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sábado, 11 de dezembro de 2021

A lenda da Rosa-Musgo (Lendas de plantas), de Eduardo Sequeira

 

A LENDA DA ROSA-MUSGO

O louro anjo Sible tinha sido mandado por Deus para mitigar o sofrimento duma pobre noiva cujo bem-amado morrera na guerra, defendendo o solo sagrado da pátria. Era Sible o anjo mais gentil de todos quantos formam a imensa legião que Deus comanda, e o favorito querido do Senhor.

Contente com o encargo que lhe fora dado, Sible bateu as asinhas da mais fina plumagem e dirigiu-se para a cabana perdida no meio do bosque, onde morava a desditosa Amel que, chorando desesperadamente, lastimava a solidão e o abandono em que ficava depois de ter arquitetado tantos e tão risonhos projetos de felicidade.

Sible entrou na cabana no momento mesmo em que a inditosa rapariga, alucinada pela dor, procurava pôr termo à existência, e começou, para a consolar, a pintar-lhe com tão brilhantes cores a morte gloriosa do noivo, o lugar distinto que ele ia ocupar no reino dos céus, esperando que ela se lhe fosse juntar para se realizar o eterno e venturoso enlace patrocinado por Deus, que o desespero da rapariga abrandou como por encanto, e um sorriso, raio de sol após temporal desfeito, fugitivamente se lhe esboçou no rosto amargurado. Mas para que Amel merecesse uma felicidade tão extraordinária, felicidade não sonhada por mortal algum, era preciso, indicou-lhe o anjo, que esquecesse a dor mitigando o sofrimento alheio, indo em santa romagem do bem para a cabeceira dos doentes, dos pobres doentes desamparados de carinhos e de família, e para junto das criancinhas que a guerra fizera órfãs, esperar que Deus a chamasse a si, dando-lhe a companhia eterna do bem-amado.

Sible empregou o dia todo na sua divina tarefa, e quando a noite começou a estender o escuro véu sobre a terra, contente por se ter satisfatoriamente desempenhado da tarefa que lhe era imposta, despediu-se da donzela e quis tomar o caminho do céu. Mas com o cair da noite estendera-se sobre o bosque um espesso nevoeiro úmido que desnorteou Sible, e molhando-lhe as penas das asas o impossibilitou de voar. O anjo vendo que lhe era impossível alcançar o céu, tratou de procurar um retiro agradável e seguro onde pudesse sossegadamente esperar a manhã.

Junto de uma parede meio desmoronada, vicejava uma pujantíssima roseira engrinaldada de formosíssimas rosas brancas rescendendo os mais puros e divinais aromas. Mais encantador abrigo, melhor dossel não era possível encontrar em todo o bosque.

Sible foi à parede apanhar um montão de fofo musgo e com ele fez sob a roseira um leito confortável, onde, depois, envolvendo-se nas alvas asas de arminho, se deitou disposto a esperar, velando, que chegasse a madrugada.

Porém o aroma que as rosas emitiam era tão embriagador, e o vento brandamente passando através a folhagem cantava melodias tão doces, que o anjo pouco a pouco cerrou os olhos e adormeceu profundamente.

Nunca no céu Sible passara uma tão agradável noite! Sonhou sonhos tão deliciosos que quando pela manhã o despertaram os primeiros raios do sol, beijou reconhecido as rosas, e estas, corando de alegria e pejo, ficaram para sempre rubras. Mas o anjo considerou o beijo bem fraca recompensa para quem tão agradavelmente o embalara toda a noite, e queria, antes de regressar ao céu, dar-lhe recompensa maior.

Porém como tornar mais belas as rosas em que tudo, forma, colorido e perfume tão distintamente brilhavam?

Esteve um momento pensativo, e depois, apanhando um pouco do musgo que lhe servira de leito, resguardou cuidadosamente com ele os botões das flores prestes a desabrochar, para que o frio, a chuva e os insetos lhes não causassem dano algum.

E em seguida, batendo as asas, voou para o céu a dar conta a Deus da missão de que fora encarregado.

E foi desde então que na terra começou a haver rosas musgo...


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Ano de publicação: 1892
Origem: Portugal
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)

A lenda do Carvalho (Lendas de plantas), de Eduardo Sequeira

 

A LENDA DO CARVALHO 

Hércules, o lendário gigante invencível, regressando um dia de praticar uma daquelas suas tão memoráveis façanhas, deitou-se em pleno campo para dormir a sesta. Antes porém de se confiar aos braços de Morfeu, no solo, junto a si, na previsão de qualquer repentino e inesperado ataque, espetou a pesada maça, mais forte que o ferro, e com que esmagava tudo quanto lhe opunha obstáculo aos seus desígnios. 

Dormiu o bom do gigante por muito tempo e quando acordou era quase noite; procurou logo a arma predileta, e com assombro viu em lugar dela uma pujante e formosíssima árvore! A maça, ao contato do solo, enraizara, desenvolvera tronco, lançara ramos, folhas e furto. 

Hércules furioso arrancou o vegetal e, quebrando-lhe os ramos, fez do tronco uma nova e formidável clava, mais sólida e forte que a que antes possuíra. 

Porém, dos frutos esparsos pelo solo, nasceram ao depois novas idênticas árvores, que para sempre ficaram sendo o emblema da força e do vigor. 

Estas árvores são os carvalhos.

