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sábado, 1 de janeiro de 2022
Barceloz (Conto Popular), de Sílvio Romero
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História de João (Conto Popular), de Sílvio Romero
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Ano de publicação: 1883
Origem: Sergipe (Brasil)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2022)
Os três irmãos (Conto popular), de Sílvio Romero
No cabo de quinhentos dias chegou ao primeiro rio. Ficou na margem do rio, por o não poder atravessar, e à noite deitou-se debaixo de um arvoredo. À meia-noite chegaram os diabinhos para fazerem suas visagens; no mesmo instante o velho acorda e põe-se a escutar. Pergunta o diabo mais velho:
Começaram as fadas a dar as suas respostas:
— Eu fiz um rei deserdar do trono a princesa; — eu fiz o Reino das Maravilhas encantar-se, só o desencantará o João ferreiro, que é vassalo do irmão; — eu encantei a Cidade de Âmbar, só a desencanta o José carpinteiro; — eu encantei o Reino das Três Colunas, só o desencantará Jorge, pai dos três felizes, que todos três hão de ser reis, depois que o pai andar mil e quinhentos dias; terá de passar três dias debaixo d’água e ser comido pela serpente; depois de tudo isto será feliz.
O velho acordou e pôs-se a correr; mas já era tarde, e foi engolido vivo por uma serpente. No ventre da serpente esteve o Jorge 496 dias, quando ela entrou num rio e levou três dias no fundo como se fosse peixe. Depois foi dar à costa nas matas encantadas do reino das Três Colunas, e aí morreu, saindo para fora o velho ainda vivo, mas muito magro e abatido. Pegou no sono e ouviu uma voz que dizia:
Houve muitas festas, mandando Jorge todos adorar a vaca. Ficou bem com seu filho, e foram todos felizes.
A Mãe d'Água (Conto popular), de Sílvio Romero
sábado, 11 de dezembro de 2021
O fato novo do rei ("O traje novo do rei"), de Hans Christian Andersen
Era uma vez um rei que gostava tanto de roupas novas, que empregava em se
vestir todo o dinheiro que tinha.
Se passava revista aos seus soldados, se
aparecia nos espetáculos ou passeios públicos, não tinha outro fim em vista que
não fosse mostrar como ia vestido. Era uma roupa para cada hora do dia; de
maneira que assim como é costume dizer-se de qualquer rei: “Sua majestade está
em conselho de ministros”, a respeito deste dizia-se: “Sua majestade está no
seu guarda-roupa”.
A capital em que ele vivia, era uma cidade
alegre, principalmente pelo grande número de estrangeiros que ali concorriam.
Um dia chegaram aquela cidade dois impostores que se anunciaram como tecelões,
dizendo que sabiam tecer um pano como nunca se vira. Era um estofo notável, não
só pela beleza das cores e do desenho, mas sobretudo porque tinha a maravilhosa
qualidade de se tornar invisível para quem não exercesse, como devia, o seu
emprego, ou fosse demasiadamente estúpido.
— Uma roupa desse pano deve ser impagável—
disse consigo o rei;— por meio dela chegarei a conhecer quais são os homens
incapazes do meu reino, e poderei distinguir os inteligentes dos estúpidos. Um
traje assim é uma coisa indispensável. — Em seguida mandou adiantar aos homens
muito dinheiro para poderem desde logo dar começo à obra.
Os aventureiros armaram efetivamente dois
teares e puseram-se a fingir que trabalhavam, embora nas lançadeiras não
houvesse nem sombra de fiado. A cada passo estavam a pedir seda da mais fina e
ouro do melhor quilate, que iam ensacando, sem todavia deixarem de trabalhar
nos teares vazios até alta noite.
Passado algum tempo, lembrou-se o rei de sair
para ver em que altura ia o artefato. Sentiu-se porém seriamente embaraçado,
quando se recordou de que o estofo não podia ser visto por quem fosse tolo ou
não exercesse condignamente o seu mister. Não era porque duvidasse de si; em
todo o caso julgou prudente, pelo sim, pelo não, mandar adiante alguém que
examinasse o estofo. Toda a cidade sabia da qualidade maravilhosa que ele
tinha; cada um estava ansioso por saber se o seu vizinho era idiota ou inábil.
— Vou mandar o meu velho e honrado ministro,—
disse consigo o rei. — Ninguém, como ele, para avaliar a obra, porque além de
ser um homem fino, é irrepreensível no desempenho das suas funções.
