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sábado, 25 de dezembro de 2021

A formiga e a neve (Conto), de Adolfo Coelho

 

A FORMIGA E A NEVE

Uma formiga prendeu o pé na neve.

Ó neve, tu és tão forte que o meu pé prendes!

Responde a neve:

Tão forte sou eu que o Sol me derrete.

Ó Sol, tu és tão forte que derretes a neve que o meu pé prende!

Responde o Sol:

Tão forte sou eu que a parede me impede.

Ó parede, tu és tão forte que impedes o Sol, que derrete a neve, que o meu pé prende!

Responde a parede:

Tão forte sou eu que o rato me fura.

Ó rato, tu és tão forte que furas a parede, que impede o Sol, que derrete a neve, que o meu pé prende!

Responde o rato:

Tão forte sou eu que o gato me come.

Ó gato, tu és tão forte que comes o rato, que fura a parede, que impede o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende!

Responde o gato:

Tão forte sou eu que o cão me morde.

Ó cão, tu és tão forte que mordes o gato, que come o rato, que fura a parede, que impede o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende!

Responde o cão:

Tão forte sou eu que o pau me bate.

Ó pau, tu és tão forte que bates no cão, que morde o gato, que come o rato, que fura a parede, que impede o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende!

Responde o pau:

Tão forte sou eu que o lume me queima.

Ó lume, tu és tão forte que queimas o pau, que bate no cão, que morde o gato, que come o rato, que fura a parede, que impede o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende!
Responde o lume:

Tão forte sou eu que a água me apaga.

Ó água, tu és tão forte que apagas o lume, que queima o pau, que bate no cão, que morde o gato, que come o rato, que fura a parede, que impede o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende!

Responde a água:

Tão forte sou eu que o boi me bebe.

Ó boi, tu és tão forte que bebes a água, que apaga o lume, que queima o pau, que bate no cão, que morde o gato, que come o rato, que fura a parede, que impede o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende!

Responde o boi:

Tão forte sou eu que o carniceiro me mata.

Ó carniceiro, tu és tão forte que matas o boi, que bebe a água, que apaga o lume, que queima o pau, que bate no cão, que morde o gato, que come o rato, que fura a parede, que impede o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende!

Responde o carniceiro:

Tão forte sou eu que a morte me leva.


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Ano de publicação: 1879.
Origem: Portugal.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)

História da Carochinha (Conto Popular), de Adolfo Coelho

 

HISTÓRIA DA CAROCHINHA

Era uma vez uma carochinha que andava a varrer a casa e achou cinco réis e foi logo ter com uma vizinha e perguntou-lhe: “Ó vizinha, que hei de eu fazer a estes cinco réis?” Respondeu-lhe a vizinha: “Compra doces.” “Nada, nada, que é lambarice.” Foi ter com outra vizinha e ela disse-lhe o mesmo; depois foi ainda ter com outra que lhe disse: “Compra fitas, flores, braceletes e brincos e vai-te pôr à janela e diz:

Quem quer casar com a carochinha
Que é bonita e perfeitinha?

Foi a carochinha comprar muitas fitas, rendas, flores, braceletes de ouro e brincos; enfeitou-se muito enfeitada e foi-se pôr à janela, dizendo:

Quem quer casar com a carochinha
Que é bonita e perfeitinha?

Passou um boi e disse:

“Quero eu.” “Como é a tua fala?” “U, u…” “Nada, nada, não me serves que me acordas os meninos de noite.” Depois tomou outra vez a dizer:

Quem quer casar com a carochinha
Que é bonita e perfeitinha?