 

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Ano de publicação: 1892
Origem: Portugal
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)

A lenda do Chá (Lendas de plantas), de Eduardo Sequeira

 

A LENDA DO CHÁ 

Dakar era um ardente devoto de Shiva a cruel deusa indiana que só gosta de morticínio e de sangue, e que recebe as adorações mais submissas, profundas e completas duma legião de crentes que habitam nos misteriosos recessos das florestas da Índia, dessa terra das lendas e das maravilhas. Havia anos que vivia numa gruta em ardente adoração; de estar sempre de joelhos criara calosidades que lhe não permitiam endireitar as pernas, e as unhas dos dedos das mãos, que conservava fechadas havia anos, tinham rompido os tecidos e apareciam do lado oposto. 

Não havia martírio a que se não sujeitasse, e as populações fanáticas consideravam-no Santo e vinham de longe render-lhe homenagem e pedir-lhe conselhos. 

Só uma nuvem negra, um pesar profundo perturbava o misticismo de Dakar. Sofria sem custo o frio, a fome, a sede, as mais incômodas posições, dominando à vontade o organismo, só não pudera ainda vencer o sono! Debalde se esforçava por resistir, debalde fazia despejar sobre si quantidades enormes de água fria, debalde se sujeitava à aplicação do ferro em brasa, ou fazia vibrar o tantã junto dos ouvidos. O sono como mais forte, subjugava-lhe a vontade e obrigava-o a dormir. No seu desespero chegou a fazer cortar as pálpebras cuidando assim que espancaria para longe o sono, mas a tortura foi baldada. Os olhos permaneciam abertos mas Dakar dormia! 

Uma tarde, — havia dias que estava sem comer — orava o faquir fervorosamente pedindo a Shiva que se amerceasse dele e lhe permitisse antes de morrer a última e suprema felicidade de poder vencer o sono, quando começou a sentir-se muito fraco, uma languidez precursora do sono a dominá-lo, tudo a dançar-lhe à volta... 

Seria fome? Seria sono? Oh, se apaziguando a fome vencesse o sono... 

Olhou em roda... alimentos nenhuns; os fiéis tinham-se esquecido de lhos trazer... mas não havia mal... Fora, perto da gruta, vegetavam variados arbustos, e a alimentação de tantos animais também havia de convir ao homem. Seria mais um sacrifício... E Dakar arrastando-se com dificuldade, quase vencido pela necessidade de dormir, chegou até junto dum vegetal e começou a devorar-lhe as folhas. 

Mas, caso milagroso, à medida que ingeria as folhas do vegetal, o sono desaparecia e o faquir sentia-se mais forte, fresco e vigoroso. 

Obrigado oh Shiva! exclamou ele jubiloso, agora posso morrer, pois morro feliz visto que graças a ti, alcancei dominar o que até hoje zombara dos meus esforços. Venci o sono! 

Começou desde então a fazer colher pelos seus adeptos folhas e folhas do vegetal, que deitava de infusão, e quando o sono fazia sentir os seus primeiros rebates bebia da água milagrosa e ele desaparecia logo. 

O arbusto descoberto pelo fanático faquir indiano, o vegetal dissipador do sono foi o chá.


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Ano de publicação: 1892
Origem: Portugal
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)

A lenda da Papoula (Lendas de plantas), de Eduardo Sequeira

 

A LENDA DA PAPOULA 

Naqueles bons tempos em que os deuses desciam à terra a confraternizar com os humanos, vivia nos Alpes um rapaz filho de gente pobre mas que pela sua bondade e pelo carinhoso desvelo com que sabia velar à cabeceira dos doentes era querido e estimado por todos. 

Tinha a grande e apreciável arte de por meio de doces cantares saber adormecer aqueles que eram apoquentados pelas mais terríveis e rebeldes insônias, de modo que os seus conterrâneos lhe não deixavam um momento só de descanso. 

Em qualquer adoecendo, a família ia logo ter com o pobre rapaz, que não podendo resistir às suplicas lá se instalava junto dos doentes, embalando-os com as suaves melodias que chamam o sono e que ele sabia dizer como ninguém. 

Mas não podendo resistir a tão excessivas e continuadas fadigas e vigílias, foi pouco a pouco enfraquecendo, até que um dia se extinguiu ao cair da tarde, quando o sol morria no extremo horizonte... 

Então os deuses para premiarem as boas ações do que morrera praticando o bem, tornaram-no imortal, transformando-o numa planta, na papoula, a quem deram a principal virtude pela qual os doentes o desejavam sempre junto a si, a de fazer esquecer o sofrimento por meio do sono.


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Ano de publicação: 1892
Origem: Portugal
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)

A lenda da Chicória (Lendas de plantas), de Eduardo Sequeira

 

A LENDA DA CHICÓRIA 

Chicória era uma princesa tão formosa, que todos os homens ao vê-la ficavam para sempre perdidos de amores. Dourara-lhe o sol os cabelos mais finos que a mais fina seda, o céu emprestara-lhe aos olhos o seu doce azul, e a neve, a branca neve das montanhas, tinha inveja à puríssima alvura da sua cútis. 

Era um encanto. 

O rei, seu pai, que a estremecia doidamente, satisfazia-lhe todos os caprichos, todos os desejos, de modo que o viver de Chicória deslizava entre afagos e desejos satisfeitos, numa completa e intensa felicidade. 

Porém um dia o amor tudo transtornou. 

Um belo trovador, um daqueles gentis boêmios que percorriam o mundo de lira no braço, deixando um rasto de paixões no caminho percorrido, chegou ao palácio, onde foi recebido com todo o carinho que então se dispensava ao seguro depositário das antigas tradições guerreiras e das castas e belas lendas d'amor. 