O ministro entrou na sala onde trabalhavam os
dois impostores, e arregalando muito os olhos, disse de si para si: — Meu Deus,
não vejo nada! — Mas, nem palavra. Os dois tecelões pediram-lhe que se aproximasse,
e perguntaram que tal achava o desenho, e se as cores eram ou não magníficas.
Ao mesmo tempo apontavam-lhe para os teares, onde o velho ministro tinha os
olhos pregados, mas onde não via nada, pela simples razão de não haver lá nada
que ver.
— Pois na realidade, serei eu também um
asno?— perguntava ele a si mesmo. — É preciso que ninguém o suspeite. Serei eu
incapaz de exercer o meu cargo? Não! não darei a saber a ninguém que não vi o
tecido.
— Então, que dizeis?— perguntou um dos
tecelões.
— Admirável, é uma coisa surpreendente! —
respondeu o ministro, pondo os óculos. — Este desenho, estas cores... vou
imediatamente participar ao rei que fiquei satisfeitíssimo.
— Isso é uma grande honra para nós,— disseram
os dois tecelões, e começaram a chamar-lhe a atenção sobre as cores e desenhos
imaginários, aos quais eles tinham o cuidado de ir dando um nome. O ministro
ouviu atentamente, para repetir diante do rei tudo quanto eles diziam.
Alguns dias depois o rei mandou outro
funcionário honesto examinar o estofo e ver se estava pronto. Aconteceu a este
o que tinha acontecido já ao ministro: por mais que olhasse, não via nada.
— Não é verdade que isto é um tecido
admirável?— perguntavam os dois impostores, e iam mostrando as cores e desenhos
que não existiam.
— Pois eu não sou tolo! — pensava o homem. —
Dar-se-á o caso que eu não seja digno de exercer o meu emprego? Isso é
singular; mas eu farei por o não perder. — E em seguida elogiou muito o tecido,
e louvou sobretudo a escolha das cores e do desenho. Foi dizer ao rei que o
estofo era magnífico, e daí a pouco não havia ninguém que não falasse nele.
Por último quis o rei ir vê-lo pessoalmente,
enquanto estava ainda no tear, e acompanhado de um grande séquito de pessoas
escolhidas, entre as quais se encontravam os dois funcionários honestos,
dirigiu-se ao lugar onde os dois trapaceiros continuavam a trabalhar com todo o
cuidado, mas sem fio de seda ou de ouro, nem espécie de fiado algum.
— Então não é excelente?— perguntaram os dois
ministros. — O desenho e as cores são dignas de vossa majestade. — E apontavam
para os teares vazios, como se os outros pudessem ver aí alguma coisa.
— Que é isto?— disse consigo o rei— eu não
vejo nada. Acaso serei eu imbecil?! Não serei digno de ser rei? Esta é a maior
infelicidade que me podia acontecer. — Depois exclamou de repente: — Magnífico!
Declaro-me completamente satisfeito.
Abanou a cabeça em sinal de aprovação, e
contemplou o tear sem se atrever a dizer a verdade. Todos os do séquito
contemplaram também, sem contudo nada verem, e disseram com o rei: — É
magnífico! — Depois aconselharam-no que estreasse a roupa nova numa procissão
que devia sair daí a pouco. — É magnífico! admirável! excelente! — diziam todos
à uma; e a alegria era indescritível.
Os dois impostores foram condecorados, e
receberam o título de tecelões da casa real. Na véspera da procissão
trabalharão toda a noite à luz de dezesseis velas.
Afinal fingiram tirar a peça do tear;
cortaram, no ar, com grandes tesouras; coseram com agulhas desenfiadas, e
depois de tudo isto disseram que estava pronta a roupa.
Veio o rei em pessoa, acompanhado dos seus
ajudantes de campo, e os dois trapaceiros com os braços levantados como se
segurassem alguma coisa, disseram: — Aqui tem vossa majestade a calça, a casaca
e o manto. Tudo isto é leve como uma teia de aranha. Há de parecer a vossa
majestade que não traz nada sobre o corpo, mas é justamente nisto que está a
principal qualidade do tecido.
— É verdade,— responderam os ajudantes de
campo, mas sem verem nada.
Em seguida os tecelões pediram ao rei que se
colocasse diante de um espelho, a fim de lhe provarem a roupa, e depois de o
despirem todo, fingiram que lhe vestiam uma por uma as diferentes peças. O rei
ia-se mirando e remirando ao espelho.
— Que bem lhe fica! que bem talhado! —
exclamavam todos os cortesãos. — Que desenhos! E as cores? É uma roupa
preciosa!
