princesa; 
— eu fiz o Reino das Maravilhas encantar-se, só o desencantará o João ferreiro, que é vassalo do irmão; —  eu encantei a Cidade de Âmbar, só a desencanta o José carpinteiro; — eu encantei o Reino das Três Colunas, só o desencantará Jorge, pai dos três felizes, que todos três hão de ser reis, depois que o pai andar mil e quinhentos dias; terá de passar três dias debaixo d’água e ser comido pela serpente; depois de tudo isto será feliz.

O velho só por ouvir isto já estava mais morto do que vivo, por ver que tinha de passar tantos trabalhos. Pôs-se a caminho sem descansar. Estando muito fatigado, deitou-se num capão de mato e pegou no sono. Então ouviu uma voz que lhe dizia:

— Levanta-te, segue tua viagem senão serás vítima de uma serpente.

O velho acordou e pôs-se a correr; mas já era tarde, e foi engolido vivo por uma serpente. No ventre da serpente esteve o Jorge 496 dias, quando ela entrou num rio e levou três dias no fundo como se fosse peixe. Depois foi dar à costa nas matas encantadas do reino das Três Colunas, e aí morreu, saindo para fora o velho ainda vivo, mas muito magro e abatido. Pegou no sono e ouviu uma voz que dizia:

— Levanta-te, acompanha-me, pega estas chaves, abre aquela porta, e vai abrindo quantas fores achando; hás de ver dentro de uma bola de vidro um cabelo, dentro de uma caixa uma pedra e dentro de uma gaveta uma espada. Amola esta espada até ficar bem afiada e corta o cabelo nos ares. Se o não cortares de uma só cutilada, todos os bichos ferozes virão sobre ti e te devorarão. Se cortares de uma só vez serás feliz.

Jorge seguiu tremendo e medroso; abre as portas e encontra os objetos: amolou a espada um dia inteiro. Depois deu o golpe no cabelo e o cortou, enchendo a casa de sangue, tantos pingos quantos soldados. Achou sua mulher e a sua vaca.

Houve muitas festas, mandando Jorge todos adorar a vaca. Ficou bem com seu filho, e foram todos felizes.


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Ano de publicação: 1883
Origem: Sergipe (Brasil)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2022)

A Mãe d'Água (Conto popular), de Sílvio Romero

 

A MÃE D'ÁGUA


Foi uma vez havia uma princesa, que era filha de uma fada e do rei da Lua. A fada ordenou que a princesa fosse a rainha de todas as águas da terra, e governasse todos os mares e rios. A Mãe d’água, assim se ficou chamando a princesa, era muito bonita, e muitos príncipes se apaixonaram por ela. Mas foi o filho do Sol que veio a se casar com ela, ao depois de ter vencido todos os seus rivais em combate. Quando se deu o casamento houve muitas festas e danças e banquetes, que duraram sete dias e sete noites. As festas foram na casa do rei da Lua; acabadas elas os noivos partiram para a casa do Sol. Aí a princesa Mãe d’água disse ao seu marido que desejava passar com ele todo o ano, exceto três meses que havia de passar com sua mãe. 
O príncipe consentiu, porque fazia em tudo a vontade de sua mulher. Todos os anos a Mãe d’água ia passar com sua mãe debaixo do mar num rico palácio de ouro e de brilhantes os três meses do contrato. No cabo de muito tempo a nova rainha deu à luz um príncipe. 
Quando a princesa teve de ir de novo visitar a fada, sua mãe quis levar o principezinho, mas o rei não consentiu; e tanto rogou e pediu, que a rainha partiu sozinha, recomendando ao marido que tivesse muito cuidado no filho. Chegando no palácio da fada, a princesa a não encontrou porque ela estava mudada em flor. A moça desesperada começou a correr mundo, procurando a sua mãe. Então ela perguntou aos peixes dos rios, às areias do mar, às conchas das praias por sua mãe, e ninguém lhe respondia. Tanto sofreu e se lastimou que afinal o Rei das Fadas teve pena dela e perdoou a sua mãe, que se desencantou. Ambas, mãe e filha se largaram à toda a pressa para a casa do rei filho do Sol. Mas tinha-se já passado tanto tempo que o rei, vendo que sua esposa não vinha mais, ficou muito desesperado. 
Correu então o boato que a rainha tinha-se apaixonado por um príncipe estrangeiro e tinha por isso deixado de voltar. O rei, visto isto, se casou com outra princesa, que começou logo a maltratar muito o principezinho, botando-o na cozinha como um negro. 
Quando a rainha ia chegando a primeira pessoa que viu foi seu filho todo maltratado e sujo, e logo o conheceu e soube de tudo. Ela fugiu então com ele para o fundo das águas, e por sua ordem elas começaram a subir, até cobrirem o palácio, o rei, a rainha e todos os embusteiros da corte. Nunca mais ninguém a viu, porque quem a vê fica logo encantado e cai n'água e se afoga. 