Berengère se chamava ele, e nunca até então viera ao palácio real quem melhor soubesse dedilhar a lira, soltar ao vento os magoados queixumes duma alma amorosa ou atingir o ápice do entusiasmo na narrativa dos feitos audazes dos valentes guerreiros imortalizados em campanhas feramente medonhas. 

Chicória amou-o perdidamente, e costumada a satisfazer todos os caprichos, pediu ao pai que a casasse com o trovador. O rei, que nada recusava à filha, acedeu constrangido, mas o belo trovador, que não queria perder a estremecida liberdade que tantas várias aventuras galantes lhe proporcionava e tantos constantes prazeres seguros lhe dava, ao saber dos desejos da formosa princesa fugiu do palácio para nunca mais voltar. 

A alegria de Chicória desapareceu desde então para sempre. Passava os dias sentada no varandim do palácio olhando pela estrada além a ver se o trovador, condoído do seu profundo amor, voltava arrependido, trazendo-lhe a ventura perdida. 

Mas debalde esperou. 

Veio o inverno, e de sempre olhar fixamente para os caminhos cobertos de neve, pouco a pouco desapareceu-lhe a luz dos olhos... 

Então, não podendo resistir a este último golpe, a princesa morreu de paixão. 

Sepultaram-na perto do palácio, à beira da estrada, num local por ela designado, voltada para o sitio donde sempre esperara o regresso do amante; pouco tempo depois, da sepultura da gentil donzela morta de amor, brotaram as plantas que lhe conservam o nome, e que dão uma flor que pelo belo azul que a tinge faz recordar os castos olhos da candidíssima princesa.



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Ano de publicação: 1892
Origem: Portugal
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)

A lenda da Aboboreira (Lendas de plantas), de Eduardo Sequeira

 

A LENDA DA ABOBOREIRA

Quando Nínive, condenada pelos seus malefícios, estava prestes a ser arrasada, Jonas, que queria ser espectador do fato tremendo que profetizara, veio postar-se num local donde perfeitamente podia presenciar o castigo da cidade maldita.

Porém no posto de observação escolhido, não havia uma só árvore, e um sol de fogo, a prumo, tornava tão martirizante a estada ali do profeta, que este, angustiado, pediu a Deus que o socorresse, atenuando-lhe de alguma forma a intolerável ardência dos raios solares. Ainda Jonas não tinha acabado a sua fervorosa prece, já uma planta se erguia do solo, crescia rapidamente e envolvia-o tão bem, que o profeta, contentíssimo e consolado, pensando que poderia gozar da bela frescura proporcionada pela folhagem do vegetal, terminou o pedido com um intenso agradecimento ao céu pelo benefício prestado. Mas nisto, tão repentinamente como brotara do solo, a planta secou e reduziu-se a pó, deitando assim num instante por terra as doces esperanças do santo profeta. Esta planta era a aboboreira.

 

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Ano de publicação: 1892
Origem: Portugal
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)

A lenda da Rosas (Lendas de plantas), de Eduardo Sequeira

 


A LENDA DA ROSAS

As rosas atraíram desde a mais alta antiguidade a atenção de todos os povos e por isso não é de estranhar o grande número de lendas que correm a seu respeito.

Os egípcios tinham-nas em grande valor, ornando-se com elas, uso que passou aos romanos e destes a todos os povos modernos. Ainda não há muito que apareceram em vários túmulos egípcios restos reconhecíveis de rosas.

Os Hindus dizem que o sol é uma rosa vermelha, e os poetas antigos asseveram que as rosas eram todas brancas ao princípio tomando a cor vermelha do sangue de Adônis, segundo uns, de Vênus, segundo outros.

A Aurora era representada outrora sob a forma de uma grinalda de rosas, a rosa deu o nome às festas da primavera (rusalija), a Virgem cristã que substituiu no culto a Vênus antiga adotou como seu o mês das rosas e tem também o nome de rosário o cordão com contas, primitivamente composto com tratos da Rosa canina, com que as mulheres piedosas marcam as suas rezas.

Os papas aproveitaram um fragmento do antigo culto da rosa, dando anualmente na Páscoa uma rosa de ouro aos príncipes mais religiosos da cristandade.

Na Idade Média, reminiscência sem dúvida do costume das dissolutas da Roma antiga se ornarem de rosas na festa da Vênus Ericina, condenavam as mulheres públicas, as raparigas desonradas e os judeus, a trazerem como sinal distintivo uma rosa.

Os Romanos nos banquetes punham coroas de rosas na cabeça e ornavam com elas as taças por onde bebiam em virtude de crerem que estas belas flores preservavam da embriaguez.

A rosa foi não só símbolo da luz, do amor, da voluptuosidade, mas também símbolo funerário. Nas lendas persas as rosas e os ciprestes andam unidos; junto dos túmulos plantavam-se antigamente roseiras ao lado dos ciprestes.

Segundo uma velha lenda irlandesa, quando um doente vê uma rosa é sinal e morte.

Os Turcos dizem que a rosa nasceu do suor de Maomé, os indianos fazem-na aparecer de um sorriso da voluptuosidade, segundo Galliano é filha do orvalho, e a crer-se no que afirma Justin de Myeckow brotou do suor de uma mulher chamada Jone, suor que por um fenômeno singular era branco de manhã e vermelho ao meio dia. Daí as rosas brancas e as vermelhas.

Anacreonte ensina-nos que Cibele, para se vingar de Vênus, criou a rosa com o fim de pôr em paralelo a beleza de Vênus com a beleza da rosa.

Guillemeau diz que a rosa foi rainha e virgem e conta assim a sua história:

“Existiu numa cidade da Grécia e reinou em Corinto; a fama da sua beleza espalhou-se largamente por todas as cidades ainda as mais distantes. A Acaia quis possuir esta ninfa proporcionando-lhe as mais ilustres alianças.

