quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

O príncipe querido (Histórias da avozinha), de Figueiredo Pimentel

 

O PRÍNCIPE QUERIDO

Ubaldo VI, rei do país de Karkom, foi um soberano tão bom, tão carinhoso e tão amante dos vassalos, que, depois de sua morte, e mesmo em vida, o povo o cognominou – o Bom Rei.

Estando um dia a caçar um coelho, que cães perseguiam, pulou em seus braços.

O rei acariciou o coelhinho e disse-lhe:

— Já que te colocaste sob minha proteção, não consentirei que te façam mal. E levou o bichinho para o palácio.

À noite, quando já estava em seus aposentos, pronto para se deitar, apareceu-lhe uma moça formosíssima, vestida de branco, com os deslumbrantes e opulentíssimos trajes de uma princesa real, tendo, porém, cingida à fronte, em vez de uma coroa, uma grinalda de rosas brancas.

Sua majestade ficou admirada de vê-la no quarto, porque a porta estava fechada, não sabendo como podia ter ela entrado.

— Eu me chamo Cândida e sou uma fada, disse ela. Estava no bosque, enquanto caçavas, e quis ver se eras bom como todo o mundo diz. Por isso encantei-me no coelhinho, e saltei em teus braços. Queria ver se eras bom para os animais, porque sei que quem tem piedade deles, ainda tem mais pelos homens, seus semelhantes. Se me tivesses recusado socorro, acreditaria que eras mau. Vim agradecer o serviço que me fizeste, e garantir-te a minha proteção. Pede o que quiseres, que te prometo fazer.

— Linda fada, disse o bom rei, deves saber o que desejo. Tenho um único filho que muito estimo, e por isso lhe chamo Querido. Se quereis conceder-me alguma graça, sede sua protetora.

— De boa vontade, tornou a fada, posso fazê-lo o mais rico, o mais belo e o mais poderoso dos príncipes. Escolhe o que queres para ele.

— Nada disso desejo para meu filho, respondeu Ubaldo. Ficarei muito agradecido se fi­zerdes dele o melhor de todos os príncipes. De que lhe servirá ser belo, rico, poderoso, se for um malvado? Sabeis perfeitamente que seria infeliz, e que só a virtude fará dele um homem venturoso.

— Tens muita razão, mas não tenho poder para tanto. É preciso que ele trabalhe para ser um homem virtuoso. O mais que posso prometer é dar-lhe bons conselhos, protegê-lo, repreendê-lo e castigá-lo pelas suas faltas, se não se corrigir ou não se punir por suas próprias mãos.

O soberano ficou satisfeito com essa promessa da fada Cândida, e morreu pouco tempo depois.

O príncipe Querido chorou bastante a perda de seu velho pai, e daria todos os seus reinos, toda a sua fortuna para salvá-lo.

***

Dois dias após a morte do rei, estando Querido deitado, apareceu-lhe Cândida, que lhe disse:

— Prometi a teu falecido pai ser tua protetora, e vim cumprir minha palavra fazendo-te um presente.

E no mesmo instante colocou um anel de ouro no dedo do moço, dizendo-lhe:

— Guarda com muito cuidado este anel, que vale mais que todos os tesouros da terra. Todas as vezes que fizeres uma ação má, ele espetará teu dedo. Mas, se apesar disso, persistires, perderás a minha amizade e tornar-me-ei tua maior inimiga.

Dizendo tais palavras Cândida desapareceu, deixando o príncipe admirado.

Querido conservou-se sensato por muito tempo, a ponto de não sentir o anel espetá-lo nenhuma vez.

Tempos depois, indo à caça, sentiu que o anel o incomodava, mas não fez caso; e, como não encontrasse pássaro algum para matar, voltou para casa de mau humor.

Entrando em seu quarto, uma cadelinha que possuía, chamada Mimosa, começou a saltar-lhe em frente, festejando-o, latindo alegremente.

— Passa fora! gritou. Hoje não estou disposto a receber festas.

A cadelinha, não entendendo o que lhe dizia o príncipe, puxou-lhe a aba do paletó, para obrigá-lo ao menos a olhar para ela.

Isto impacientou o príncipe, que lhe deu um pontapé.

Nesse momento o anel deu-lhe uma ferroada tão forte que parecia alfinete. Querido ficou muito admirado, e foi sentar-se a um canto do quarto, envergonhado da sua ação.

E dizia consigo mesmo:

— Afinal de contas, está me parecendo que a fada brinca comigo. Que grande mal fiz em dar um pontapé num animal que me importuna? De que me serve ser senhor de um grande império, se não tenho liberdade de castigar o meu cão?