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Ano de publicação: 1883
Origem: Sergipe (Brasil)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)

sábado, 11 de dezembro de 2021

O fato novo do rei ("O traje novo do rei"), de Hans Christian Andersen

 

O FATO NOVO DO REI

Era uma vez um rei que gostava tanto de roupas novas, que empregava em se vestir todo o dinheiro que tinha.

Se passava revista aos seus soldados, se aparecia nos espetáculos ou passeios públicos, não tinha outro fim em vista que não fosse mostrar como ia vestido. Era uma roupa para cada hora do dia; de maneira que assim como é costume dizer-se de qualquer rei: “Sua majestade está em conselho de ministros”, a respeito deste dizia-se: “Sua majestade está no seu guarda-roupa”.

A capital em que ele vivia, era uma cidade alegre, principalmente pelo grande número de estrangeiros que ali concorriam. Um dia chegaram aquela cidade dois impostores que se anunciaram como tecelões, dizendo que sabiam tecer um pano como nunca se vira. Era um estofo notável, não só pela beleza das cores e do desenho, mas sobretudo porque tinha a maravilhosa qualidade de se tornar invisível para quem não exercesse, como devia, o seu emprego, ou fosse demasiadamente estúpido.

— Uma roupa desse pano deve ser impagável— disse consigo o rei;— por meio dela chegarei a conhecer quais são os homens incapazes do meu reino, e poderei distinguir os inteligentes dos estúpidos. Um traje assim é uma coisa indispensável. — Em seguida mandou adiantar aos homens muito dinheiro para poderem desde logo dar começo à obra.

Os aventureiros armaram efetivamente dois teares e puseram-se a fingir que trabalhavam, embora nas lançadeiras não houvesse nem sombra de fiado. A cada passo estavam a pedir seda da mais fina e ouro do melhor quilate, que iam ensacando, sem todavia deixarem de trabalhar nos teares vazios até alta noite.

Passado algum tempo, lembrou-se o rei de sair para ver em que altura ia o artefato. Sentiu-se porém seriamente embaraçado, quando se recordou de que o estofo não podia ser visto por quem fosse tolo ou não exercesse condignamente o seu mister. Não era porque duvidasse de si; em todo o caso julgou prudente, pelo sim, pelo não, mandar adiante alguém que examinasse o estofo. Toda a cidade sabia da qualidade maravilhosa que ele tinha; cada um estava ansioso por saber se o seu vizinho era idiota ou inábil.

— Vou mandar o meu velho e honrado ministro,— disse consigo o rei. — Ninguém, como ele, para avaliar a obra, porque além de ser um homem fino, é irrepreensível no desempenho das suas funções.

O ministro entrou na sala onde trabalhavam os dois impostores, e arregalando muito os olhos, disse de si para si: — Meu Deus, não vejo nada! — Mas, nem palavra. Os dois tecelões pediram-lhe que se aproximasse, e perguntaram que tal achava o desenho, e se as cores eram ou não magníficas. Ao mesmo tempo apontavam-lhe para os teares, onde o velho ministro tinha os olhos pregados, mas onde não via nada, pela simples razão de não haver lá nada que ver.

— Pois na realidade, serei eu também um asno?— perguntava ele a si mesmo. — É preciso que ninguém o suspeite. Serei eu incapaz de exercer o meu cargo? Não! não darei a saber a ninguém que não vi o tecido.

— Então, que dizeis?— perguntou um dos tecelões.

— Admirável, é uma coisa surpreendente! — respondeu o ministro, pondo os óculos. — Este desenho, estas cores... vou imediatamente participar ao rei que fiquei satisfeitíssimo.

