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segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

Vestimentas (Fábula), de Khalil Gibran

 

VESTIMENTAS 

Certo dia, a Beleza e a Fealdade encontraram-se à beira do mar. Disseram uma à outra:

— Banhemo-nos no mar.

Então, despiram-se e nadaram. Passado um certo tempo, a Fealdade voltou à margem e se vestiu com as roupas da Beleza. Depois, foi-se embora.

A Beleza também saiu do mar. Como não encontrou as suas roupas, e porque era muito recatada para permanecer nua, vestiu as vestes da Fealdade. E a Beleza tomou o seu caminho.

Até hoje, homens e mulheres confundem uma com a outra.

Todavia, há algumas pessoas que conseguem vislumbrar o rosto da Beleza, apesar das roupas que ela veste. E algumas outras reconhecem a face da fealdade, porque os panos que a cobrem não logram escondê-la de seus olhos.


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Tradução de Paulo Soriano.

O rio (Fábula), de Khalil Gibran

 

O RIO 

No vale de Kadisha, onde corre o poderoso rio, dois pequenos riachos encontraram-se e falaram um com o outro.

Um ribeiro disse:

— Como vieste, meu amigo? Como foi o teu caminho"?

E o outro respondeu:

— O meu caminho foi muito difícil. A roda do moinho quebrou, e o mestre agricultor, que costumava conduzir-me do meu leito às suas plantas, faleceu. Lutei, ao Sol, com a imundície acumulada pelo desleixo. Mas, e quanto a ti, como foi o teu percurso, meu irmão?

E o outro ribeiro respondeu:

O meu caminho foi diferente. Desci as colinas entre flores perfumadas e salgueiros gentis; homens e mulheres bebiam de minhas águas com copos de prata, e as criancinhas chapinhavam, com os seus pés rosados, sobre as minhas margens, e havia doces canções e risos por toda parte. Que pena que o teu caminho não tenha sido tão feliz...

Naquele momento, o rio disse em voz alta:

— Entrai, entrai! E sigamos todos para o mar. Entrai, entrai! Não faleis mais. Estejais comigo agora. Vamos juntos para o mar. Entrai, entrai, porque, em mim, esquecereis de vossas andanças, tristes ou alegres. Entrai, entrai! E vós e eu esqueceremos todos os nossos caminhos quando chegarmos ao coração da nossa mãe, o mar.

 

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Tradução de Paulo Soriano.

A lua cheia (Fábula), de Khalil Gibran

 

A LUA CHEIA 

A Lua cheia surgiu gloriosamente sobre a cidade, e todos os cães daquela cidade começaram a latir para ela.

Somente um cão não latiu e exortou os demais, com voz solene:

— Não desperteis do sono a Lua, nem a tragais para a Terra com os vossos latidos.

Então, todos os cães pararam de latir, caindo num silêncio terrível. Mas o cão, que lhes havia falado, continuou latindo, pedindo silêncio, pelo resto da noite.

 

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Tradução de Paulo Soriano.

A pérola (Fábula), de Khalil Gibran

 

A PÉROLA 

Disse uma ostra a uma ostra vizinha:

— Sinto uma dor imensa em meu interior. Algo pesado e redondo. Estou em perigo.

E a outra ostra respondeu, com altiva complacência:

— Louvados sejam os céus e o mar! Não sinto dor dentro de mim. Estou saudável e íntegra. Por dentro e por fora.

Naquele momento, um caranguejo passava e ouviu a conversa das duas ostras. Disse, então, à que estava, interior e exteriormente, saudável e íntegra:

 — Sim, estás tu saudável e íntegra... Mas a dor que a tua vizinha carrega é uma pérola de extrema beleza.

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Tradução de Paulo Soriano.

A águia e a cotovia (Fábula), de Khalil Gibran

 

A ÁGUIA E A COTOVIA 

Uma cotovia e uma águia se encontraram num rochedo fincado no alto de uma colina.

— Bom dia, senhora — disse a cotovia.

A águia olhou-a de cima e, desdenhosamente, respondeu:

— Bom dia.

— Espero que tudo esteja bem convosco, senhora — disse a cotovia.

— Sim — disse a águia — está tudo bem conosco. Mas não sabes que nós somos a rainha dos pássaros? E que somente nos deves falar conosco depois que nós te dirigimos a palavra, e nunca antes?

Disse a cotovia:

—Acho que somos da mesma família.

A águia olhou para o passarinho com desdém e disse:

— E quem te disse que tu e eu somos da mesma família?

Disse, então, a cotovia:

— Mas eu gostaria de lembrar-vos de que eu posso voar tão alto quanto vossa majestade e que posso cantar e dar alegria às outras criaturas desta terra. Mas vossa majestade não dá prazer, nem alegria, a ninguém.

A águia ficou furiosa e disse:

—Prazer e alegria! Sua criaturinha presunçosa! Com um golpe de meu bico, eu poderia destruir-te. Tu não és senão do tamanho do meu pé.