— Está lá fora o palio, debaixo do qual vossa
majestade tem de ir na procissão,— disse o mestre de cerimônias.
— Bom, eu estou pronto — respondeu o rei;—
penso que assim não vou mal. — E viu-se ainda uma vez ao espelho, para
contemplar o esplendor em que ia.
Os caudatários apalparam o chão, como se
quisessem levantar a cauda do manto, e caminharam com os braços estendidos como
se segurassem alguma coisa, não querendo dar a entender que não viam nada.
Assim caminhava o rei debaixo do magnífico
palio, e toda a gente da rua e das janelas exclamava: — Que suntuoso vestido!
que bela cauda tem o manto! o feitio é irrepreensível! — Ninguém queria dar a
conhecer que não via nada, para não ser taxado de estúpido ou incapaz de
exercer o seu emprego. Nunca roupa alguma do rei tinha dado tanto na vista.
— Mas o rei vai nu;— gritou uma criancinha.
— Meu Deus! escutai a voz da inocência— disse
o pai.
Imediatamente correu por toda a multidão, que
uma criança dissera que o rei ia nu; e afinal exclamaram todos à uma: — O rei
vai nu!
Este sentiu-se extremamente mortificado,
porque lhe parecia que tinha razão; mas cobrou ânimo e disse consigo: — Seja o
que for, é indispensável que eu fique até ao fim. — Depois tomou uns ares ainda
mais majestosos, e os caudatários continuaram a segurar, com todo o respeito, a
cauda que não existia.
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Fonte:
Tradução de Bento Serrano (1883).
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021).
sexta-feira, 10 de dezembro de 2021
O menino sem olhos (Conto popular), de Consiglieri Pedroso
Uma mãe teve dois filhos.
Eles foram pedir esmola, que não tinham
nada.
Ela deu-lhes um farnel e perguntou-lhes se
queriam ambos comer da mesma vasilha ou levar cada um o seu farnel.
O mais velho disse que era melhor cada um
levar o seu farnel.
Assim foi.
No caminho o irmão mais novo perguntou ao
irmão se era melhor comerem cada um do seu farnel ou comerem primeiro um e
depois o outro.
O mais velho disse que era melhor
assim.
Assim foi.
No primeiro dia comeram ambos a comida do
mais novo.
No segundo dia, eram já horas de almoçar,
disse o mais novo:
– Ó irmão, vamos agora comer?
O mais velho respondeu-lhe:
– Não, que ainda é cedo.
Depois ia comendo e o mais novo não comia
nada.
Ao jantar, o mesmo; enfim, o irmão mais novo
já levava tanta fome que lhe tornou a pedir ao menos um bocadinho de pão.
O mais velho disse-lhe:
– Se me deixares tirar um olho, dou-te.
O mais novo, como estava desesperado com
fome, obrigou-se a deixar tirar um olho. Mas o irmão mais velho tirou-lhe o
olho, mas não lhe deu o bocadinho de pão.
O mais novo tornou a pedir-lhe ao menos
metade. O irmão disse-lhe:
– Pois só te dou metade se me deixares tirar
o outro olho.
Depois o mais velho foi-se embora e deixou o
irmão ali só e desamparado.
O menino, vendo-se cego, deixou-se por lá
andar a ver se encontrava alguém que o guiasse no caminho.
Chegou abaixo de um monte e ouviu cantar a
água de um rio, e ali parou dizendo consigo:
– Nada, daqui não passo eu, que, como não
veio nada, posso meter-me ao rio e morrer afogado.
Conheceu que era noite e foi indo às
apalpadelas e encontrou uma árvore e abanou com ela, e ouviu cantar as folhas e
depois trepou para cima e ali ficou naquela árvore.
Próximo à árvore estava uma ponte, onde
costumava ir o demônio com as bruxas fazer audiência.
Daí a pouco vieram todas, conforme é costume,
e estavam perguntando umas às outras o que tinham feito naquele dia.
Uma delas respondeu ao demônio que tinha
cortado as águas à capital da França, onde que ao fim de três dias morreria
tudo à sede.
O demônio perguntou-lhe o que tinha ela feito
para cortar essas águas.
Diz ela:
– Eu, no espaço de quatro a cinco léguas, por
onde passa a água, encantei uma cobra e meti-a no canal da água, onde a cobra
está presa de cabeça e rabo dentro de um anel, e a água está presa no meio do
rolo da cobra.
O demônio perguntou:
– Então não haverá outra vez remédio para
soltar essa água para a cidade?
