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quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

Março Marçagão (Conto tradicional português), de Ana de Castro Osório

 

MARÇO MARÇAGÃO
 

Havia uma mulher muito preguiçosa, que era casada com um bom homem que a estimava muito, apesar do seu defeito.

Ralava-se e consumia-se para que a mulher entrasse no bom caminho e trabalhasse, mas era escusado, nada conseguia.

E dizia-lhe:

— Ó mulher, tu não trabalhas, não fazes nada e assim não vamos bem! Tudo roto e desmazelado, e nada queres fazer, mulher! Vê as vizinhas como são cuidadosas e bem governadas, e por isso as suas casas dão gosto lá entrar! Ao menos pega numa roca!

— Isso não, marido meu, que me faz a boca torta.

— Mas vai coser, arruma a casa. O ponto é trabalhares em qualquer coisa.

— Pois sim, homem, tens razão, hei de trabalhar, mas hoje não pode ser, que é segunda-feira das almas e Deus Nosso Senhor agradece muito que se guarde este dia.

Na manhã seguinte, tornou o homem a instar porque trabalhasse, e ela:

— Sim, homem, hei de fazer alguma coisa, mas não hoje que é o dia consagrado ao Santíssimo Sacramento. Desejo fazer a minha reza.

No dia seguinte voltou o homem a dizer:

— Então, mulher, hoje é quarta-feira, podes trabalhar.

— Eu, hoje?! Que dizes tu, marido? Logo hoje que é o dia consagrado ao Espírito Santo? Outro dia será, deixa estar. Roma e Pavia não se fizeram num dia.

— Mulher (tornou o pobre homem, na manhã seguinte), então hoje não trabalhas?

— Logo em que dia me falas, homem de Deus! Quinta-feira, o dia consagrado ao Coração de Jesus! Isso não! Tem paciência, outra ocasião será.

— Então hoje não começas a trabalhar? Tu não fias, tu não tens meadas para corar, e vem aí o Março Marçagão que se vinga bem vingado das mulheres preguiçosas (dizia-lhe o marido).

— Ora! Se vier o Março Marçagão deito umas esteiras a corar e ele cuida que são meadas. Além disso eu hei de trabalhar, sim, mas não hoje que é sexta-feira, paixão e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo...

No sábado era dia consagrado a Nossa Senhora, no Domingo dia santificado. E assim foi passando o tempo, e chegou Março.

Então lhe disse o marido:

— Mulher, chegou o Março Marçagão, e tu sem meadas para lhe deitares a corar! Ele vai ficar furioso, e Deus sabe o que te fará.

— Deixa, marido. Amanhã, que é o primeiro, deito-lhe as esteiras que ali tenho.

— Ele não quer esteiras, quer meadas que as boas donas de casa tenham fiado nos serões de inverno. Queira Deus não te aconteça alguma!

Vai dali, arranjou um capote muito usado, pôs um chapeirão na cabeça e umas barbas brancas, e pegando num cajado fingiu-se um velho e dirigiu-se para onde a mulher estava com as esteiras. Com uma voz muito grossa e disfarçada gritou-lhe:

— Então as meadas que tens para corar são essas?

— Sim, senhor Março Marçagão (respondeu ela transida de medo).

— Teu marido não te preveniu que eu quero meadas e esteiras não?! Agora espera que eu te ensino!

Pegou no pau e deu-lhe uma grande sova. Quando se fartou de a castigar, disse-lhe:

— Agora até para o ano!

E foi-se embora. 

Quando o homem veio para casa encontrou a mulher sentada à porta, com a roca à cinta, a fiar.

— Que é isso, mulher? Hoje é dia de festa e estás a trabalhar?!

— Ai, marido da minha alma, é que chegou o

Março Marçagão Cora Meadas Esteiras não!

— E que te fez, mulher?

— Se o visses, marido! É um velho muito velho que não tem dó de bater na gente!...

— Que te dizia eu?! Bem te preveni que não era de brincadeiras!

Dali por diante foi uma perfeição! Mulher laboriosa, até ali chegava. E nunca mais voltou o Março Marçagão sem que tivesse boas meadas para corar.

 

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Origem: Portugal.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)

domingo, 5 de dezembro de 2021

Março Marçagão (Conto popular português), de Teófilo Braga

 

MARÇO MARÇAGÃO
 


PRIMEIRA VERSÃO

Era uma vez um homem, que casou com uma mulher desmazelada, e depois dizia o homem: 

Oh mulher, oh mulher,
Eu mercara-te uma roca…

A MULHER
— Isso não, marido, não
Que me fá-la cara torta;
Com o dinheiro e com a roca
Compraremos um burrinho,
O burrinho leva os odres,
E os odres leva o vinho.

MARIDO
— Oh mulher, oh mulher,
Eu mercara-te umas meias…

A MULHER
— Isso não, marido, não
Que me fá-las pernas cheias.
Antes com esse dinheiro
Compraremos um burrinho,
O burrinho leva os odres
E os odres leva o vinho. 

***

SEGUNDA VERSÃO

Di-lo o homem:

— Oh mulher, tu não fias? tu não trabalhas?

— É um dia santo muito grande, não se pode hoje trabalhar.

Ao outro dia ele perguntou o mesmo, e ela o mesmo respondeu, e ele disse assim:

— Deixa, que aí vem o Março Marçagão que ele to dirá.

— E eu pego numas poucas de esteiras e boto-as no primeiro de Março a corar.

— Ele não quer esteiras, quer antes meadas.

O marido na véspera do primeiro de Março pegou num capote muito velho, cobriu-se para fingir um velho muito corcovado, e a mulher pela manhã cedo levantou-se e foi por muitas esteiras a corar; e ele apareceu-lhe ali em velho e disse assim:

— Essas são as meadas que tu tens para corar?

— São.

— Então teu marido não te dizia? Espera, que eu te falo.

Pega num pau, bateu, bateu até não poder mais, e deixou-a por morta. Assim que ela se pôde erguer foi para casa. A primeira coisa foi comprar roca e fiar. Depois já dizia o homem:

— Então era o que te eu dizia ou não? 

Março, Marçagão
Cura meadas
Esteiras não.

 

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Ano de publicação: 1883
Origem: Portugal
(Algarve e Porto)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)