O bravo Halésia colocou-se em primeiro lugar, em seguida Briar, que se orgulhava em ser filho do céu, Arcas distinto dos outros deuses por possuir dois pares de asas e por último o vencedor de Tebas depôs também os seus louros aos pés da jovem princesa possuído dos sentimentos afetivos de todos os outros adoradores. Mas a altiva beleza respondeu aos amantes que a importunavam: Não é fácil obter um coração como o meu, nem julgueis que vos é possível seduzir-me. Quem me quiser há de vencer-me.

Disse, e com um andar altivo encaminhou-se para o templo consagrado a Apolo e a Diana, seguida dos parentes e de todo o povo. A ninfa aproximou-se do altar e invocou a deusa protetora da castidade. Nisto os amantes furiosos despedaçaram as portas do templo e travou-se um combate encarniçado; a jovem rainha sustentou o choque com firmeza, e defendeu-se com tanto vigor que expulsou para longe os ferozes amantes, cujo procedimento pouco delicado a ultrajava.

Quer que o pudor irritado desse novas graças à beleza quer que a vitória a tornasse mais imponente, Rodante brilhava com um esplendor tão divino que o povo deslumbrado exclamou em coro:

Que a bela Rodante seja de hoje para o futuro a deusa deste templo. Tiremos Diana do altar.

A antiga deusa teve de ceder o lugar à nova, mas Apolo indignado por este cumulo de audácia resolveu vingar o ultraje feito à irmã e com um raio luminoso lançado obliquamente mostrou a aversão que tinha a Rodante, e logo tudo mudou nela; os pés ligaram-se-lhes fortemente ao altar, raízes alongaram-se e, privada repentinamente de todo o sentimento, ficou imóvel, tornando-se-lhe duros os encantos vencedores. Os braços estenderam-se e transformaram-se em ramos de árvores carregados de folhas. Já não é a bela Rodante, a orgulhosa rainha, mas uma árvore.

Porém a metamorfose não a prejudicou, visto que sob uma outra forma conservou a primitiva insensibilidade e a sua beleza deslumbrante.

Toda a sua desgraça foi ser formosa, mais formosa que Diana aos olhos dos adoradores que a amaram.

Quase logo o mesmo povo que tinha ultrajado Diana, agitou-se e esforçou-se pô-la vingar.

Sepultam Rodante sob montões de espinhos que em lugar de a prejudicar lhe serviram de defesa.

Os que doidamente a amavam foram também metamorfoseados: Briar foi transformado em verme, Arcas em mosca, e Halésia em borboleta, e sob esta forma vivem constantemente junto da ninfa cruel a quem a metamorfose não mudou”.

O marquês de Cesnel dá-nos notícia da seguinte lenda grega:

“Apesar de consagrada desde a mais tenra infância ao culto de Diana, Rosália formou o projeto de desposar o belo Cimedoro.

Mas não se afronta impunemente a cólera dos Deuses. Apenas acabava de pronunciar aos pés do altar do himeneu os juramentos sagrados, uma flecha despedida por Diana trespassou-lhe o coração. Cimedoro com a cabeça perdida lança-se sobre o corpo da esposa, mas... oh prodígio! em lugar das formas sedutoras da noiva só estreita de encontro ao peito um arbusto coberto de espinhos e flores odoríferas que recebeu depois o nome da infeliz Rosália”.

Abel Belmont, resume assim uma outra lenda que lhe foi transmitida por Joseph Balmont:

“Era no tempo maravilhoso em que a Natureza se afadigava em produzir em cada dia um novo ser.

Num alto monte, um arbusto estranho, sem ramos e sem folhas, tinha brotado da terra, e ali permaneceu durante muitíssimos anos sempre no mesmo estado.

Um dia porém uma mulher jovem e formosíssima, tocando lira e cantando melodiosamente, aproximou-se da planta.

Ao ver um vegetal tão feio, condoeu-se e afagou-o com a mão: apenas o vegetal se sentiu tocado, da extremidade semisseca borbulhou seiva e brotaram pétalas macias como a mão que tocou o arbusto e rosadas como as faces da formosa cantora.

Nenhuma flor na terra pôde depois para o futuro ser comparada em beleza e perfume à deslumbrante rosa que Vênus fez nascer”.

Ângelo de Gubernatis conta-nos da seguinte forma a lenda da roseira brava:

“A rosa canina passa na Alemanha por sinistra e diabólica.

Müllenhoff ouviu no Schleswig uma lenda em que o diabo, caído do céu, afim de para ali tornar a subir procurou fazer uma escada com os espinhos da roseira brava.

Deus em castigo do fato condenou o vegetal a não poder elevar-se mas só ramificar-se para os lados; então, despeitado, o diabo voltou-lhe para o solo a ponta dos espinhos.

Outros pretendem que a roseira brava, recebeu esta maldição na ocasião em que nela se enforcou Judas, e é comemorando este fato que ainda hoje chamam aos frutos, Judas-beeren (bagas de judas).

 

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Ano de publicação: 1892
Origem: Portugal
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

A lenda do Acônito (Lendas de plantas), de Eduardo Sequeira

 

A LENDA DO ACÔNITO

O acônito é conhecido como planta venenosa desde a mais alta antiguidade. Diz uma lenda grega que este veneno nascera no jardim de Hécate, da baba do cão Cérbero, quando Hércules o arrancou da entrada do Averno. O cão, ao contato com a luz diurna, que pela primeira vez via, sentiu-se fortemente incomodado, expelindo pela negra e suja boca torrentes de baba, que, ao tocarem o solo, se transformaram em vegetais venenosos como o líquido que lhes dera origem.