— Eu não brinco contigo, disse uma voz que respondia ao pensamento do príncipe. Cometeste três faltas em vez de uma. Estavas de mau humor, porque não gostas de ser contrariado, e pensas que os animais e os homens foram feitos para te obedecer. Ficaste zangado, o que é malfeito, e demais, foste cruel para um animalzinho que não merecia ser maltratado. Sei que vales mais que o cão; mas, se é uma coisa razoável e permitida que os grandes possam maltratar os pequenos e os fracos, agora mesmo eu, que sou fada, podia castigar-te, e até te matar, porque sou mais forte que tu. A vantagem de ser senhor de um grande império não consiste em poder fazer o mal que se quer, mas sim todo o bem que se pode.

O jovem confessou a sua falta; e prometeu corrigir-se; mas depressa faltou à palavra. Em pequenino fora criado por uma velha ama que lhe fazia todas as vontades. Se acaso desejava alguma coisa, fazia manha, gritava, batia com o pé, esperneava a ponto de, para se calar lhe darem o que pedia. Ficou por isso com um gênio muito irascível. E demais, a ama lhe dizia sempre que ele um dia havia de ser rei e governar o povo, de sorte que todos teriam que lhe obedecer.

Mais tarde, quando moço, o príncipe compreendeu o seu mau gênio, mas não pôde emendar-se dos defeitos que na meninice adquirira.

Dizia, então, consigo mesmo:

— Sou bem desgraçado em ter de combater todos os dias a minha cólera e o meu orgulho. Se me tivessem corrigido quando pequeno, hoje não sofreria tantos dissabores.

O anel ferroava-o muitas vezes. Em várias ocasiões, ele se detinha em alguma ação má; mas em outras continuava, e o que havia de singular era o anel que o picava pouco por uma falta ligeira; mas quando fazia alguma maldade, o sangue saía do dedo.

Por fim aquilo o impacientou, e querendo ser livre, jogou o anel fora, livrando-se dessa maneira das constantes ferroadas.

Julgou-se desde então o homem mais feliz do mundo, e começou a praticar toda a sorte de loucuras, de modo que se tornou um homem mau e perverso, que ninguém podia aturar.

Meses depois, percorrendo a passeio as ruas da capital, avistou à janela de uma casa de modesta aparência, uma formosíssima jovem, por quem imediatamente se apaixonou.

Essa moça, embora fosse de família paupérrima, não era ambiciosa, e fora criada com muito recato e honradez por seus pais. O príncipe, porém, julgando-a facilmente, imaginou que ela ficaria satisfeitíssima se lhe desse a mão de esposo. Assim dirigiu-se sem mais demora à casinha, e perguntou-lhe o nome. A rapariga respondeu que se chamava Zélia, e que era pastora. Então Querido propôs-lhe o casamento.

Espantada com tão brusca proposta, e não gostando do príncipe, a quem raríssimas vezes via, a formosa jovem recusou a honra que lhe fazia o filho do falecido rei.

— Por quê? perguntou Querido. Acaso te desagrado eu? ou me achas muito feio?

— Não, príncipe, sei que sois belo, porque agora mesmo estou olhando para vossa alteza. Mas que me serviriam vossa beleza, vossa riqueza, lindos vestidos, carros magníficos que me désseis, se as más ações que vos visse praticar todos os dias, me forçariam a vos desprezar e odiar? respondeu ela com a máxima franqueza. Querido encolerizou-se muitíssimo com aquela recusa e mandou que os seus soldados a trouxessem ao palácio.

Passou todo o dia agitado e, como estava verdadeiramente apaixonado, não teve coragem de lhe fazer mal.

Entre os seus favoritos havia um, chamado Xerim, seu irmão de leite, em quem ele depositava toda a confiança.

Esse homem, que tinha inclinações baixas, próprias de um mau-caráter, lisonjeava as paixões do seu amo, e dava-lhe péssimos conselhos.

Assim que viu o príncipe triste, tratou de indagar o motivo.

Respondeu-lhe o jovem que não podia supor­tar o desprezo de Zélia, e que estava disposto a corrigir-se de seus defeitos, já que era preciso ser virtuoso para agradar à moça.

O perverso Xerim aconselhou-o, então:

— Príncipe, sois muito criança em vos inco­modares com uma pastora. Se eu fosse vossa real majestade, obrigá-la-ia a obedecer-me. Lembrai-vos de que sois rei, e que é ridículo a tão alto personagem sujeitar-se aos caprichos de uma plebeia, que ficaria muito contente em ser vossa escrava. Prendei-a a pão e água, e vereis se ela consente ou não em se casar convosco. Ficareis desonrado, se souberem que uma moça do povo resiste aos vossos desejos.

— Mas não ficarei desonrado se fizer morrer uma inocente, porque Zélia não é culpada de nenhum crime? replicou Querido, que ainda tinha uns restos de bons sentimentos.