— Isso é uma grande honra para nós,— disseram os dois tecelões, e começaram a chamar-lhe a atenção sobre as cores e desenhos imaginários, aos quais eles tinham o cuidado de ir dando um nome. O ministro ouviu atentamente, para repetir diante do rei tudo quanto eles diziam.

Alguns dias depois o rei mandou outro funcionário honesto examinar o estofo e ver se estava pronto. Aconteceu a este o que tinha acontecido já ao ministro: por mais que olhasse, não via nada.

— Não é verdade que isto é um tecido admirável?— perguntavam os dois impostores, e iam mostrando as cores e desenhos que não existiam.

— Pois eu não sou tolo! — pensava o homem. — Dar-se-á o caso que eu não seja digno de exercer o meu emprego? Isso é singular; mas eu farei por o não perder. — E em seguida elogiou muito o tecido, e louvou sobretudo a escolha das cores e do desenho. Foi dizer ao rei que o estofo era magnífico, e daí a pouco não havia ninguém que não falasse nele.

Por último quis o rei ir vê-lo pessoalmente, enquanto estava ainda no tear, e acompanhado de um grande séquito de pessoas escolhidas, entre as quais se encontravam os dois funcionários honestos, dirigiu-se ao lugar onde os dois trapaceiros continuavam a trabalhar com todo o cuidado, mas sem fio de seda ou de ouro, nem espécie de fiado algum.

— Então não é excelente?— perguntaram os dois ministros. — O desenho e as cores são dignas de vossa majestade. — E apontavam para os teares vazios, como se os outros pudessem ver aí alguma coisa.

— Que é isto?— disse consigo o rei— eu não vejo nada. Acaso serei eu imbecil?! Não serei digno de ser rei? Esta é a maior infelicidade que me podia acontecer. — Depois exclamou de repente: — Magnífico! Declaro-me completamente satisfeito.

Abanou a cabeça em sinal de aprovação, e contemplou o tear sem se atrever a dizer a verdade. Todos os do séquito contemplaram também, sem contudo nada verem, e disseram com o rei: — É magnífico! — Depois aconselharam-no que estreasse a roupa nova numa procissão que devia sair daí a pouco. — É magnífico! admirável! excelente! — diziam todos à uma; e a alegria era indescritível.

Os dois impostores foram condecorados, e receberam o título de tecelões da casa real. Na véspera da procissão trabalharão toda a noite à luz de dezesseis velas.

Afinal fingiram tirar a peça do tear; cortaram, no ar, com grandes tesouras; coseram com agulhas desenfiadas, e depois de tudo isto disseram que estava pronta a roupa.

Veio o rei em pessoa, acompanhado dos seus ajudantes de campo, e os dois trapaceiros com os braços levantados como se segurassem alguma coisa, disseram: — Aqui tem vossa majestade a calça, a casaca e o manto. Tudo isto é leve como uma teia de aranha. Há de parecer a vossa majestade que não traz nada sobre o corpo, mas é justamente nisto que está a principal qualidade do tecido.

— É verdade,— responderam os ajudantes de campo, mas sem verem nada.

Em seguida os tecelões pediram ao rei que se colocasse diante de um espelho, a fim de lhe provarem a roupa, e depois de o despirem todo, fingiram que lhe vestiam uma por uma as diferentes peças. O rei ia-se mirando e remirando ao espelho.

— Que bem lhe fica! que bem talhado! — exclamavam todos os cortesãos. — Que desenhos! E as cores? É uma roupa preciosa!

— Está lá fora o palio, debaixo do qual vossa majestade tem de ir na procissão,— disse o mestre de cerimônias.

— Bom, eu estou pronto — respondeu o rei;— penso que assim não vou mal. — E viu-se ainda uma vez ao espelho, para contemplar o esplendor em que ia.

Os caudatários apalparam o chão, como se quisessem levantar a cauda do manto, e caminharam com os braços estendidos como se segurassem alguma coisa, não querendo dar a entender que não viam nada.

Assim caminhava o rei debaixo do magnífico palio, e toda a gente da rua e das janelas exclamava: — Que suntuoso vestido! que bela cauda tem o manto! o feitio é irrepreensível! — Ninguém queria dar a conhecer que não via nada, para não ser taxado de estúpido ou incapaz de exercer o seu emprego. Nunca roupa alguma do rei tinha dado tanto na vista.