A bruxa disse:
– Há, mas eu não digo a ninguém.
O demônio disse:
– Então, nem a mim?
A bruxa respondeu:
– A ti sim, como mestre. O remédio é havendo
quem se aventure a lá ir com uma lança de ouro e tirar o anel que está dentro
da cobra sem a ferir; tanto corre a cobra para o monte, como a água que vem da
fonte.
O menino, que estava em cima da árvore,
aprendeu isto tudo.
Uma outra bruxa disse:
– Eu também enfeiticei o rei da Itália, que
está encarangado (entrevado, perro dos nervos do corpo) de todos os membros do
corpo que se não pode mover para lado algum. E toda a família real morre desta
aflição.
O demônio perguntou:
– Então, que lhe fizeste tu para ele estar
assim encarangado?
Respondeu a bruxa:
– Cosi os olhos a um sapo, com a mesma linha
apertei o sapo de pés e mãos e tudo, e meti-o debaixo da cama de Sua
Majestade.
O demônio perguntou:
– Então não haverá remédio para dar outra vez
saúde a este rei?
A bruxa disse:
– Há, havendo quem vá daqui à Itália ao
jardim do rei, que tem um marmeleiro em cima de um chafariz, e havendo quem lhe
colha o primeiro ranco (arranco, ramo), que faz um S em cima do chafariz, e lhe
aguçar a ponta do feitio de uma lança, e pescar com ela um peixe azul que anda
dentro do tanque, e derretê-lo numa bilha que não tenha levado nada, e
levantando o pé esquerdo do leito do rei e tirando o sapo que está metido
debaixo, e descosendo-lhe os olhos e desamarrando-o de modo que não se fira o
sapo, e deitando depois o sapo ao jardim. Estando o peixe derretido, dar depois
uma untura ao rei, e daí a pouco logo o rei está com a sua saúde, mas decerto o
rei morre porque eu não o conto a ninguém.
O menino, que estava em cima da árvore à
escuta, aprendeu tudo.
Depois uma outra bruxa disse ao
demônio:
– E tu, o que é que fizeste?
O demônio respondeu:
– Eu já fiz obra maravilhosa, já fiz com que
tirasse os olhos um irmão ao outro; também já há três dias que tenho feito com
que uns bem-casados se deem mal.
A bruxa perguntou-lhe:
– Então que fizeste tu para um irmão tirar os
olhos ao outro?
O demônio respondeu:
– Atentei-o para o mais velho não dar um
bocadinho de pão ao mais novo sem lhe tirar os olhos.
A bruxa perguntou:
– Então não haverá remédio para esse menino
ficar outra vez com vista?
O demônio disse:
– Há, mas como o há de ele saber se eu não
conto a ninguém?
A bruxa disse:
– Mas deves contá-lo a nós, como nós te
contamos tudo a ti.
O demônio então disse:
– Está aqui perto uma árvore, cortando-lhe três
folhas e cuspindo-lhe três vezes, antes de amanhecer, e pisando estas folhas na
mão, com o sumo da folha e com cuspo da boca, untando as capelas dos olhos
(pálpebras), aí se fica com a vista natural.
– E para se darem outra vez os bem-casados
como se davam?
O demônio respondeu:
– Indo a uma igreja matriz, colhendo uma
bilha de água benta da pia do batismo, colhendo umas ervinhas que lhes chamam
os cristãos alecrim.
A bruxa perguntou:
– Então, que fizeste tu para esses casados se
darem mal?
O demônio respondeu:
– Aqui ao cimo deste monte moravam uns
bem-casados, e eu fui-me meter debaixo da cama. O homem, quando entrava de fora
para dentro, olhava para debaixo da cama e via-me lá e figurou-se-lhe que era
um homem e começou logo a maltratar a mulher de más palavras. Assim se começou
de dar mal, julgando que a mulher andava amigada. A mulher não fazia senão
chorar e dizer que tal coisa não fazia.
A bruxa perguntou:
– Então, não haverá outra vez remédio para
eles ficarem bem?
O demônio respondeu:
– Sim, então já te não disse que em ir buscar
a bilha de água benta da casa em cruz, quando me lá vir, que eu fujo, e assim
se tornam eles a darem-se bem?
Nisto, o menino, que estava em cima da
árvore, aprendeu tudo; depois pegou nas folhas da árvore, que era a mesma onde
ele estava, e fez o que disse o demônio. Depois ficou logo com vista.
Assim que foi dia, desceu pela árvore abaixo
e tratou logo de procurar a casa dos malcasados.