— Uma pessoa não é inocente, quando não cumpre as vontades de seu rei, retorquiu o infame. Contudo, é preferível que vos acusem de uma injustiça, do que de se estabelecer o princípio de desrespeito a um rei tão ilustre.

O favorito tocou o ponto fraco do rei que, receoso de ver a sua autoridade desprestigiada, abafou a vontade de se corrigir, e partiu para o quarto onde estava a moça, disposto a fazê-la consentir no casamento, ou então vendê-la como escrava no dia seguinte.

Quando o príncipe abriu a porta do quarto em que prendera a jovem, com a chave que sempre trazia no bolso, ficou como doido por não encontrá-la. Zélia havia fugido.

Existia nesse tempo um cortesão que estimava muito o príncipe, e que havia sido seu preceptor.

Esse pobre homem, chamado Salomão, mais de uma vez o aconselhara a reprimir as suas loucuras.

Querido, as primeiras vezes, ouvira-o de bom modo; mas, por fim impacientando-se, já não queria saber mais do velho, nem dos seus conselhos, tendo retirado todas as regalias que o preceptor tinha no palácio.

Salomão, sendo muito sensato, os moços da corte não o estimavam, e por isso procuravam todos os meios de o molestar.

Assim que o rei deu por falta de Zélia, não faltaram intrigantes que dissessem ter sido Salomão quem havia facilitado a fuga da moça, e até contaram que alguns criados ouviram a conversa em que ele promovia a fuga.

Possuiu-se o jovem soberano de grande raiva, e mandou que trouxessem o velho Salomão preso.

Depois de dar essas ordens, retirou-se para o quarto. Apenas, porém, acabava de entrar, a terra toda tremeu, ouviu-se um grande trovão, e Cândida apareceu-lhe, dizendo:

— Prometi a teu pai dar-te bons conselhos, e punir-te se recusasses segui-los: desprezaste-os; não conservaste do homem senão a figura, e os teus crimes te mudaram em um monstro de terror para o céu e para a terra. Já é tempo que eu termine a minha promessa, castigando-te. Condeno-te a ficares semelhante aos animais quadrúpedes. Faço-te semelhante ao leão pela cólera, ao lobo pela gulodice, à serpente pela ingratidão, pois maltrataste o velho Salomão, aquele que foi teu segundo pai, e ao touro pela brutalidade. Traze em tua figura o caráter desses animais.

Apenas, a fada acabava de pronunciar tais palavras, viu-se o príncipe, com horror, tal como ela dissera: um monstro com cabeça de leão, chifres de touro, patas de lobo, e cauda de serpente. No mesmo instante achou-se em uma grande floresta, à beira de uma fonte, onde se refletia a sua horrível figura, e ouviu uma voz, que lhe disse:

— Olha o estado a que te reduziram teus crimes! Tua alma é mil vezes mais feia que a tua figura.

Reconheceu Querido a voz da fada, e possuído de furor, quis investir contra ela.

— Zombo da tua fraqueza e da tua raiva. Vou confundir o teu orgulho, colocando-te sob o domínio dos teus súditos.

A fera foi andando pela floresta quando de repente caiu num buraco muito fundo.

Era um laço que caçadores de animais ferozes armavam para fazê-los cair.

Os caçadores, que estavam à espreita, desceram, foram prender a fera e levaram-na acorrentada para a cidade, onde estava o seu palácio.

Quando lá chegaram, viram toda a população em festas, e perguntaram o que significava aquela alegria.

Respondeu-lhes um homem do povo:

— O príncipe Querido só gostava de atormentar os seus súditos, e por isso fora fulminado em seu quarto por um raio. Deus não pudera suportar tanta crueldade, e livrara a terra de tão mau rei. Quatro homens cúmplices de seus crimes, quiseram partilhar o reino entre si, mas o povo que sabia terem sido os seus maus conselhos que prejudicaram o príncipe, expulsou-os do país e ofereceu a Salomão, a quem o príncipe Querido queria mandar matar, a coroa de rei. Esse digno cidadão acaba de ser coroado, e nós celebramos o dia de hoje como de nossa liberdade, porque Salomão é virtuoso, e vai trazer a seu povo a paz e a abundância

A fera mordia de raiva a corrente em que es­tava presa, ao ouvir esse discurso, porém mais raivosa ainda ficou quando chegou à praça onde estava o palácio, e viu o velho sentado no trono, e todo o povo a lhe desejar longa vida.

