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sábado, 25 de dezembro de 2021

O macaco do rabo cortado (Conto Popular), de Adolfo Coelho

 

O MACACO DO RABO CORTADO

Era uma vez um macaco que queria ir para a escola, mas muitos meninos faziam troça dele porque tinha um rabo comprido. Então ele resolveu ir ao barbeiro e pedir para lhe cortarem o rabo. O barbeiro perguntou se tinha a certeza, e como o macaco respondeu que sim, o barbeiro, trás! Cortou-lhe o rabo com uma navalha.

No outro dia, quando o macaco chegou à escola, os meninos riram-se por ele ter o rabo cortado, e chamaram-lhe “o macaco do rabo cortado”. Então, resolveu ir ao barbeiro buscar o seu rabo, mas o barbeiro disse-lhe que já não tinha o rabo, que tinha ido para o lixo. Então o macaco ficou furioso, pegou na navalha do barbeiro e fugiu com ela.

Na rua encontrou uma varina que o viu com a navalha na mão e lhe disse: “Ó macaquinho, para que queres tu essa navalha? Não te serve para nada! A mim é que fazia falta para eu amanhar o meu peixe.” O macaco deu-lhe razão e entregou-lhe a navalha. Mas mais tarde, começou a sentir fome e para descascar uma maçã, precisou da navalha. Foi ter com a varina e pediu a navalha, mas a navalha estava partida. Então ficou furioso e levou a canastra das sardinhas da varina.

Quando ia na rua com a canastra de sardinhas, encontrou o padeiro, que lhe disse: “Olha, coitado, vais tão carregado com as sardinhas, se quiseres eu guardo essa canastra na minha casa.” E assim foi. Agora o macaco sentia-se mais à vontade e podia ir de um lado para o outro, sem ter de transportar as sardinhas. Mas um tempo depois, começou a ter fome. O peixe dava-lhe jeito para comer e por isso resolveu ir buscá-lo a casa do padeiro. Mas o padeiro, com a família, tinha comido as sardinhas. Então furioso, tirou um saco de farinha ao padeiro.

Quando ia pelo caminho com o saco de farinha, encontrou a senhora professora que lhe pediu a farinha para fazer uns bolinhos. Como o macaco não sabia fazer bolinhos com a farinha, deu a farinha à senhora professora. Mais tarde, quando voltou a ter fome, resolveu ir ter com a senhora professora e pedir-lhe alguns bolinhos. Mas os bolinhos já tinham sido todos comidos. Ninguém tinha guardado uns bolinhos para oferecer ao macaco. Então ficou furioso e roubou uma menina da senhora professora.

Só que, para espanto do macaco, a menina começou a chorar. Teve pena da menina e foi levá-la à mãe. Para que é que quereria uma menina? Mas mais tarde, quando chegou a casa e viu tudo desarrumado, pensou que a menina poderia trabalhar para ele e ajudá-lo a limpar e a arrumar a casa e por isso resolveu ir buscá-la. Quando foi buscar a menina, a mãe não lha deu, claro, e então, furioso, levou–lhe a camisa do marido que estava pendurada na corda da roupa.

No caminho, encontrou o músico com uma viola que lhe pediu a camisa. Como a camisa do músico já estava muito velhinha o macaco deu-lhe a camisa. Mas o músico quando foi para casa vestir a camisa, ela rompeu-se, e teve de a deitar fora. Quando chegou a noite e o macaco sentiu frio, quis a camisa de volta, mas o músico já não a tinha porque a camisa tinha-se rompido. Então, tirou a viola ao músico e fugiu.

O macaco subiu então para cima do telhado e cantou:

Do rabo fiz navalha,
da navalha fiz sardinha,
da sardinha fiz farinha,
da farinha fiz menina,
da menina fiz camisa,
da camisa fiz viola,
tlim, tlim, tlim
e eu vou para Angola
tlim, tlim, tlim
e eu vou para Angola.


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Ano de publicação: 1879.
Origem: Portugal.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)

A formiga e a neve (Conto), de Adolfo Coelho

 

A FORMIGA E A NEVE

Uma formiga prendeu o pé na neve.

Ó neve, tu és tão forte que o meu pé prendes!

Responde a neve:

Tão forte sou eu que o Sol me derrete.

Ó Sol, tu és tão forte que derretes a neve que o meu pé prende!