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Ano de publicação: 1892
Origem: Portugal
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)

A lenda da Apamarga (Lendas de plantas), de Eduardo Sequeira



A LENDA DA APAMARGA

Ângelo de Gubernatis conta-nos assim a lenda da apamarga (Achirantes aspera), uma vulgar planta indiana.

Segundo uma lenda do Yajurveda Negro, Indra tinha matado Vritra e outros demônios, quando encontrou o demônio Namuchi e lutou com ele; vencido fez as pazes com Namuchi com a condição de não o matar nunca, nem com corpo sólido, nem com líquido, nem de dia, nem de noite.

Então Indra apanhou espuma, que não é sólida nem líquida, e veio durante a aurora, na ocasião em que a noite tinha desaparecido mas o dia ainda não raiara, e feriu com ela o monstro Namuchi. Da cabeça de Namuchi nasceu então a erva apamarga, e Indra em seguida, com ajuda desta erva, destruiu todos os outros monstros.

 

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Ano de publicação: 1892
Origem: Portugal
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)

A lenda do Trigo (Lendas de plantas), de Eduardo Sequeira

 

A LENDA DO TRIGO

Satanás tinha dado um grande campo a um lavrador com a condição de que metade da colheita seria para ele. Naquela ocasião, e na terra onde o fato se dera, não era conhecida senão a sementeira da batata, que foi a que o lavrador fez. Chegada a época da colheita, o diabo veio reclamar o que lhe pertencia, e, dizendo que a metade dele era a que estava debaixo da terra, enquanto que a do ar era do lavrador, deixou este só com a rama, sem ter alimento para todo o ano. O pobre do homem ludibriado por Satanás, lastimava a sua sorte, chorando à beira do caminho que passava por junto do campo, quando apareceu um santo monge que inquirindo a causa do pesar do lavrador, resolveu pregar uma peça ao diabo. Disse ao homem que o acompanhasse e, chegado ao mosteiro a que pertencia, deu-lhe sementes de trigo, ensinando-lhe como se semeava e como dele se fabricava pão.

O lavrador fez o que o santo monge lhe indicara, e, logo que veio o tempo da colheita, chamou Satanás que, como no ano anterior, reclamou o que estava sob a terra, mas daquela vez ficou logrado pois só teve as raízes enquanto o lavrador se regalava com a magnífica colheita de trigo que lhe forneceu um saborosíssimo pão.

 

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Ano de publicação: 1892
Origem: Portugal
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)

A lenda da Amoreira Negra (Lendas de plantas), de Eduardo Sequeira

 

A LENDA DA AMOREIRA NEGRA

Esta amoreira que mais tarde recebeu o nome científico de Morus nigra, tem uma comovente e célebre história de amor.

Tisbe tinha marcado uma entrevista a Píramo sob a copada folhagem de uma amoreira. Tisbe chegou primeiro, e enquanto esperava o bem amado apareceu uma leoa com a boca ainda tinta do sangue da presa que acabara de devorar. A donzela cheia de medo, fugiu correndo, e o vento arrancando-lhe o véu, que lhe envolvia a cabeça, atirou-o junto da leoa, que o despedaçou, tingindo-o de sangue.

Píramo, ao chegar, vê o véu, e julgando que a amante fora devorada pelas feras, cheio de desespero, suicida-se junto da árvore que por tanto tempo lhes abrigara os belos e deliciosos sonhos de amor.

Tisbe, volta pouco depois, e, dando com Píramo moribundo, trespassa o coração com o mesmo ferro de que ele se servira e cai morta sobre o corpo do amante.

Os frutos da árvore brancos até então ficaram depois, para sempre, negros.

 

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Ano de publicação: 1892
Origem: Portugal
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)

A lenda do Cedro (Lendas de plantas), de Eduardo Sequeira

 

A LENDA DO CEDRO

O cedro foi venerado desde os mais remotos tempos, e foi ele também que forneceu a madeira de que fabricaram a cruz onde Cristo morreu.

Salomão cantou os cedros do Líbano, os símbolos da imortalidade, e todos os povos antigos tinham pelo cedro particular veneração.

Uma árvore, considerada sempre pelo homem como árvore protetora por excelência, não podia deixar de ser também divinizada pelas lendas. Entre as muitas que correm por todo o Oriente duas há verdadeiramente deliciosas, uma chinesa e outra egípcia.

Hanpang secretário do rei Kang, amava doidamente sua esposa a formosa Ho. A sua pura felicidade foi porém perturbada um dia pelo rei Kang que, enamorando-se perdidamente de Ho, fez prender Hanpang esperando que assim a pobre esposa cederia aos seus infames desejos.

Hanpang vendo-se preso, impossibilitado de defender a esposa, desesperado, suicidou-se, e Ho, ao saber da morte do marido, atirou-se duma alta torre onde o rei a encerrara, morrendo logo da queda. Ao removerem o corpo da desventurada Ho foi-lhe encontrada uma carta dirigida ao rei em que pedia que lhe mandasse sepultar o corpo junto do marido.

O rei, porém, furioso por ter sido ludibriado, ordenou que os corpos fossem enterrados longe um do outro, mas, caso estranho, de noite brotaram dois cedros um de cada sepultura, e em poucos dias cresceram tanto, que, apesar de muito afastados um do outro, entrelaçaram fortemente os ramos e as raízes, conseguindo assim os dois esposos, eternizar transformado o seu amor.