Então a cotovia esvoaçou e pousou nas costas da águia. Lá metida, pôs-se a espicaçar-lhe as penas. A águia ficou irritada com isto e voou rápido e alto para livrar-se do passarinho. Mas não teve êxito em seu intento. Por fim, voou de volta para aquele mesmo rochedo fincado na alta colina, mais inquieta do que nunca, preocupada com a criaturinha — que ainda bicava-lhe as costas — e a maldizer a infeliz circunstância em que se encontrava.

Pois bem. Naquele momento, uma pequena tartaruga passou e riu do que via. Riu tanto que quase se virou de costas.

Então, a águia olhou altivamente para a tartaruga e disse:

— Criatura lenta e rastejante, sempre grudada à terra, de que estás rindo?

E a tartaruga disse:

— Ora, vejo que fizeram vossa majestade de cavalo e que há um passarinho a cavalgá-la. Sem dúvida, o passarinho é que é um pássaro superior.

E a águia disse à tartaruga:

— Vá cuidar de sua vida. Este é um assunto de família entre minha irmã, a cotovia, e eu.

 

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Tradução de Paulo Soriano.

O olho (Fábula), de Khalil Gibran

 

O OLHO 

Certo dia, o Olho disse:

— Eu vejo, além deste vale, uma montanha coberta duma névoa azulada. Não é linda?

O Ouvido escutou o que o Olho dizia e, depois de prestar atenção por algum tempo, disse:

— Mas, onde está a tal montanha? Eu não a ouço.

Então, a Mão disse:

— Estou tentando, em vão, senti-la e tocá-la. Mas não consigo encontrar montanha nenhuma.

E o Nariz disse:

— Não existe montanha. Eu não consigo sentir o cheiro dela.

Então o Olho virou para o lado e todos os demais começaram a conversar sobre a ilusão do Olho. Disseram:

— Deve haver algum problema com o Olho...


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Tradução de Paulo Soriano.

As três formigas (Fábula), de Khalil Gibran

 

AS TRÊS FORMIGAS
 

Três formigas se encontraram no nariz de um homem que dormia ao Sol. Depois que se cumprimentaram — cada uma saudando a outra, em conformidade com o costume de seu clã —, começaram a conversar.

A primeira formiga disse:

— Estas colinas e planícies são as mais estéreis que eu já conheci. Procurei o dia todo um grão qualquer, mas nada há a ser encontrado.

Disse a segunda formiga:

— Também nada encontrei, embora eu tenha esquadrinhado cada canto e clareira. Estamos — creio eu — no lugar que o meu povo chama de terra tenra em movimento, onde nada cresce.

Então, erguendo a cabeça, disse a terceira:

— Minhas amigas, estamos agora no nariz da Formiga Suprema, a formiga poderosa e infinita, cujo corpo é tão extenso que não podemos contemplá-lo, sua sombra é tão vasta que não podemos rastreá-la, e sua voz é tão potente que não podemos escutá-la. E ela é onipresente.

Quando a terceira formiga terminou de falar, as demais se entreolharam e riram dela.

Naquele instante, o homem se mexeu e, durante o sono, ergueu a mão e coçou o nariz. E as três formigas foram esmagadas.

 

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Tradução de Paulo Soriano.

A raposa (Fábula), de Khalil Gibran



A RAPOSA
 

Uma raposa viu a sua sombra ao nascer do Sol e disse:

— Hoje terei um camelo no almoço.

E passou a manhã inteira procurando camelos. Mas, ao meio-dia, voltou a ver a sua sombra e disse:

— Bem... comerei um ratinho.

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Tradução de Paulo Soriano.

 

O cão sábio (Fábula), de Khalil Gibran

 

O CÃO SÁBIO
 

Certo dia, um cão sábio passava por um lugar onde os gatos estavam reunidos.

Ao acercar-se, e ver que os gatos continuavam muito entretidos e despreocupados com a sua presença, parou.

Então, ergueu-se do meio da gataria um bichano grande e solene, que olhou para os demais e disse:

— Irmãos, orai. E quando tiverdes rezado uma e outra vez, sem vacilar em vossa fé, então, em verdade, choverá ratos.

Ouvindo isto, o cão riu em seu coração e se afastou, dizendo:

— Ah, como são cegos e tolos os gatos! Ora, não está escrito — e eu sei disto como já o sabiam os meus ancestrais — que o que chove — por conta das orações, da fé e das súplicas — não são os camundongos, mas sim os ossos?

 

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Tradução de Paulo Soriano.

Lágrimas e risos (Fábula), de Khalil Gibran



LÁGRIMAS E RISOS
 

Certa noite, numa das margens do Nilo, uma hiena se encontrou com um crocodilo. Ambos pararam e se cumprimentaram. A hiena disse:

— Como tens passado o dia, senhor?

E o crocodilo respondeu:

— Muito mal. Às vezes, em minha dor e minha tristeza, choro. Então, as criaturas sempre dizem: “Ora, isso não passa de lágrimas de crocodilo”. Isto me magoa muito mais do que consigo expressar.

Então a hiena disse:

— Tu me falas de tua dor e de tua tristeza, mas, por um momento, considera, também, a minha situação. Eu contemplo a beleza do mundo, suas maravilhas e seus milagres. Então, por pura alegria, eu rio, como sorriem os dias. E, então, os entes da selva dizem: “Ora, isso não passa de um riso de hiena”.


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Tradução de Paulo Soriano.