Responde o Sol:

Tão forte sou eu que a parede me impede.

Ó parede, tu és tão forte que impedes o Sol, que derrete a neve, que o meu pé prende!

Responde a parede:

Tão forte sou eu que o rato me fura.

Ó rato, tu és tão forte que furas a parede, que impede o Sol, que derrete a neve, que o meu pé prende!

Responde o rato:

Tão forte sou eu que o gato me come.

Ó gato, tu és tão forte que comes o rato, que fura a parede, que impede o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende!

Responde o gato:

Tão forte sou eu que o cão me morde.

Ó cão, tu és tão forte que mordes o gato, que come o rato, que fura a parede, que impede o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende!

Responde o cão:

Tão forte sou eu que o pau me bate.

Ó pau, tu és tão forte que bates no cão, que morde o gato, que come o rato, que fura a parede, que impede o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende!

Responde o pau:

Tão forte sou eu que o lume me queima.

Ó lume, tu és tão forte que queimas o pau, que bate no cão, que morde o gato, que come o rato, que fura a parede, que impede o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende!
Responde o lume:

Tão forte sou eu que a água me apaga.

Ó água, tu és tão forte que apagas o lume, que queima o pau, que bate no cão, que morde o gato, que come o rato, que fura a parede, que impede o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende!

Responde a água:

Tão forte sou eu que o boi me bebe.

Ó boi, tu és tão forte que bebes a água, que apaga o lume, que queima o pau, que bate no cão, que morde o gato, que come o rato, que fura a parede, que impede o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende!

Responde o boi:

Tão forte sou eu que o carniceiro me mata.

Ó carniceiro, tu és tão forte que matas o boi, que bebe a água, que apaga o lume, que queima o pau, que bate no cão, que morde o gato, que come o rato, que fura a parede, que impede o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende!

Responde o carniceiro:

Tão forte sou eu que a morte me leva.


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Ano de publicação: 1879.
Origem: Portugal.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)

História da Carochinha (Conto Popular), de Adolfo Coelho

 

HISTÓRIA DA CAROCHINHA

Era uma vez uma carochinha que andava a varrer a casa e achou cinco réis e foi logo ter com uma vizinha e perguntou-lhe: “Ó vizinha, que hei de eu fazer a estes cinco réis?” Respondeu-lhe a vizinha: “Compra doces.” “Nada, nada, que é lambarice.” Foi ter com outra vizinha e ela disse-lhe o mesmo; depois foi ainda ter com outra que lhe disse: “Compra fitas, flores, braceletes e brincos e vai-te pôr à janela e diz:

Quem quer casar com a carochinha
Que é bonita e perfeitinha?

Foi a carochinha comprar muitas fitas, rendas, flores, braceletes de ouro e brincos; enfeitou-se muito enfeitada e foi-se pôr à janela, dizendo:

Quem quer casar com a carochinha
Que é bonita e perfeitinha?

Passou um boi e disse:

“Quero eu.” “Como é a tua fala?” “U, u…” “Nada, nada, não me serves que me acordas os meninos de noite.” Depois tomou outra vez a dizer:

Quem quer casar com a carochinha
Que é bonita e perfeitinha?

Passou um burro e disse: “Quero eu.” “Como é a tua fala?” “Em ó… em ó…” “Nada, nada, não me serves, que me acordas os meninos de noite.” Depois passou um porco e a carochinha disse-lhe: “Deixa-me ouvir a tua fala.” “On, on, on.” “Nada, nada, não me serves, que me acordas os meninos de noite.” Passou um cão e a carochinha disse-lhe: “Deixa-me ouvir a tua fala.” “Béu, béu.” “Nada, nada, não me serves, que me acordas os meninos de noite.” Passou um gato. “Como é a tua fala?” “Miau, miau.” Nada, nada, não me serves, que me acordas os meninos de noite.” Passou um ratinho e disse: “Quero eu.” “Como é a tua fala?” “Chi, chi, chi.” “Tu sim, tu sim; quero casar contigo”, disse a carochinha. Então o ratinho casou com a carochinha e ficou-se chamando o João Ratão.