— Mas o rei vai nu;— gritou uma criancinha.

— Meu Deus! escutai a voz da inocência— disse o pai.

Imediatamente correu por toda a multidão, que uma criança dissera que o rei ia nu; e afinal exclamaram todos à uma: — O rei vai nu!

Este sentiu-se extremamente mortificado, porque lhe parecia que tinha razão; mas cobrou ânimo e disse consigo: — Seja o que for, é indispensável que eu fique até ao fim. — Depois tomou uns ares ainda mais majestosos, e os caudatários continuaram a segurar, com todo o respeito, a cauda que não existia.

 

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Fonte:
Tradução de Bento Serrano (1883).
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021).

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

O menino sem olhos (Conto popular), de Consiglieri Pedroso

 

O MENINO SEM OLHOS

Uma mãe teve dois filhos. 

Eles foram pedir esmola, que não tinham nada. 

Ela deu-lhes um farnel e perguntou-lhes se queriam ambos comer da mesma vasilha ou levar cada um o seu farnel. 

O mais velho disse que era melhor cada um levar o seu farnel. 

Assim foi. 

No caminho o irmão mais novo perguntou ao irmão se era melhor comerem cada um do seu farnel ou comerem primeiro um e depois o outro. 

O mais velho disse que era melhor assim. 

Assim foi. 

No primeiro dia comeram ambos a comida do mais novo. 

No segundo dia, eram já horas de almoçar, disse o mais novo: 

– Ó irmão, vamos agora comer? 

O mais velho respondeu-lhe: 

– Não, que ainda é cedo. 

Depois ia comendo e o mais novo não comia nada. 

Ao jantar, o mesmo; enfim, o irmão mais novo já levava tanta fome que lhe tornou a pedir ao menos um bocadinho de pão. 

O mais velho disse-lhe: 

– Se me deixares tirar um olho, dou-te. 

O mais novo, como estava desesperado com fome, obrigou-se a deixar tirar um olho. Mas o irmão mais velho tirou-lhe o olho, mas não lhe deu o bocadinho de pão. 

O mais novo tornou a pedir-lhe ao menos metade. O irmão disse-lhe: 

– Pois só te dou metade se me deixares tirar o outro olho. 

Depois o mais velho foi-se embora e deixou o irmão ali só e desamparado. 

O menino, vendo-se cego, deixou-se por lá andar a ver se encontrava alguém que o guiasse no caminho. 

Chegou abaixo de um monte e ouviu cantar a água de um rio, e ali parou dizendo consigo: 

– Nada, daqui não passo eu, que, como não veio nada, posso meter-me ao rio e morrer afogado. 

Conheceu que era noite e foi indo às apalpadelas e encontrou uma árvore e abanou com ela, e ouviu cantar as folhas e depois trepou para cima e ali ficou naquela árvore. 

Próximo à árvore estava uma ponte, onde costumava ir o demônio com as bruxas fazer audiência. 

Daí a pouco vieram todas, conforme é costume, e estavam perguntando umas às outras o que tinham feito naquele dia. 

Uma delas respondeu ao demônio que tinha cortado as águas à capital da França, onde que ao fim de três dias morreria tudo à sede. 

O demônio perguntou-lhe o que tinha ela feito para cortar essas águas. 

Diz ela: 

– Eu, no espaço de quatro a cinco léguas, por onde passa a água, encantei uma cobra e meti-a no canal da água, onde a cobra está presa de cabeça e rabo dentro de um anel, e a água está presa no meio do rolo da cobra. 

O demônio perguntou: 

– Então não haverá outra vez remédio para soltar essa água para a cidade? 

A bruxa disse: 

– Há, mas eu não digo a ninguém. 

O demônio disse: 

– Então, nem a mim? 

A bruxa respondeu: 

– A ti sim, como mestre. O remédio é havendo quem se aventure a lá ir com uma lança de ouro e tirar o anel que está dentro da cobra sem a ferir; tanto corre a cobra para o monte, como a água que vem da fonte. 

O menino, que estava em cima da árvore, aprendeu isto tudo. 

Uma outra bruxa disse: 

– Eu também enfeiticei o rei da Itália, que está encarangado (entrevado, perro dos nervos do corpo) de todos os membros do corpo que se não pode mover para lado algum. E toda a família real morre desta aflição. 