Passou um burro e disse: “Quero eu.” “Como é a tua fala?” “Em ó… em ó…” “Nada, nada, não me serves, que me acordas os meninos de noite.” Depois passou um porco e a carochinha disse-lhe: “Deixa-me ouvir a tua fala.” “On, on, on.” “Nada, nada, não me serves, que me acordas os meninos de noite.” Passou um cão e a carochinha disse-lhe: “Deixa-me ouvir a tua fala.” “Béu, béu.” “Nada, nada, não me serves, que me acordas os meninos de noite.” Passou um gato. “Como é a tua fala?” “Miau, miau.” Nada, nada, não me serves, que me acordas os meninos de noite.” Passou um ratinho e disse: “Quero eu.” “Como é a tua fala?” “Chi, chi, chi.” “Tu sim, tu sim; quero casar contigo”, disse a carochinha. Então o ratinho casou com a carochinha e ficou-se chamando o João Ratão.

Viveram alguns dias muito felizes, mas tendo chegado o domingo, a carochinha disse ao João Ratão que ficasse ele a tomar conta da panela que estava ao lume a cozer uns feijões para o jantar. O João Ratão foi para junto do lume e para ver se os feijões já estavam cozidos meteu a mão na panela e a mão ficou-lhe lá; meteu a outra; também lá ficou; meteu-lhe um pé; sucedeu-lhe o mesmo, e assim em seguida foi caindo todo na panela e cozeu-se com os feijões. Voltou a carochinha da missa e como não visse o João Ratão, procurou-o por todos os buracos e não o encontrou e disse para consigo: “Ele virá quando quiser e deixa-me ir comer os meus feijões.” Mas ao deitar os feijões no prato encontrou o João Ratão morto e cozido com eles. Então a carochinha começou a chorar em altos gritos e uma tripeça que ela tinha em casa perguntou-lhe:

Que tens, carochinha,
Que estás aí a chorar?

Morreu o João Ratão
E por isso estou a chorar.

E eu que sou tripeça
Ponho-me a dançar.

Diz dali uma porta:

Que tens tu, tripeça,
Que estás a dançar?
Morreu o João Ratão,
A Carochinha está a chorar,
E eu que sou tripeça
Pus-me a dançar.

E eu que sou porta
Ponho-me a abrir e a fechar.

Diz dali uma trave:

Que tens tu, porta,
Que estás a abrir e a fechar?

Morreu o João Ratão,
A Carochinha está a chorar,
A tripeça está a dançar,
E eu que sou porta
Pus-me a abrir e a fechar.

E eu que sou trave
Quebro-me.

Diz dali um pinheiro:

Que tens, trave,
Que te quebraste?

Morreu o João Ratão,
Carochinha está a chorar,
A tripeça está a dançar,
A porta a abrir e a fechar,
E eu quebrei-me.

E eu que sou pinheiro
Arranco-me.

Vieram os passarinhos para descansar no pinheiro e viram-no arrancado e disseram:

Que tens, pinheiro,
Que estás no chão?

Morreu o João Ratão,
A Carochinha está a chorar,
A tripeça está a dançar,
A porta a abrir e a fechar,
A trave quebrou-se,
E eu arranquei-me.

E nós que somos passarinhos
Vamos tirar os nossos olhinhos.

Os passarinhos tiraram os olhinhos, e depois foram à fonte beber água. E diz-lhe a fonte:

Porque foi passarinhos,
Que tirastes os olhinhos?

Morreu o João Ratão,
A Carochinha está a chorar,
A tripeça a dançar,
A porta a abrir e a fechar,
A trave quebrou-se,
O pinheiro arrancou-se,
E nós, passarinhos,
Tiramos os olhinhos.

E eu que sou fonte
Seco-me. 

Vieram os meninos do rei com os seus cantarinhos para levarem água da fonte e acharam-na seca e disseram:

Que tens, fonte,
Que secaste?

Morreu o João Ratão,
A carochinha está a chorar,
A tripeça a dançar,
A porta a abrir e a fechar,
A trave quebrou-se,
O pinheiro arrancou-se,
Os passarinhos tiraram os olhinhos,
E eu sequei-me.
E nós quebramos os cantarinhos.

E foram os meninos para o palácio e a rainha perguntou-lhes:

Que tendes, meninos,
Que quebrastes os cantarinhos?