A lenda egípcia diferente na forma, no fundo é quase a mesma.

Batou, um herói egípcio, tem a vida ligada ao viver do cedro. O seu coração está no centro da árvore junto à qual vive. Cortando a árvore o herói morrerá. Porém dado esse caso, ainda pode vir a ressuscitar se antes de sete anos seu irmão Anpon, lhe procurar o coração e, logo que o encontrar, o mergulhar num certo e especial líquido sagrado.

Os deuses que particularmente estimavam Batou, não querendo que ele vivesse constantemente só, junto do cedro que lhe guarda o coração, dão-lhe por esposa uma mulher que especialmente criaram para tal fim, e que é a mais formosa que até então existira.

Batou, perdido de amor pela mulher, cuja beleza é funesta, revela-lhe o segredo da sua existência fatalmente ligada à do cedro.

Um rio que passava através do bosque apaixona-se pela mulher de Batou, e este, para aplacar as águas, vê-se obrigado a cortar à esposa uma trança de cabelo e dá-la ao rio. O rio orgulhoso com o belo penhor recebido leva-o ao sabor da corrente, embalando-o com melodias estranhas e embriagando-se com o delicioso aroma que o cabelo emitia.

A lavadeira do rei daquele país, que estava lavando roupa nas águas do rio, vê a formosa trança, apanha-a e vai-a entregar ao rei, que vendo cabelos tão belos e aspirando-lhe o perfume embriagador, fica logo apaixonado pela mulher, a quem pertenciam, e manda soldados ao bosque do cedro, com o fim de se apoderarem da cobiçado presa, mas Batou mata-os a todos. O rei não desanima, levanta um novo e numerosíssimo exército e com ele consegue vencer Batou e obter a mulher.

Porém esta não podia casar com o rei enquanto Batou fosse vivo; preferindo porém ser rainha a mulher de um herói revela ao rei o segredo da vida de Batou.

O cedro então é cortado e Batou morre.

Anpou que ia visitar o irmão, encontrando-o morto, parte à busca do coração para o fazer ressuscitar, e só ao fim de quatro anos é que consegue descobrir no interior de um cedro o coração do irmão.

Depõe-o logo num vaso cheio de líquido sagrado e passado um dia o coração começa a palpitar e Batou revive. Anpou faz-lhe beber o líquido e o coração e Batou adquirindo todo o seu passado vigor transforma-se num touro que todo o Egito venera.

A rainha ao saber que Batou vive transformado em touro, obtém do rei que este o mande matar, porém quando o animal era imolado as suas primeiras gotas de sangue logo que tocaram no solo deram nascimento a dois cedros, nova transformação de Batou.

O rei a pedido da mulher, faz cortar as árvores, trabalho a que ela assiste jubilosa.

Porém um pequenino fragmento de madeira salta e entra-lhe pela boca, sem que lhe seja possível expeli-lo. Passados dias vê a rainha que está grávida e no fim do tempo próprio, dá à luz um formoso rapaz, nova encarnação de Batou.


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Ano de publicação: 1892
Origem: Portugal
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)

A lenda do Marmeleiro (Lendas de frutas), de Eduardo Sequeira

 

A LENDA DO MARMELEIRO

O marmeleiro foi na antiguidade consagrado a Vênus, e o seu fruto considerado como um penhor de amor.

Outrora os noivos, segundo Plutarco, comiam marmelos, para lhes tornar agradável a sua primeira entrevista e segundo outros para obter filhos varões. Porém a verdadeira consagração do marmeleiro e do marmelo a Vênus, isto é ao amor, vem de um fato astucioso que a antiguidade altamente celebrou.

Acôntios apaixonou-se doidamente pela formosa Cídipe de Delos. Não se atrevendo a fazer-lhe uma declaração de amor, colocou no templo de Diana, junto do local onde Cídipe costumava fazer as suas orações à deusa, um marmelo com a seguinte inscrição: Pela divindade de Diana, juro que serei esposa de Acôntios.

A rapariga entrando no templo e vendo o fruto apanhou-o e leu em voz alta a inscrição fazendo por isso, inconscientemente o juramento sagrado de esposar Acôntios, o que religiosamente cumpriu. 

 

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Ano de publicação: 1892
Origem: Portugal
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)

A lenda da Romã (Lendas de plantas), de Eduardo Sequeira

 

A LENDA DA ROMÃ

A romã simboliza a fecundidade e a riqueza pelo grande número de sementes que em si contém. Foi um fruto muito apreciado pelos antigos que o tinham em especial estima.

Dario, o grande rei asiático, repetia frequentemente que só desejava possuir tantos amigos fiéis como de sementes tem uma romã.

Era também frequente, naqueles bons remotos tempos os povos presentearem os reis que os visitavam com romãs, significando assim que lhes desejavam tão numerosos e felizes anos de vida, como as sementes contidas nos frutos.

Na Turquia, as noivas, após a cerimônia do casamento, atiram violentamente com uma romã ao chão; se o fruto não rebentar é sinal que não terão filhos, e rebentando terão tantos quantas forem as sementes que dele se espalharem pelo solo.

A romãzeira era também árvore fálica por excelência, fato confirmado pela seguinte e antiquíssima lenda narrada por Opiano.

Um homem viúvo namorou-se tão furiosamente de uma filha por nome Sida, que esta teve de suicidar-se para escapar à infame perseguição do pai. Os deuses condoídos transformaram Sida em romãzeira e o pai em falcão, e é por isso — diz Opiano — que estas aves nunca pousam na romãzeira, evitando-a cuidadosamente.