Viveram alguns dias muito felizes, mas tendo chegado o domingo, a carochinha disse ao João Ratão que ficasse ele a tomar conta da panela que estava ao lume a cozer uns feijões para o jantar. O João Ratão foi para junto do lume e para ver se os feijões já estavam cozidos meteu a mão na panela e a mão ficou-lhe lá; meteu a outra; também lá ficou; meteu-lhe um pé; sucedeu-lhe o mesmo, e assim em seguida foi caindo todo na panela e cozeu-se com os feijões. Voltou a carochinha da missa e como não visse o João Ratão, procurou-o por todos os buracos e não o encontrou e disse para consigo: “Ele virá quando quiser e deixa-me ir comer os meus feijões.” Mas ao deitar os feijões no prato encontrou o João Ratão morto e cozido com eles. Então a carochinha começou a chorar em altos gritos e uma tripeça que ela tinha em casa perguntou-lhe:

Que tens, carochinha,
Que estás aí a chorar?

Morreu o João Ratão
E por isso estou a chorar.

E eu que sou tripeça
Ponho-me a dançar.

Diz dali uma porta:

Que tens tu, tripeça,
Que estás a dançar?
Morreu o João Ratão,
A Carochinha está a chorar,
E eu que sou tripeça
Pus-me a dançar.

E eu que sou porta
Ponho-me a abrir e a fechar.

Diz dali uma trave:

Que tens tu, porta,
Que estás a abrir e a fechar?

Morreu o João Ratão,
A Carochinha está a chorar,
A tripeça está a dançar,
E eu que sou porta
Pus-me a abrir e a fechar.

E eu que sou trave
Quebro-me.

Diz dali um pinheiro:

Que tens, trave,
Que te quebraste?

Morreu o João Ratão,
Carochinha está a chorar,
A tripeça está a dançar,
A porta a abrir e a fechar,
E eu quebrei-me.

E eu que sou pinheiro
Arranco-me.

Vieram os passarinhos para descansar no pinheiro e viram-no arrancado e disseram:

Que tens, pinheiro,
Que estás no chão?

Morreu o João Ratão,
A Carochinha está a chorar,
A tripeça está a dançar,
A porta a abrir e a fechar,
A trave quebrou-se,
E eu arranquei-me.

E nós que somos passarinhos
Vamos tirar os nossos olhinhos.

Os passarinhos tiraram os olhinhos, e depois foram à fonte beber água. E diz-lhe a fonte:

Porque foi passarinhos,
Que tirastes os olhinhos?

Morreu o João Ratão,
A Carochinha está a chorar,
A tripeça a dançar,
A porta a abrir e a fechar,
A trave quebrou-se,
O pinheiro arrancou-se,
E nós, passarinhos,
Tiramos os olhinhos.

E eu que sou fonte
Seco-me. 

Vieram os meninos do rei com os seus cantarinhos para levarem água da fonte e acharam-na seca e disseram:

Que tens, fonte,
Que secaste?

Morreu o João Ratão,
A carochinha está a chorar,
A tripeça a dançar,
A porta a abrir e a fechar,
A trave quebrou-se,
O pinheiro arrancou-se,
Os passarinhos tiraram os olhinhos,
E eu sequei-me.
E nós quebramos os cantarinhos.

E foram os meninos para o palácio e a rainha perguntou-lhes:

Que tendes, meninos,
Que quebrastes os cantarinhos?

Morreu o João Ratão,
A carochinha está a chorar,
A tripeça a dançar,
A porta a abrir e a fechar,
A trave quebrou-se,
O pinheiro arrancou-se,
Os passarinhos tiraram os olhinhos,
A fonte secou-se,
E nós quebramos os cantarinhos.

Pois eu que sou rainha
Andarei em fralda pela cozinha.

E eu que sou o rei
Pelas brasas me arrastarei.


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Ano de publicação: 1879.
Origem: Portugal.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)

O Príncipe Sapo (Conto Popular), de Adolfo Coelho

 

O PRÍNCIPE SAPO

Era uma vez um rei que não tinha filhos e tinha muita paixão por isso, e a mulher disse que Deus lhe desse um filho mesmo que fosse um sapo.

Houve de ter um filhinho como um sapo; depois botaram as folhas a ver se havia quem o queria criar, mas ninguém se animava a vir. O rei, vendo que o sapito do filho não havia quem o queria criar, anunciou que, se houvesse alguma mulher que o quisesse criar, lho dava em casamento e lhe dava o reino. Nisto aí apareceu uma rapariga e disse:

— Se Vossa Real Majestade me dá o filho, eu animo-me a vi-lo criar.