Morreu o João Ratão,
A carochinha está a chorar,
A tripeça a dançar,
A porta a abrir e a fechar,
A trave quebrou-se,
O pinheiro arrancou-se,
Os passarinhos tiraram os olhinhos,
A fonte secou-se,
E nós quebramos os cantarinhos.

Pois eu que sou rainha
Andarei em fralda pela cozinha.

E eu que sou o rei
Pelas brasas me arrastarei.


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Ano de publicação: 1879.
Origem: Portugal.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

História da Carochinha (Conto tradicional português), de Ana de Castro Osório

 

HISTÓRIA DA CAROCHINHA
 

A Carochinha achou cinco réis ao varrer a cozinha e, doida de alegria, foi a correr pôr-se à janela a gritar:

— Quem quer casar com a Carochinha, que é rica e formosinha?

Passa um cavalo e diz:

— Quero eu, quero eu!

— Como falas tu?

— Falo assim (e começou a relinchar).

— Ai, Deus me livre, que me acordas a vizinhança.

O cavalo foi-se embora, e ela continuou:

— Quem quer casar com a Carochinha, que é rica e formosinha?

Passou um burro:

— Quero eu, quero eu, quero eu!

— Como falas tu?

— Falo assim (e começou a zurrar).

— Deus me livre, acordarias a vizinhança!

O burro foi-se, de orelha murcha.

— Quem quer casar com a Carochinha, que é rica e formosinha?

— Quero eu, quero eu (disse o porco).

— Então como é a tua fala?

O porco grunhiu tão desafinadamente que a Carochinha pôs as mãos na cabeça, gritando:

— Deus me livre, acordarias toda a vizinhança!

E continuou, muito esperta, à sua janela:

— Quem quer casar com a Carochinha, que é rica e formosinha?

Passa um gato:

— Quero eu, quero eu!

— Então como falas tu?

— Falo assim: miau, miau, miau!

— Credo! Acordarias a vizinhança!

E continuava:

— Quem quer casar com a Carochinha, que é rica e formosinha? 

— Quero eu, quero eu, quero eu (disse o carneiro, que passava).

— Como é a tua fala?

— É assim: mé, méé, mééé...

— Não te quero, acordarias a vizinhança. E tornou a bradar, da janela abaixo:

— Quem quer casar com a Carochinha, que é rica e formosinha?

— Quero eu, quero eu, quero eu!... (disse um ratinho esperto, que passava pela rua).

— Então como é a tua voz?

— Chii! Chii! Chii!...

— Quero-te a ti, quero-te a ti, que não incomodas ninguém.

Casaram, fizeram uma grande boda e estavam muito satisfeitos.

Um dia, de manhã, a Carochinha tinha que ir ao mercado, e disse ao seu João Ratão:

— Fica tu em casa a tratar do almoço, que eu já venho.

O João-Ratão ficou; e, para se tornar prestável, foi deitar uma casca de cebola na panela, caindo de cabeça para baixo.

Chiou, chiou, mas, como a querida Carochinha não estava em casa, lá morreu o João Ratão, cozido e assado no caldeirão.

Ora a Carochinha demorou-se muito, a tratar das suas compras, a falar com os conhecimentos e a dar parte às amigas do seu novo estado. Quando, já tarde, chegou a casa, não viu o marido, e ficou em cuidado, procurando às vizinhas se o tinham visto.

Como lhe não davam notícias dele, foi para casa, e resolveu almoçar. Mas quando foi levantar a tampa da panela e viu o marido, já morto, a boiar no cimo do caldo, ficou varada, e, no maior desespero, desgrenhou-se e arrepelou-se, chorando em altos gritos.

A tripeça, que a ouviu, perguntou-lhe?

— Que tens tu, Carochinha, que choras tanto?

— Pois não hei de chorar?! O João-Ratão caiu na olha por uma casca de cebola.

— Pois se tu, Carochinha, te arrepelas, eu, que sou tripeça, ponho-me a dançar!