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Ano de publicação: 1892
Origem: Portugal
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)

A lenda da Açucena (Lendas de flores), de Eduardo Sequeira

 

A LENDA DA AÇUCENA

Foi na Grécia, que teve origem a lenda da açucena a quem os gregos chamavam a flor das flores.

Herácles, uma criança, por ordem de seu pai Zeus, sugou o leite dos peitos de Hera, enquanto esta dormia, a fim de participar da imortalidade que ela possuía. A criança porém, fê-lo com tal força, e o leite era tão abundante, que lhe saiu em borbotões pela boca e correndo pelo solo, dando origem à via láctea e à açucena.

A deusa Afrodite, que por ter nascido da espuma do mar se considerava de uma alvura sem igual, ao ver a candidez da açucena ficou furiosa de despeito e, para se vingar da flor, fez-lhe brotar do centro um enorme e feiíssimo pistilo.

 

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Ano de publicação: 1892
Origem: Portugal
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)

A lenda da Palmeira (Lendas de árvores), de Eduardo Sequeira

 

A LENDA DA PALMEIRA

Simboliza a palmeira a vitória, a riqueza, a força, a resistência e a beleza. Na poesia oriental são muitas vezes comparadas as pernas e os braços das formosas indianas às hastes flexíveis e elegantes das palmeiras.

A árvore divina de todos os povos não podia também deixar de ser santificada pelo cristianismo.

Foi-o na seguinte e deliciosa lenda cristã.

Quando a Virgem em companhia do esposo e do divino filho fazia a sua primeira e dolorosa viagem, descansou um dia à sombra de uma palmeira. Ao ver os tentadores frutos da árvore, desejou-os ardentemente, porém estavam tão altos que lhe não era possível chegar-lhe. São José esforçava-se por subir à árvore, quando esta se inclinou e veio colocar-se ao alcance da Virgem que colheu os frutos que quis, e só depois disso é que a árvore retomou a primitiva posição vertical.

Jesus Cristo, que estava ao colo da mãe, reconhecido pela dedicação da palmeira, abençoou-a dizendo que ela ficaria sendo o símbolo da salvação eterna para os moribundos e que havia de fazer — como mais tarde fez — a sua entrada triunfal em Jerusalém, com uma palma na mão.

 

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Ano de publicação: 1892
Origem: Portugal
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)

A lenda do Rabanete (Lendas de plantas), de Eduardo Sequeira

 

A LENDA DO RABANETE

A lenda relativamente a este vegetal é uma lenda alemã.

O diabo apaixonando-se por uma formosa princesa, esposa de um grande rei do país do Sol, roubou-a, encerrando-a em recônditos jardins situados entre altas montanhas.

Como a princesa chorasse constantemente por se ver só, o diabo deu-lhe uma vara mágica e disse-lhe que quando quisesse companhia tocasse com ela um rabanete que ele logo se animaria transformando-se em uma mulher. Porém as companheiras que a princesa obtinha desta forma só viviam enquanto os rabanetes tinham suco. Logo que secavam as donzelas morriam.

A princesa desejando enganar o diabo pediu-lhe para que lhe desse uma vara mágica com a qual pudesse transformar os rabanetes nos animais que quisesse. O espírito das trevas imaginando que desta forma obteria as boas graças da princesa acedeu gostoso. Esta, obtida a vara mágica, transformou um rabanete em abelha que mandou como mensageira ao esposo. A abelha não voltou e ela transformou outro rabanete em grilo que faz seguir o mesmo caminho. Como o grilo não regressasse tocou um terceiro rabanete que transformou em cegonha e esta traz-lhe o esposo. Nisto o diabo, desconfiando que estava sendo ludibriado foi contar os rabanetes mas, enquanto se entretinha com este serviço, a princesa transformou um rabanete, que já tinha escondido de prevenção, em fogoso cavalo e, montado nele, juntamente com o esposo, fugiu para sempre do poder do diabo.

 

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Ano de publicação: 1892
Origem: Portugal
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)

A lenda do Tabaco (Lendas de plantas), de Eduardo Sequeira

 

A LENDA DO TABACO

Esta planta foi, como é sabido, introduzida na Europa pelos portugueses nessa bela época em que audaciosos e fortes ditavam leis ao mundo submisso e absorto ante as suas façanhas sobre-humanas.

Recebida ao principio com estima, provocou em breve o tabaco, intensa e crua guerra.

Para uns era a erva santa, o remédio certo e seguro de todas as doenças, para outros a erva do diabo, a erva maldita, a origem de todos os males.

A igreja lançou-lhe excomunhão, os monarcas açoitaram-na com os seus ódios, e leis severíssimas proibiram o uso do tabaco. Pois apesar de tudo ele foi-se espalhando de tal forma, que por todo o mundo é raro agora o homem que o não usa cheirando-o, fumando-o ou mascando-o. O tabaco hoje é quase um alimento, e o produto querido dos principais governos civilizados que dele extraem as suas melhores e mais seguras receitas.

Médicos e higienistas notáveis têm-se ultimamente esforçado em mostrar os inconvenientes do uso e abuso do tabaco, o quanto ele concorre para o enfraquecimento das gerações, mas tudo isso são palavras ao vento; todos reconhecem o mal mas ninguém tem forças de o cortar pela raiz.

O vício alastra cada vez mais, do homem vai passando para a mulher e desta para a criança. É uma praga universal.

Espalhado como está, ferindo a imaginação de todos os povos, não podia deixar de ter o tabaco muitas e variadas lendas; a mais antiga e a mais curiosa é a dos Tchumaches.