O rei disse que sim e a rapariga veio criar o sapito. Depois passou algum tempo e ele foi crescendo e ela lavava-o e esmerava-o como se ele fosse uma criança. Foi indo e ele tinha uns olhos muito bonitos e falava, e a rapariga dizia:

— Os olhos dele e a fala não são de sapo.

Já estava grande, passaram-se anos e ela, uma noite, teve um sonho em que lhe diziam ao ouvido que o sapo era gente, mas pela grande heresia que a mãe disse que estava formado em sapo, que se o rei lho desse para ela casar com ele que casasse e quando fosse na primeira noite que se fosse deitar, que ele tinha sete peles e ela levasse sete saias e quando ele dissesse: “Tira uma saia”, lhe dissesse ela: “Tira uma pele.”

Assim foi e casou o sapo com a rapariga e na noite do casamento ele pediu-lhe que tirasse ela as saias e ela foi-lhe pedindo que tirasse as peles e depois de ele as tirar ficou um homem.
Ao outro dia ele tornou a vestir as peles e ficou outra vez sapo. E ela disse-lhe:

— Tu para que vestes as peles? Assim és tão bonito e vais ficar sapo.

— Assim me é preciso, cala-te.

Ela, assim que se pôs a pé, foi contar tudo à rainha, e o rei mais a rainha disseram-lhe:

— Quando hoje te deitares, diz-lhe o mesmo e depois de ele tirar as peles e estar a dormir, deixa a porta do quarto aberta que nós queremos ir vê-lo.

Foram-no ver e viram que ele era homem. Ao outro dia o príncipe tornou a vestir as peles e vai o pai disse-lhe:

— Tu, porque vestes as peles e queres ser feio?

— Eu quero ser sapo, porque o meu pai tem mão interior e, se eu fico bonito, impõem a minha mulher.

O rei disse-lhe:

— Eu não a impunha, mas queria que tu ficasses bonito.

Depois, como viram que ele não queria deixar de ser sapo, pediram a ela que, assim que ele adormecesse, lhes trouxesse as peles para eles as queimarem. Ela assim fez e eles botaram as peles ao fogo aceso. De manhã vai ele para vestir as peles e não as acha.

— Que é das peles?

— Vieram aqui o teu pai e a tua mãe e levaram-nas.

— Mal hajas tu se lhas destes, mais quem te deu o conselho. Adeus. Se alguma vez me tornares a ver, dá-me um beijo na boca.

A mulherzinha ficou mas o rei e a mulher, assim que viram que o filho faltou, puseram-na fora da porta. Ela, coitada, não tinha com que se tratar; o que era do rei lá ficou e ela estava muito pobrezinha. A todas as pessoas que via perguntava se tinham visto um homem assim e assim e lá lhe dava as notícias do príncipe. Vieram por onde ela estava uns cegos e ela fez-lhes a pergunta. Os moços dos cegos disseram-lhe:

— Nós vimos no rio Jordão um homem e certamente era ele; estava botando fatias de pão para trás das costas e dizendo: “Pela alma de meu pai, pela alma de minha mãe, pela alma de minha mulher.”

Ela disse-lhes:

— Vocês quando tornam para essa banda?

— Nós para o fim do outro mês voltamos para lá; havemos de passar por esse rio.

A mulherzinha aprontou-se e foi com eles. Chegou lá e era o príncipe.

Ela chegou ao pé dele e deu-lhe o beijo na boca como ele tinha dito e disse-lhe:

— Ora vamos embora, que se acabou o nosso fado.

E foram para casa e foram muito felizes e tiveram muitos filhos.


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Ano de publicação: 1879.
Origem: Portugal.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)

O coelhinho branco (Conto Popular), de Adolfo Coelho

 

O COELHINHO BRANCO

Era uma vez
Um coelhinho
Que foi à sua horta
Buscar couves
Pra fazer um caldinho.

Quando o coelhinho branco voltou para casa depois de vir da horta, chegou à porta e achou-a fechada por dentro; bateu e perguntaram-lhe de dentro: — “Quem é?”
O coelhinho respondeu:

Sou eu, o coelhinho,
Que venho da horta
E vou fazer um caldinho.

Responderam-lhe de dentro:

E eu sou a cabra cabrês
Que te salto em cima
E te faço em três.