Fez tudo quanto o demônio disse e eles
ficaram bem.
Dali passou à França e desencantou a cobra e
deu água à cidade.
O rei de França deu-lhe logo uma porção de
dinheiro.
Depois foi para a Itália e fez também o mesmo
que a bruxa tinha dito ao demônio.
Quando o peixe estava derretido, o menino
falou para o rei e disse:
– Real Senhor, tenha a bondade de mandar
todos os médicos embora, que Vossa Real Majestade hoje ainda os há de ir
visitar a casa.
O rei assim fez.
Depois o menino esfregou-o com o óleo do
peixe e ficou o rei logo curado.
Depois que o rei se achou bom, levou o menino
para o palácio e depois casou com a filha do rei.
O rei morreu e ele ficou senhor do
reinado.
Nisto, o irmão mais velho andava pedindo pelo
mundo; foi andando de terra em terra, até que foi dar ao reino do irmão, mas
sem saber.
Um dia estava o rei à janela mais a rainha e
viu aquele homem e conheceu que era o irmão e disse para a sentinela que estava
à porta do palácio:
– Ó sentinela, prenda-me aquele homem e
traga-mo cá à minha presença.
Neste momento foi-se o rei fardar com as suas
insígnias como rei e sentou-se no trono.
A sentinela levou o preso à presença do
rei.
Depois o rei começou a perguntar ao homem de
que terra era ele.
O preso estava sem saber o que havia de
dizer. Afinal lá contou a sua vida. Depois o rei perguntou-lhe:
– Que é feito da tua mãe?
Ele disse:
– Eu não sei, porque desde que saí de casa
não tornei lá a voltar.
– E que é feito de teu irmão?
– Então Vossa Majestade conhecia meu
irmão?
O rei disse que sim e perguntou-lhe porque é
que ele lhe tinha tirado os olhos.
O irmão começou a negar. O rei disse-lhe
então que bem sabia que tinha sido por tentação do diabo e que ele era o seu
irmão.
Depois ficou no palácio com o rei, que lhe
perdoou.
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Ano de publicação: 1910.
Origem: Portugal
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)
terça-feira, 7 de dezembro de 2021
O Boi Cardil (Conto popular português), de Teófilo Braga
Um rei tinha um criado, em quem depositava a
maior confiança, porque era o homem que nunca em sua vida tinha dito uma
mentira. Recebeu o rei um presente de boi muito formoso, a que chamavam o boi
Cardil; o rei tinha-o em tanta estimação que o mandou para uma das suas tapadas
acompanhado do criado fiel para tratar dele. Teve uma ocasião uma conversa com
um fidalgo, e falou da grande confiança que tinha na fidelidade do seu criado.
O fidalgo riu-se:
– Por que te ris? – perguntou o
rei.
– É porque ele é como os outros todos, que
enganam os amos.
– Este não!
– Pois eu aposto a minha cabeça como ele é
capaz de mentir até ao rei.
Ficou apostado. Foi o fidalgo para casa, mas
não sabia como fazer cair o criado na esparrela e andava muito triste. Uma
filha nova e muito formosa, quando soube a causa da aflição do pai,
disse:
– Descanse, meu pai, que eu hei de fazer com
que ele há de mentir por força ao rei.
O pai deu licença. Ela vestiu-se de veludo
carmesim, mangas e saia curta, toda decotada, e cabelos pelos ombros e foi passear
para a tapada; até que se encontrou com o rapaz que guardava o boi Cardil. Ela
começou logo:
– Há muito tempo que trago uma paixão, e
nunca te pude dizer nada.
O rapaz ficou atrapalhado e não queria
acreditar naquilo, mas ela tais coisas disse e jeitinhos deu que ele ficou pelo
beiço. Quando o rapaz já estava rendido, ela exigiu-lhe que, em paga do seu
amor, matasse o boi Cardil. Ele assim fez e deu-se por bem pago todo o
santíssimo dia.
A filha do fidalgo foi-se embora, e contou ao
pai como o rapaz tinha matado o boi Cardil; o fidalgo foi contá-lo ao rei,
fiado em que o rapaz havia de explicar a morte do boi com alguma mentira. O rei
ficou furioso quando soube que o criado lhe tinha matado o boi Cardil, em que
punha tanta estimação. Mandou chamar o criado.
Veio o criado, e o rei fingiu que nada sabia;
perguntou-lhe:
– Então como vai o boi?