Diz-lhe de lá a janela:

— Que tens tu, tripeça, que estás a dançar?

— João-Ratão caiu na olha por uma casca de cebola. A Carochinha arrepelou-se, e eu, que sou tripeça, pus-me a dançar.

— E eu, que sou janela, ponho-me a abrir e a fechar.

Diz o telhado:

— Que tens tu, janela, que estás a abrir e a fechar?

— João-Ratão caiu na olha por uma casca de cebola. A Carochinha arrepelou-se, a tripeça pôs-se a dançar, e eu, que sou janela, pus-me a abrir e a fechar.

— E eu, que sou telhado, destelho-me. Um passarinho que vinha pousar no beirado e o viu assim perguntou:

— Que tens tu, telhado, que te destelhaste?

— João-Ratão caiu na olha por uma casca de cebola. A Carochinha arrepelou-se, a tripeça pôs-se a dançar, a janela a abrir e a fechar, e eu, que sou telhado, destelhei-me.

— E eu, que sou passarinho, depeno-me.

Foi dali pousar numa árvore, e esta, que o viu naquele estado, perguntou-lhe:

— Que tens tu, passarinho, que de depenaste?

— João-Ratão caiu na olha por uma casca de cebola. A Carochinha arrepelou-se, a tripeça pôs-se a dançar, a janela a abrir e a fechar, o telhado destelhou-se, e eu, que sou passarinho, depenei-me.

— E eu, que sou árvore, desfolho-me. Vinha um boi, muito cansado, procurar

a sombra da árvore e, vendo-a sem folhas, perguntou:

— Que tens tu, árvore, que te desfolhaste?

— João-Ratão caiu na olha por uma casca de cebola. A Carochinha arrepelou-se, a tripeça pôs-se a dançar, a janela a abrir e a fechar, o telhado destelhou-se, o passarinho depenou-se, e eu, que sou árvore, desfolhei-me.

— E eu, que sou boi, quebro a minha armação!

Foi dali beber água a uma fonte, que lhe perguntou:

— Que tens tu, boi, que estás assim esmurrado?

— João-Ratão caiu na olha por uma casca de cebola. A Carochinha arrepelou-se, a tripeça pôs-se a dançar, a janela a abrir e a fechar, o telhado destelhou-se, o passarinho depenou-se, a árvore desfolhou-se, e eu, que sou boi, quebrei a armação.

— E eu, que sou fonte, seco-me.

Foi a criada da Rainha à fonte, e, vendo-a seca, perguntou o que lhe acontecera:

— João-Ratão caiu na olha por uma casca de cebola. A Carochinha arrepelou-se, a tripeça pôs-se a dançar, a janela a abrir e a fechar, o telhado destelhou-se, o passarinho depenou-se, a árvore desfolhou-se, o boi esmurrou-se, e eu, que sou fonte, sequei-me!

— E eu, que sou criada da Senhora Rainha, quebro a minha cantarinha.

Foi para casa e perguntou-lhe a Senhora o que acontecera:

— João-Ratão caiu na olha por uma casca de cebola. A Carochinha arrepelou-se, a tripeça pôs-se a dançar, a janela a abrir e a fechar, o telhado destelhou-se, o passarinho depenou-se, a árvore desfolhou-se, o boi esmurrou-se, a fonte secou-se, e eu, que sou criada da Senhora Rainha, quebrei a minha cantarinha.

— E eu, que sou Rainha, assento-me nas brasinhas.

Vem o Rei perguntou-lhe porque estava ali.

— João-Ratão caiu na olha por uma casca de cebola. A Carochinha arrepelou-se, a tripeça pôs-se a dançar, a janela a abrir e a fechar, o telhado destelhou-se, o passarinho depenou-se, a árvore desfolhou-se, o boi esmurrou-se, a fonte secou-se, a criada da Senhora Rainha quebrou a cantarinha e eu, que sou Rainha, assentei-me nas brasinhas.

— E eu, que sou Rei, as minhas barbas cortarei.

 

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Origem: Portugal.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)