Foi-se o coelhinho por aí fora muito triste e encontrou um boi e disse-lhe:

Eu sou o coelhinho
Que tinha ido à horta
E ia para casa
Fazer o caldinho;
Mas quando lá cheguei
Encontrei a cabra cabrês
Que me salta em cima
E me faz em três.

Responde o boi: “Eu não vou lá que tenho medo.” Foi o coelhinho andando e encontrou um cão e disse-lhe:

Eu sou o coelhinho, etc.

Responde o cão: “Eu não vou lá que tenho medo.” Foi mais adiante o coelhinho e encontrou um galo, a quem disse também:

Eu sou o coelhinho, etc.

Responde o galo:

“Eu não vou lá que tenho medo.”

Foi-se o coelhinho muito mais triste, já sem esperanças de poder voltar para casa, quando encontrou uma formiga que lhe perguntou: “Que tens tu, coelhinho?”

Eu vinha da horta, etc.

Responde a formiga: “Eu vou lá e veremos como isso há de ser.” Foram ambos e bateram à porta; diz-lhe a cabra cabrês lá de dentro:

Aqui ninguém entra
Está cá a cabra cabrês
Que lhes salta em cima
E os faz em três.

Responde a formiga:

Eu sou a formiga rabiga,
Que te tiro as tripas
E furo a barriga.

Dito isto, a formiga entrou pelo buraco da fechadura, matou a cabra cabrês, abriu a porta ao coelhinho, foram fazer o caldinho e ficaram vivendo juntos, o coelhinho branco e a formiga rabiga.


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Ano de publicação: 1879.
Origem: Portugal.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)

O príncipe com orelhas de burro (Conto), de Adolfo Coelho

 

O PRÍNCIPE COM ORELHAS DE BURRO

Era uma vez um rei que vivia muito triste por não ter filhos e mandou chamar três fadas para que fizessem com que a rainha lhe desse um filho. As fadas prometeram-lhe que os seus desejos seriam satisfeitos e que elas viriam assistir ao nascimento do príncipe. Ao fim de nove meses deu a rainha à luz um filho e as três fadas fadaram o menino. A primeira fada disse: "Eu te fado para que sejas o príncipe mais formoso do mundo.” A segunda fada disse: “Eu te fado para que sejas muito virtuoso e entendido.” A terceira fada disse: “Eu te fado para que te nasçam umas orelhas de burro.”

Foram-se as três fadas e logo apareceram ao príncipe as orelhas de burro. O rei mandou sem demora fazer um barrete que o príncipe devia usar para lhe cobrir as orelhas. Crescia o príncipe em formosura e ninguém na corte sabia que ele tinha as tais orelhas de burro. Chegou a idade em que ele tinha de fazer a barba, e então o rei mandou chamar o seu barbeiro e disse-lhe: “Farás a barba ao príncipe, mas se disseres a alguém que ele tem orelhas de burro, morrerás.”

Andava o barbeiro com grandes desejos de contar o que vira, mas com receio de que o rei o mandasse matar, calava consigo. Um dia foi-se confessar e disse ao padre: “Eu tenho um segredo que me mandaram guardar, mas eu se não o digo a alguém morro, e se o digo o rei manda-me matar; diga, padre, o que hei de fazer.” Responde-lhe o padre que fosse a um vale, que fizesse uma cova na terra e que dissesse o segredo tantas vezes até ficar aliviado desse peso e que depois tapasse a cova com terra. O barbeiro assim fez; e, depois de ter tapado a cova, voltou para casa muito cansado.

Passados algum tempo, nasceu um canavial onde o barbeiro tinha feito a cova. Os pastores, quando ali passavam com os seus rebanhos, cortavam canas para fazer gaitas, mas quando tocavam nelas umas vozes que diziam: “Príncipe com orelhas de burro.”

Começou a espalhar-se esta notícia pela cidade e o rei mandou vir à sua presença um dos pastores para que tocasse na gaita; e saíam sempre as mesmas vozes que diziam: “Príncipe com orelhas de burro.” O próprio rei também tocou e sempre ouvia as vozes. Então o rei mandou chamar as fadas e pediu-lhes que tirassem as orelhas de burro ao príncipe.