O demônio perguntou: 

– Então, que lhe fizeste tu para ele estar assim encarangado? 

Respondeu a bruxa: 

– Cosi os olhos a um sapo, com a mesma linha apertei o sapo de pés e mãos e tudo, e meti-o debaixo da cama de Sua Majestade. 

O demônio perguntou: 

– Então não haverá remédio para dar outra vez saúde a este rei? 

A bruxa disse: 

– Há, havendo quem vá daqui à Itália ao jardim do rei, que tem um marmeleiro em cima de um chafariz, e havendo quem lhe colha o primeiro ranco (arranco, ramo), que faz um S em cima do chafariz, e lhe aguçar a ponta do feitio de uma lança, e pescar com ela um peixe azul que anda dentro do tanque, e derretê-lo numa bilha que não tenha levado nada, e levantando o pé esquerdo do leito do rei e tirando o sapo que está metido debaixo, e descosendo-lhe os olhos e desamarrando-o de modo que não se fira o sapo, e deitando depois o sapo ao jardim. Estando o peixe derretido, dar depois uma untura ao rei, e daí a pouco logo o rei está com a sua saúde, mas decerto o rei morre porque eu não o conto a ninguém. 

O menino, que estava em cima da árvore à escuta, aprendeu tudo. 

Depois uma outra bruxa disse ao demônio: 

– E tu, o que é que fizeste? 

O demônio respondeu: 

– Eu já fiz obra maravilhosa, já fiz com que tirasse os olhos um irmão ao outro; também já há três dias que tenho feito com que uns bem-casados se deem mal. 

A bruxa perguntou-lhe: 

– Então que fizeste tu para um irmão tirar os olhos ao outro? 

O demônio respondeu: 

– Atentei-o para o mais velho não dar um bocadinho de pão ao mais novo sem lhe tirar os olhos. 

A bruxa perguntou: 

– Então não haverá remédio para esse menino ficar outra vez com vista? 

O demônio disse: 

– Há, mas como o há de ele saber se eu não conto a ninguém? 

A bruxa disse: 

– Mas deves contá-lo a nós, como nós te contamos tudo a ti. 

O demônio então disse: 

– Está aqui perto uma árvore, cortando-lhe três folhas e cuspindo-lhe três vezes, antes de amanhecer, e pisando estas folhas na mão, com o sumo da folha e com cuspo da boca, untando as capelas dos olhos (pálpebras), aí se fica com a vista natural. 

– E para se darem outra vez os bem-casados como se davam? 

O demônio respondeu: 

– Indo a uma igreja matriz, colhendo uma bilha de água benta da pia do batismo, colhendo umas ervinhas que lhes chamam os cristãos alecrim. 

A bruxa perguntou: 

– Então, que fizeste tu para esses casados se darem mal? 

O demônio respondeu: 

– Aqui ao cimo deste monte moravam uns bem-casados, e eu fui-me meter debaixo da cama. O homem, quando entrava de fora para dentro, olhava para debaixo da cama e via-me lá e figurou-se-lhe que era um homem e começou logo a maltratar a mulher de más palavras. Assim se começou de dar mal, julgando que a mulher andava amigada. A mulher não fazia senão chorar e dizer que tal coisa não fazia. 

A bruxa perguntou: 

– Então, não haverá outra vez remédio para eles ficarem bem? 

O demônio respondeu: 

– Sim, então já te não disse que em ir buscar a bilha de água benta da casa em cruz, quando me lá vir, que eu fujo, e assim se tornam eles a darem-se bem?

Nisto, o menino, que estava em cima da árvore, aprendeu tudo; depois pegou nas folhas da árvore, que era a mesma onde ele estava, e fez o que disse o demônio. Depois ficou logo com vista. 

Assim que foi dia, desceu pela árvore abaixo e tratou logo de procurar a casa dos malcasados. 

Fez tudo quanto o demônio disse e eles ficaram bem. 

Dali passou à França e desencantou a cobra e deu água à cidade. 

O rei de França deu-lhe logo uma porção de dinheiro. 

Depois foi para a Itália e fez também o mesmo que a bruxa tinha dito ao demônio. 

