sábado, 4 de dezembro de 2021

Desanda cacheira (Versão de "A mesa, o burro e o cacete"), de Teófilo Braga

 

DESANDA CACHEIRA
 

Um pai tinha três filhos, que foram pelo mundo correr sua ventura; tomou cada um para sua banda. O mais velho encontrou-se com um viandante, e foi conversando com ele; chegados lá muito longe o viandante disse:

— Paremos aqui para comer.

E desenrolou uma toalha que levava à cinta, dizendo: “Põe-te, mesa!”

Logo ali apareceram muitos manjares e vinhos e coisas boas, e comeram ambos. Como era já lusco com fusco, a toalha fez-se em uma barraca, e ali passaram também a noite abrigados. Ao outro dia cortou cada um para o seu lado e não se tornaram a ver. Ora o rapaz perdeu-se no caminho, e foi dar a um grande barroco, e aconteceu ir encontrar o companheiro, dono da toalha, cercado de lobos, que trabalhavam para lhe chegar. Pôs os lobos em debandada com um pandeiro, e o viandante em paga de o ter salvado deu-lhe a toalha do encanto.

O rapaz voltou para casa, sem ter mais necessidade de trabalhar para comer.

O filho segundo não foi menos feliz; encontrou um velhinho, que ia tangendo uma burra e foi conversando com ele; chegando lá a uma encruzilhada separaram-se, e foi cada um para a sua banda. Mas ouvindo lá pela noite adiante uns gritos de aflição foi-se chegando, e acertou de ir dar a um sítio onde estavam uns salteadores a maltratarem o velho para lhes dizer onde é que levava o dinheiro. O rapaz, que era valente, caiu em cima dos ladrões, que fugiram, e assim livrou o velho. Este, agradecido, deu-lhe em paga a sua burra, dizendo:

— Quando tu lhe disseres: “Mija dinheiro”, essa burra dá-te todo o dinheiro que quiseres.

Assim voltou para casa tanto ou mais rico do que o irmão.

O filho mais moço também era esperto; encontrou no seu caminho um homem que levava às costas uma cacheira. Nisto vieram uns ladrões sair-lhe à estrada, e ele disse:

— Desanda, cacheira!

O pau começou logo no ar a despedir pancadas para a direita e para a esquerda, e os ladrões ficaram estendidos com pernas, cabeças, braços quebrados, que era um louvar a Deus. Os dois companheiros foram andando; vai o rapaz, e diz-lhe:

— Quer você vender-me a sua cacheira?

— Só se me deres todo o dinheiro que levas.

O rapaz deu-lhe tudo quanto o pai lhe tinha dado para arranjar a sua felicidade. Voltou para casa muito contente com a cacheira às costas. O pai assim que o viu, perguntou-lhe:

— Então o que é que trazes, que sejas tão feliz como teus irmãos?

— Comprei esta cacheira com o dinheiro que levei.

E contou o poder que tinha a cacheira. O pai pôs-se a rir, e disse que não admirava que ele se deixasse enganar porque era muito criança; e que a cacheira não servia para nada. O rapaz andava triste.

Havia uma grande festa na igreja da terra, e o irmão mais velho foi lá; como andava sempre com a toalha, temendo que ela perdesse o encanto, deixou-a à porta a uma velha que lha guardasse, recomendando-lhe que não dissesse: “Põe-te, mesa!”

Se bem o disse, pior o fez a velha; e vendo logo aparecer uma rica mesa posta, foi a toda a pressa esconder a toalha. Veio também à festa o irmão do meio, e trazia consigo a burra, e deu-a a guardar à velha, recomendando-lhe que tivesse mão nela, e que não dissesse: “Mija dinheiro!” Mal virou as costas, a velha disse as palavras, e começou a correr da burra dinheirama a rodo. A velha safou-se com a burra.

Quando os dois irmãos saíram da igreja não acharam a velha, e vieram para casa muito tristes com o roubo de toda a sua fortuna. Disse o mais novo:

— É tempo de saber para que serve esta cacheira.

Foi ter à porta da igreja, e fingiu que queria dar a guardar a cacheira; vem a velha ter com ele. Deu-lhe a cacheira:

— Guarda-ma até já, e não digas: “Desanda cacheira!”

A velha, pelo vezo, faltou à promessa, e assim que disse: “Desanda cacheira!” como não estava ali em quem batesse, a cacheira começou a bater na própria velha, que foi a gritar procurar o rapaz para fazer parar aquele castigo. O rapaz veio de dentro da igreja, e deixou a cacheira malhar, até a velha confessar onde é que tinha escondido a toalha e a burra. Só quando ela entregou tudo, é que a cacheira parou. Se não fosse a cacheira, de que o pai fez escárnio, os outros tesouros ficariam perdidos para sempre. 

 

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Ano de publicação: 1883
Origem: Portugal (Porto)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)

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