Salomão fez um sinal com a mão, pedindo silêncio, e disse:

— Aceitei a coroa que me oferecestes, para conservá-la ao príncipe Querido. Ele não morreu, como supondes. Uma fada mo revelou; e talvez, um dia, vós o vejais virtuoso como era nos seus primeiros anos. Coitado! continuou ele derramando lágrimas, os aduladores o seduziram. Eu conhecia o seu coração, que era feito para a virtude e se não fossem os maus conselhos, ele era o nosso pai. Abominai os vossos vícios, mas lastimai o pobre príncipe, e roguemos a Deus que nos devolva o nosso rei, bom como fora seu pai. Eu me consideraria muito feliz, se soubesse que meu sangue derramado fá-lo-ia digno de um povo bom como sois.

As palavras de Salomão foram diretas ao coração do príncipe, que desde esse dia começou a ser dócil, não mais querendo partir a jaula em que estava.

O homem que tomava conta das feras, no jardim zoológico, era um bruto que a toda a hora castigava os animais.

Querido sofria todos os castigos, manso como um cordeiro, não querendo nunca reagir contra o seu domador.

Aconteceu que um dia a jaula do tigre ficou aberta por descuido, e o desgraçado domador teria morrido, se não viesse à sua frente a curiosa fera, que lutando com a outra, a matou, salvando-lhe assim a vida.

O pobre homem não sabia como acariciar a fera que o tinha salvo, quando ouviu uma voz que disse:

— Não há uma boa ação sem recompensa.

Nisso, o príncipe foi de súbito transformado num lindo cão.

O domador, vendo aquele espantoso caso, foi contar ao rei o sucedido, e este mandou vir para o palácio o cão, que se viu feliz na sua nova transformação. Mas aí não lhe davam o alimento necessário, porque diziam que quanto mais comida lhe dessem, mais ele cresceria, de sorte que o príncipe passou novas provações e, às vezes, até fome.

Certa vez, recebeu ele o seu pedaço de pão e ia devorá-lo, quando viu uma pobrezinha a arrancar ervas para comer. Teve pena da pobre mendiga, e deu-lhe o pedaço de pão, dizendo consigo mesmo que ele poderia esperar pela sua ração até o dia seguinte, e a pobre parecia estar com tanta fome que era bem capaz de morrer.

Estava pensando na miséria da desgraçada, quando ouviu grandes gritos. Eram quatro homens que empurravam Zélia pelo meio da rua, forçando-a entrar numa casa.

O cão sentiu não ser a fera que tinha sido, para poder livrar a moça que tanto amava. Contentou-se, porém, em latir, até ver se chegava alguém que a defendesse dos malfeitores.

Não aparecendo quem viesse em socorro da vítima, o cão começou a esperar por Zélia para ver se ela aparecia.

Nisso viu uma janela abrir-se e imediatamente jogarem uma porção de carne assada perto do lugar onde ele estava.

O cão, que não comia desde a véspera, estava já disposto a comer aquela carne, vinda tão a propósito, quando a pobre, vendo-o, gritou:

— Não comas desta carne, meu cãozinho que está envenenada.

No mesmo instante o príncipe ouviu uma voz que dizia:

— Vês tu que uma boa ação não fica sem recompensa?

E imediatamente viu-se mudado num belo pássaro azul. Começou a voar até a casa onde vira Zélia entrar, e, depois de percorrer todos os quartos, voou em direção a um bosque perto.

Qual não foi o seu espanto quando viu a moça sentada à sombra de uma árvore ao lado de um ermitão!

Assim que a viu, voou ao seu ombro, e começou a festejá-la.

Zélia encantada pela mansidão do pássaro, correspondeu às carícias e disse que havia de o amar para sempre.

Então o pássaro se transformou no príncipe Querido, tal como a moça o tinha visto da primeira vez.

O ermitão, vendo aquilo, transformou-se também na fada Cândida, e disse:

— Está quebrado o encanto, príncipe. Só voltarias à tua forma humana no dia em que Zélia gostasse de ti. Ela acabou de o confessar. Vou conduzir-te ao teu reino, onde está à tua espera o mais leal dos vassalos, o velho Salomão. Confia nele, que é o teu segundo pai. Segue-lhe sempre os conselhos, que te não arrependerás.

Mal a fada acabou de proferir estas palavras, o príncipe Querido viu-se no seu palácio, em companhia de Zélia.

O velho Salomão, quando o viu, chorou de alegria.

Querido tomou conta do reino, e casou-se com a pastora Zélia, vivendo desde então na mais completa felicidade.

Salomão escreveu a história do príncipe Querido, tal como acabamos de narrá-la, para ensinamento de todos, grandes e pequenos, ricos e pobres, fidalgos, e plebeus, reis e vassalos, a fim de que toda a gente se convença que a felicidade, neste mundo, consiste unicamente em vivermos em paz com a nossa consciência, fazendo sempre o bem, mesmo à custa dos maiores sacrifícios e nunca praticando o mal.

 

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Ano de publicação: 1896.
Origem: Brasil (Reconto)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)

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