Então elas mandaram reunir a corte toda e ordenaram ao príncipe que tirasse o barrete; mas qual não foi o contentamento do rei, da rainha e do príncipe ao ver que já lá não estavam as tais orelhas de burro! Desde esse dia as gaitas que os pastores faziam das canas do tal canavial deixaram de dizer: “Príncipe com orelhas de burro.”


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Ano de publicação: 1879.
Origem: Portugal.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)

História do compadre rico e do compadre pobre (Conto), de Adolfo Coelho

 

HISTÓRIA DO COMPADRE RICO E DO COMPADRE POBRE

Moravam numa aldeia dois compadres. Um era pobre e o outro rico, mas muito miserável. Naquela terra era uso todos quantos matavam porco dar um lombo ao abade. O compadre rico, que queria matar porco sem ter de dar o lombo, lamentou-se ao pobre, dizendo mal de tal uso. Este deu-lhe de conselho que matasse o porco e o dependurasse no quintal, recolhendo-o de madrugada, para depois dizer que lho tinham roubado.

Ficou muito contente com aquela ideia e seguiu à risca o que o compadre pobre lhe tinha dito. Depois deitou-se com tenção de ir de madrugada ao quintal buscar o porco. Mas o compadre pobre, que era espertalhão, foi lá de noite e roubou-lho. No dia seguinte, quando o rico deu pela falta do porco, correu a casa do compadre pobre e muito aflito contou-lhe o acontecido.

Este, fazendo-se desentendido, dizia-lhe:

— Assim, compadre! Bravo! Muito bem, muito bem! Assim é que há de dizer para se esquivar de dar o lombo ao abade!”

O rico cada vez teimava mais ser certo terem-lhe roubado o porco; e o pobre cada vez se ria mais, até que aquele saiu desesperado, porque o não entendiam.

O que roubou o porco ficou muito contente e disse à mulher: “Olha, mulher, desta maneira também havemos de arranjar vinho. Tu hás de ir a correr e a chorar para casa do compadre, fingindo que eu te quero bater; levas um odre debaixo do fato, e quando sentires a minha voz, foges para a adega do compadre e enquanto eu estou falando com ele, enches o odre de vinho e foges pela outra porta para casa.” A mulher, fingindo-se muito aflita, correu para casa do compadre, pedindo que lhe acudisse, porque o marido a queria matar. Nisto ouviu a voz do marido e correu para a adega do compadre, e enquanto este diligenciava apaziguar-lhe a ira, enchia ela o odre. Tinha-lhe esquecido, porém, um cordão para o atar, mas tendo uma ideia gritou para o marido:

— Ah! Goela de odre sem nagalho!

O marido, que entendeu, respondeu-lhe:

— Ah, grande atrevida!... Que se lá vou abaixo, com a fita do cabelo te hei de afogar!

Ela, apenas isto ouviu, desatou logo o cabelo, atou com a fita a boca do odre e fugiu com ela para casa. Desta maneira tiveram porco e vinho sem lhes custar nada, e enganaram o avarento do compadre.

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Ano de publicação: 1879.
Origem: Portugal.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)

Bela Menina (Conto Popular), de Adolfo Coelho

 

BELA MENINA

Era uma vez um homem; vivia numa cidade e trazia navegações no mar, e depois foi ele e deu em decadência por se lhe perderem as navegações. Ele teve o seu pesar e não podia viver com aquela decência com que vivia no povoado e tinha umas terrinhas na aldeia e disse para a mulher e para as filhas:

— Não temos remédio senão irmos para as nossas terrinhas; se vivemos com menos decência que até aqui, somos pregoados dos nossos inimigos.

A mulher e uma filha aceitaram, mas as outras duas filhas começaram a chorar muito. E depois foram. A que tinha ido de sua vontade era a mais nova e chamava-se Bela-Menina; cantava muito e era a que cozinhava e ia buscar erva para o gado, de pés descalços; as outras metiam-se no quarto e não faziam senão chorar. Quando o pai ia para alguma parte, as mais velhas sempre pediam que lhes trouxesse alguma coisa e a mais nova não lhe pedia nada. Vai nisto, veio-lhe uma carta de um amigo dizendo que as navegações que vinham aí, que tiveram notícia e que fosse vê-las.

O homem caminhou mais um criado saber das tais navegações; quando saiu, disseram as suas filhas mais velhas que, se as navegações fossem as dele, lhes levasse algumas coisas que lhe declararam. E ele disse à mais nova:

— Ora todas me pedem que lhes traga alguma coisa. Só tu não me pedes nada?