Este povo, que sempre seguira a lei de Deus, foi uma vez tentado por uma mulher idólatra que, com os seus propósitos libertinos, esteve quase a fazer naufragar a proverbial castidade dos Tchumaches. Deus ao ver em perigo os homens que estimava ordenou-lhes, para se lavarem da culpa, que matassem a sedutora, e a enterrassem em seguida no centro de um escuro bosque.

O marido desta mulher, industriado pelo diabo, que não podia ver com bons olhos a virtude dos Tchumaches, plantou-lhe sobre a sepultura uma vara que aquele lhe deu, vara que com o tempo se transformou num belo arbusto de largas e formosas folhas. Os Tchumaches passando mais tarde por ali viram o idolatra cortar ao arbusto as folhas secas, encher com elas um cachimbo, pegar-lhe fogo e sorver depois com avidez o aromático fumo que elas desenvolviam.

Admirados com o fato, imitaram o manejo do idólatra, e sentiram tal prazer com o fumo do tabaco, que nunca mais cessaram de fumar, perdendo, assim as boas graças de Deus, e caindo sob o domínio do diabo, pois a planta não era mais que uma nova encarnação de Satanás o qual assinala a sua passagem por qualquer lugar com fumo intenso e um cheiro nauseante, embriagador, igual ao do tabaco.


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Ano de publicação: 1892
Origem: Portugal
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)

A lenda do Milho (Lendas de plantas), de Eduardo Sequeira

 

A LENDA DO MILHO

As espigas dos cereais foram sempre o símbolo da abundância, e a do milho, pela cor dourada da semente era mais particularmente o símbolo da riqueza.

Na África, entre os nativos, a espiga do milho representa a propriedade do solo.

Conta o Dr. Schweinfurt, num dos seus livros de viagens, que na África, as tribos depois da respectiva declaração de guerra, colocam no extremo dos seus domínios, em local bem exposto, de modo a poder facilmente ser visto por todos, uma espiga de milho, uma molhada de penas de ave e uma flecha, o que quer significar que quem cortar uma espiga de milho ou agarrar uma ave, será morto por uma flecha.

Na Calábria há a seguinte e graciosíssima lenda relativa ao milho, que segundo Gubernatis não é mais do que uma variante, sob forma moderna, do antigo conto mitológico de Midas que mudava em ouro todo o trigo que tocava.

Uma mãe tinha sete filhas, seis muito diligentes e cuidadosas e a sétima preguiçosa em extremo. Eram todas tecedeiras, mas a mais nova, formosa entre as formosas, passava o tempo a tratar da sua pessoa e a confeccionar belos vestidos em vez de cuidar das suas obrigações caseiras.

Um domingo as irmãs mais velhas foram à missa e deixaram a coser sob a vigilância da mais nova sete pães de milho. Como se demorassem a mais nova foi comendo um a um os pães, de modo que quando as irmãs regressaram da igreja não restava nenhum.

As irmãs faltando-lhe o almoço fizeram tal barulho que teve de intervir para as apaziguar um dos mais ricos mercadores da cidade que naquele momento passava por acaso na rua.

As irmãs falando todas ao mesmo tempo dizem-lhe que a mais nova comia por sete, mas o homem compreendendo que o barulho era motivado por inveja das outras irmãs e que a rapariga fiava por sete, tratou logo de se casar com ela.

Realizado o casamento o negociante partiu para longa viagem deixando à mulher, como tarefa, um grande quarto cheio de linho para fiar.

Estava prestes o regresso do negociante e a mulher ainda não tinha fiado nada. Por mais que quisesse não o podia fazer, e as irmãs jubilosas riam e troçavam-na, contentes por calcularem que o marido logo que chegasse não deixaria de lhe castigar severamente a preguiça.

A pobre rapariga chorava, chorava, pretendendo debalde fiar o linho mesmo com lágrimas, mas nada, nada obtinha.

Um dia que estava à janela a lastimar a sua sorte passaram umas boas fadas que, compadecendo-se da infeliz, lhe disseram que ao fiar, em lugar de passar os dedos pelos lábios, os passasse por farinha de milho.

A fiandeira assim fez, e daí por diante, com grande júbilo, não só podia fiar quanto queria mas também o fio, ao contato da farinha de milho, transformava-se logo em rico fio de puro ouro.

 

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Ano de publicação: 1892
Origem: Portugal
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)

A lenda da Cana (Lendas de vegetais), de Eduardo Sequeira

 

A LENDA DA CANA

Leite de Vasconcelos, dá-nos relativamente à cana a seguinte lenda colhida em Rebordinhos, Bragança:

Havia uma vez três irmãos. O mais novo tinha três maçãzinhas de ouro, e os outros, para ver se lhas tiravam, mataram-no e enterraram-no num monte. Depois nasceu na sepultura uma cana. Certo dia passou por lá um pastor que cortou um pedaço da cana para fazer uma flauta; começou a tocar, mas a flauta, em vez de tocar, dizia:

Toca, toca, ó pastor,
Os meus irmãos me mataram
Por três maçãzinhas de ouro,
E ao cabo não as levaram.

O pastor, quando ouviu isto, chamou um carvoeiro e deu-lhe a flauta. O carvoeiro começou também a tocar, mas a gaita dizia o mesmo. O carvoeiro passou-a a outra pessoa, e assim ela foi andando de mão em mão, até que chegou ao pai e à mãe do morto; a flauta dizia ainda o mesmo. Chamaram o pastor que disse onde tinha cortado a cana. Foram lá e encontraram o cadáver com as três maçãs de ouro.

 

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Ano de publicação: 1892
Origem: Portugal
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)