Quando o peixe estava derretido, o menino falou para o rei e disse: 

– Real Senhor, tenha a bondade de mandar todos os médicos embora, que Vossa Real Majestade hoje ainda os há de ir visitar a casa. 

O rei assim fez. 

Depois o menino esfregou-o com o óleo do peixe e ficou o rei logo curado. 

Depois que o rei se achou bom, levou o menino para o palácio e depois casou com a filha do rei. 

O rei morreu e ele ficou senhor do reinado. 

Nisto, o irmão mais velho andava pedindo pelo mundo; foi andando de terra em terra, até que foi dar ao reino do irmão, mas sem saber. 

Um dia estava o rei à janela mais a rainha e viu aquele homem e conheceu que era o irmão e disse para a sentinela que estava à porta do palácio: 

– Ó sentinela, prenda-me aquele homem e traga-mo cá à minha presença. 

Neste momento foi-se o rei fardar com as suas insígnias como rei e sentou-se no trono. 

A sentinela levou o preso à presença do rei. 

Depois o rei começou a perguntar ao homem de que terra era ele. 

O preso estava sem saber o que havia de dizer. Afinal lá contou a sua vida. Depois o rei perguntou-lhe: 

– Que é feito da tua mãe? 

Ele disse: 

– Eu não sei, porque desde que saí de casa não tornei lá a voltar. 

– E que é feito de teu irmão? 

– Então Vossa Majestade conhecia meu irmão? 

O rei disse que sim e perguntou-lhe porque é que ele lhe tinha tirado os olhos. 

O irmão começou a negar. O rei disse-lhe então que bem sabia que tinha sido por tentação do diabo e que ele era o seu irmão. 

Depois ficou no palácio com o rei, que lhe perdoou.

 

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Ano de publicação: 1910.
Origem: Portugal
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

O Boi Cardil (Conto popular português), de Teófilo Braga

 

O BOI CARDIL 

Um rei tinha um criado, em quem depositava a maior confiança, porque era o homem que nunca em sua vida tinha dito uma mentira. Recebeu o rei um presente de boi muito formoso, a que chamavam o boi Cardil; o rei tinha-o em tanta estimação que o mandou para uma das suas tapadas acompanhado do criado fiel para tratar dele. Teve uma ocasião uma conversa com um fidalgo, e falou da grande confiança que tinha na fidelidade do seu criado. O fidalgo riu-se:

 – Por que te ris? – perguntou o rei. 

– É porque ele é como os outros todos, que enganam os amos. 

– Este não! 

– Pois eu aposto a minha cabeça como ele é capaz de mentir até ao rei. 

Ficou apostado. Foi o fidalgo para casa, mas não sabia como fazer cair o criado na esparrela e andava muito triste. Uma filha nova e muito formosa, quando soube a causa da aflição do pai, disse: 

– Descanse, meu pai, que eu hei de fazer com que ele há de mentir por força ao rei. 

O pai deu licença. Ela vestiu-se de veludo carmesim, mangas e saia curta, toda decotada, e cabelos pelos ombros e foi passear para a tapada; até que se encontrou com o rapaz que guardava o boi Cardil. Ela começou logo: 

– Há muito tempo que trago uma paixão, e nunca te pude dizer nada. 

O rapaz ficou atrapalhado e não queria acreditar naquilo, mas ela tais coisas disse e jeitinhos deu que ele ficou pelo beiço. Quando o rapaz já estava rendido, ela exigiu-lhe que, em paga do seu amor, matasse o boi Cardil. Ele assim fez e deu-se por bem pago todo o santíssimo dia. 

A filha do fidalgo foi-se embora, e contou ao pai como o rapaz tinha matado o boi Cardil; o fidalgo foi contá-lo ao rei, fiado em que o rapaz havia de explicar a morte do boi com alguma mentira. O rei ficou furioso quando soube que o criado lhe tinha matado o boi Cardil, em que punha tanta estimação. Mandou chamar o criado. 

Veio o criado, e o rei fingiu que nada sabia; perguntou-lhe: 

– Então como vai o boi? 

O criado julgou ver ali o fim da sua vida e disse: 

Senhor! pernas alvas
E corpo gentil,
Matar me fizeram
Nosso boi Cardil.