O criado julgou ver ali o fim da sua vida e
disse:
Senhor! pernas alvas
E corpo gentil,
Matar me fizeram
Nosso boi Cardil.
O rei mandou que se explicasse melhor; o moço
contou tudo. O rei ficou satisfeito por ganhar a aposta, e disse para o
fidalgo:
– Não te mando cortar a cabeça como tinhas
apostado, porque te basta a desonra de tua filha. E a ele não o castigo porque
a sua fidelidade é maior do que o meu desgosto.
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Ano de publicação: 1883
Origem: Portugal (Algarve)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba
Mendes (2021)
O aprendiz de mago (Conto popular português), de Teófilo Braga
Um homem de grandes artes tinha na sua
companhia um sobrinho, que lhe guardava a casa quando precisava sair. De uma
vez deu-lhe duas chaves, e disse:
– Estas chaves são daquelas duas portas; não
mas abras por coisa nenhuma do mundo, senão morres.
O rapaz, assim que se viu só, não se lembrou
mais da ameaça e abriu uma das portas. Apenas viu um campo escuro e um lobo que
vinha correndo para arremeter contra ele. Fechou a porta a toda a pressa
passado de medo. Daí a pouco chegou o Mago:
– Desgraçado! para que me abriste aquela porta,
tendo-te avisado que perderias a vida?
O rapaz tais choros fez que o Mago lhe
perdoou. De outra vez saiu o tio e fez-lhe a mesma recomendação. Não ia muito
longe, quando o sobrinho deu volta à chave da outra porta, e apenas viu uma
campina com um cavalo branco a pastar. Nisto lembrou-se da ameaça do tio e já o
sentindo subir pela escada, começou a gritar:
– Ai que agora é que estou perdido!
O cavalo branco falou-lhe:
– Apanha desse chão um ramo, uma pedra e um
punhado de areia, e monta já quanto antes em mim.
Palavras não eram ditas, o Mago abriu a porta
da casa: o rapaz salta para cima do cavalo branco e grita:
– Foge! que aí chega o meu tio para me
matar.
O cavalo branco correu pelos ares fora; mas
indo lá muito longe, o rapaz torna a gritar:
– Corre! que meu tio já me apanha para me
matar.
O cavalo branco correu mais, e quando o Mago
estava quase a apanhá-los, disse para o rapaz:
– Deita fora o ramo.
Fez-se logo ali uma floresta muito fechada,
e, enquanto o Mago abria caminho por ela, puseram-se muito longe. Ainda o rapaz
tornou outra vez a gritar:
– Corre! que já aí está meu tio, que me vai
matar.
Disse o cavalo branco:
– Bota fora a pedra.
Logo ali se levantou uma grande serra cheia
de penedias, que o Mago teve de subir, enquanto eles avançavam caminho. Mais
adiante, grita o rapaz:
– Corre, que meu tio agarra-nos.
– Pois atira ao vento o punhado de areia,
disse-lhe o cavalo branco.
Apareceu logo ali um mar sem fim, que o Mago
não pôde atravessar. Foram dar a uma terra onde se estavam fazendo muitos
prantos. O cavalo branco ali largou o rapaz e disse-lhe que quando se visse em
grandes trabalhos por ele chamasse mas que nunca dissesse como viera ter ali. O
rapaz foi andando e perguntou por quem eram aqueles grandes prantos.
– É porque a filha do rei foi roubada por um
gigante que vive em uma ilha aonde ninguém pode chegar.
– Pois eu sou capaz de ir lá.
Foram dizê-lo ao rei; o rei obrigou-o com
pena de morte a cumprir o que dissera. O rapaz valeu-se do cavalo branco, e
conseguiu ir à ilha trazendo de lá a princesa, porque apanhara o gigante
dormindo.
A princesa assim que chegou ao palácio não
parava de chorar. Perguntou-lhe o rei:
– Por que choras tanto, minha filha?
– Choro porque perdi o meu anel que me tinha
dado a fada minha madrinha e, enquanto o não tornar a achar, estou sujeita a
ser roubada outra vez ou ficar para sempre encantada.
O rei mandou lançar o pregão em como dava a
mão da princesa a quem achasse o anel que ela tinha perdido. O rapaz chamou o
cavalo branco, que lhe trouxe do fundo do mar o anel, mas o rei não lhe queria
já dar a mão da princesa; porém ela é que declarou que casaria com o jovem para
que dissessem sempre: Palavra de rei não torna atrás.
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Ano de publicação: 1883
Origem: Portugal (Eixo - Aveiro)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba
Mendes (2021)