— Vou pedir-lhe também uma coisa; onde o meu pai vir o mais belo jardim, traga-me a mais bela flor que lá houver.

O pai foi e chegou a uma cidade e reconheceu que as navegações não eram dele e foi-se embora com a bolsa vazia. Chegou a um monte e anoiteceu-lhe; ele viu uma luz e dirigiu-se para ela a ver se encontrava quem o acolhesse. Chegou lá e viu uma casa grande e estropeou à porta; não lhe falaram; tornou a estropear; não lhe falaram. E disse ao moço:

— Vai aí pelo portal de baixo ver se vês alguém.

— Veio lá muitas luzes dentro e cavalos a comer e penso para lhe botar; mas não veio ninguém. Então o homem mandou meter o cavalo na cavalariça e entraram na cozinha. Acharam lá que comer e, como a fome não era pequena, foram comendo muito. E nisto aí vem por essa casa adiante uma coisa fazendo um grande ruído, assim como umas cadeias que vinham a rastos pela casa adiante e depois chegou ao pé deles um bicho de rastos e disse-lhes:

— Boas-noites.

Eles puseram-se a pé com medo e disseram-lhe:

— Nós viemos aqui por não acharmos abrigo nem que comer noutra parte; mas não vimos fazer mal a ninguém.

— Deixai-vos estar e comei.

Demorou-se um pouco o bicho e disse-lhes:

— Ora ide-vos deitar que eu também vou para o meu curral.

E começou-se a arrastar pela cozinha e foi. Ao outro dia o homem foi ao jardim, que era o mais belo que tinha visto, e disse:

— Já que não posso levar nada para as minhas filhas mais velhas, quero ao menos levar a flor para a Bela-Menina...

Estava a cortar a flor e nisto o bicho salta-lhe:

— Ah, ladrão! Depois de eu te acolher em minha casa, tu vens-me colher o meu sustento, que eu não me sustento senão em rosas.

E ele disse:

— Eu fiz mal, fiz; mas eu tenho lá uma filha que me pediu que lhe levasse a mais bela flor que eu visse na viagem, e não podendo levar nada às outras filhas, queria ao menos levar a flor; mas se a quereis ela aí fica.

— Não, levai-a e se me trouxerdes cá essa filha, ficais ricos.

O homem caminhou e chegou a casa muito apaixonado por não trazer nada às outras filhas e não achar as navegações e pegou na flor e deu-a à Bela-Menina.

A filha, assim que viu a flor, disse:

— Oh, que bela flor! Onde a achou, meu pai? O pai contou-lhe o que vira e a filha disse:

— Ó meu pai, eu quero ir ver.

— Olha que o bicho fala e disse também que te queria ver.

— Pois vamos.

— Ó pai, eu quero cá ficar com este bicho, que ele é muito bonito.

O pai teve a sua pena, mas deixou-a. Passado algum tempo, ela disse:

— Ó meu bichinho, tu não me deixas ir ver os meus pais?


— Não, tu não vais lá por ora; teu pai vem cá. O pai veio e disse ao bicho:

— Eu queria levar a rapariga.

— Não me leves daqui a rapariga, senão eu morro e tu vai ali àquela porta e abre-a e leva dali a riqueza que tu quiseres e casa as tuas filhas.

O homem que mais quis?

Um dia o bicho disse à Bela-Menina:

— A tua irmã mais velha lá vem de se receber; tu queres vê-la?

— Quero.

— Vai ali e abre aquela porta.

— Agora deixa-me ir ver o meu cunhado.

— Eu deixava, deixava; mas tu não tornas.

— Torno; dá-me só três dias que eu em um dia e meio chego lá e torno cá noutro dia e meio.

— Se não vieres nestes três dias, quando voltares achas-me morto.

Ela foi; no fim dos três dias ela veio, mas tardou mais um pouquito que os três dias; ela foi ao jardim e viu-o deitado como morto.

Chegou ao pé dele, “Ai meu bichinho!” E começou a chorar. Ele caiu e ela disse:

— Coitadinho, está morto; vou dar-lhe um beijinho. E deu-lhe um beijo, mas o bicho fez-se um belo rapaz.

Era um príncipe encantado que ali estava e que casou com ela.

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Ano de publicação: 1879.
Origem: Portugal.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)