O rei mandou que se explicasse melhor; o moço contou tudo. O rei ficou satisfeito por ganhar a aposta, e disse para o fidalgo: 

– Não te mando cortar a cabeça como tinhas apostado, porque te basta a desonra de tua filha. E a ele não o castigo porque a sua fidelidade é maior do que o meu desgosto.

 

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Ano de publicação: 1883
Origem: Portugal
(Algarve)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)

O aprendiz de mago (Conto popular português), de Teófilo Braga

 

O APRENDIZ DE MAGO
 

Um homem de grandes artes tinha na sua companhia um sobrinho, que lhe guardava a casa quando precisava sair. De uma vez deu-lhe duas chaves, e disse: 

– Estas chaves são daquelas duas portas; não mas abras por coisa nenhuma do mundo, senão morres. 

O rapaz, assim que se viu só, não se lembrou mais da ameaça e abriu uma das portas. Apenas viu um campo escuro e um lobo que vinha correndo para arremeter contra ele. Fechou a porta a toda a pressa passado de medo. Daí a pouco chegou o Mago: 

– Desgraçado! para que me abriste aquela porta, tendo-te avisado que perderias a vida? 

O rapaz tais choros fez que o Mago lhe perdoou. De outra vez saiu o tio e fez-lhe a mesma recomendação. Não ia muito longe, quando o sobrinho deu volta à chave da outra porta, e apenas viu uma campina com um cavalo branco a pastar. Nisto lembrou-se da ameaça do tio e já o sentindo subir pela escada, começou a gritar: 

– Ai que agora é que estou perdido! 

O cavalo branco falou-lhe: 

– Apanha desse chão um ramo, uma pedra e um punhado de areia, e monta já quanto antes em mim. 

Palavras não eram ditas, o Mago abriu a porta da casa: o rapaz salta para cima do cavalo branco e grita: 

– Foge! que aí chega o meu tio para me matar. 

O cavalo branco correu pelos ares fora; mas indo lá muito longe, o rapaz torna a gritar: 

– Corre! que meu tio já me apanha para me matar. 

O cavalo branco correu mais, e quando o Mago estava quase a apanhá-los, disse para o rapaz: 

– Deita fora o ramo. 

Fez-se logo ali uma floresta muito fechada, e, enquanto o Mago abria caminho por ela, puseram-se muito longe. Ainda o rapaz tornou outra vez a gritar: 

– Corre! que já aí está meu tio, que me vai matar. 

Disse o cavalo branco: 

– Bota fora a pedra. 

Logo ali se levantou uma grande serra cheia de penedias, que o Mago teve de subir, enquanto eles avançavam caminho. Mais adiante, grita o rapaz: 

– Corre, que meu tio agarra-nos. 

– Pois atira ao vento o punhado de areia, disse-lhe o cavalo branco. 

Apareceu logo ali um mar sem fim, que o Mago não pôde atravessar. Foram dar a uma terra onde se estavam fazendo muitos prantos. O cavalo branco ali largou o rapaz e disse-lhe que quando se visse em grandes trabalhos por ele chamasse mas que nunca dissesse como viera ter ali. O rapaz foi andando e perguntou por quem eram aqueles grandes prantos. 

– É porque a filha do rei foi roubada por um gigante que vive em uma ilha aonde ninguém pode chegar. 

– Pois eu sou capaz de ir lá. 

Foram dizê-lo ao rei; o rei obrigou-o com pena de morte a cumprir o que dissera. O rapaz valeu-se do cavalo branco, e conseguiu ir à ilha trazendo de lá a princesa, porque apanhara o gigante dormindo. 

A princesa assim que chegou ao palácio não parava de chorar. Perguntou-lhe o rei: 

– Por que choras tanto, minha filha? 

– Choro porque perdi o meu anel que me tinha dado a fada minha madrinha e, enquanto o não tornar a achar, estou sujeita a ser roubada outra vez ou ficar para sempre encantada. 

O rei mandou lançar o pregão em como dava a mão da princesa a quem achasse o anel que ela tinha perdido. O rapaz chamou o cavalo branco, que lhe trouxe do fundo do mar o anel, mas o rei não lhe queria já dar a mão da princesa; porém ela é que declarou que casaria com o jovem para que dissessem sempre: Palavra de rei não torna atrás.

 

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Ano de publicação: 1883
Origem: Portugal
(Eixo - Aveiro)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)