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segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

São José (Lenda Cristã), de Thomaz Lopes



SÃO JOSÉ
(Lenda Cristã) 

O velho cura morava na aldeia, e só muito raramente, com mais sacrifício do que esforço, arrastava a sua velhice pachorrenta e a sua discreta virtude até o burburinho da grande cidade tão cheia de fortuna e de miséria, eternamente escabujando no volutabro do vício. Chamava-se Bernardim, e era um homem de altura meã, quase gordo, com um ar sadio de campo, olhos pequeninos e claros, cabelos brancos e faces ainda de punícea cor, onde começava a sulcar o vale das rugas.

A sua casa no campo era o certo abrigo dos pobres, porque nunca lamento ou suplica, sono, tristeza ou fome tinham ficado esquecidos à soleira como cães sem dono e sem destino. A amigo ou estranho, era sempre de bom rosto que o velho dava pouso. Era uma singela casa no meio de um tosco jardim onde chorava a murmura e sonora queixa de um regato; e esse regato era de certo a única lamentação que repetidamente passava à sua porta. Na primavera as flores perfumavam toda a casa; brancas santas e alvos santos de gesso e de mármore surgiam do oratório durante os três meses da suave estação, como flores nascendo de flores; no inverno, quando o céu era gris e os caminhos eram brancos, à boca do seu calorífero vinham os pobres aquecer-se do rude frio.

O doce Bernardim, homem simples e bom, sem a enredada sabedoria dos magnos sacerdotes, sem largos voos de imaginação, pouco se aprofundara em dogmas e conceitos; cumpria fielmente as leis de Jesus com a mesma facilidade inocente com que um fruto sai de uma flor. Assim, não maldizia porque de ninguém se queixava; era esmoler porque se condoía de quem era pobre e tinha fome; não mentia por ignorar que outra coisa além dos beijos e da verdade pudesse pousar em humana boca, — nem mesmo as abelhas que esvoaçavam em torno dos lábios de Platão; não praguejava porque de nada serve a blasfêmia; não odiava porque todos o amavam; era casto porque tinha bons pensamentos. Lera pouco durante a longa existência; sabia que no princípio Deus criou o céu e a terra, depois separou a luz e a treva... Não conhecia histórias de raças e de conquistas, nem crônicas de guerras religiosas, nem falsidades e manhas de inimigos. A Inquisição com todos os suplícios e todas as vítimas era uma espécie de lenda para amedrontar os ateus, assim como o papão era uma fantasia para intimidar as crianças; o Papa era um padre muito santo e muito sábio que morava em Roma; Roma era uma cidade vizinha de sua França. Com o latim do Seminário dizia missa, fazia citações ao amigo farmacêutico, pregava às vezes no púlpito e ensinava declinações e conjugações: ancila, ancilae; fero, fers, tuli, latum, ferre...

Gostava de passar bem porque dizia que não era santo; e quando sentado à mesa, com a porta aberta para quem tivesse fome e quisesse entrar, tendo dado esmola e distribuído pães (mais pão do que conselhos), orava e acalmava o estômago com o pão que é o corpo, com o vinho que é o sangue de Jesus, muitas vezes pensava: — Coitadinho de São João que comia gafanhotos!...

Era tranquilo e meigo; qualquer sofrimento lhe causava pena, para toda estúrdia encontrava uma desculpa, e para os crimes tinha sempre um perdão.

Certa vez, numa tormentosa noite de inverno, quando lá fora caía o gelo e rugia a fúria do sudoeste digladiando as árvores nuas, ele deitado, acomodado começava a dormir; de repente escancarou-se a porta e entrou pelo seu quarto um homem todo coberto de Sangue e de medo.

— Meu Padre!

— Que é, filho?

E o assassino tremendo como se já estivesse diante da máquina sinistra e fatal da guilhotina:

— Matei meu irmão!

O Padre Bernardim olhou-o, mal compreendendo as suas palavras loucas.

— Teu irmão?

— Sim, meu irmão!

Com uma infinita calma e uma suave ternura, o velho sacerdote acrescentou:

 — Que horrível crime, meu filho! Deus te perdoe!

Persignou-se, — e como tinha sono continuou a dormir.

Toda a aldeia o estimava; havia moças que batizara e casara; quando saía, já se apoiando a um trêmulo bordão, as mulheres vinham dos casais à porta, à espera de sua benção, e ele passava sem se apressar e sem se admirar, como se estivesse em casa ou como se a aldeia fosse a continuação de sua casa. E quantas vezes, quando havia lua no céu, as crianças se reuniam à sua porta, e o Padre, ingênuo e bom começava com sua voz repousada e tranquila:

— Era uma vez uma camponesa que se chamava Joana...

***

Foi nos primeiros dias de fevereiro que uma vez, por uma tarde fria, quase à hora da noite, um homem pobremente vestido de calça e blusa, com uma espécie de gorro de operário, entrou em casa do Padre Bernardim. A classe terminara. Bernardim estava só no seu quarto, quando duas pancadas discretas ressoaram à porta. Tão habituado estava o Padre a todas as visitas, que nem de leve se admirou, e calmamente disse:

— Entre!

O homem tão modestamente vestido de marceneiro penetrou rio seu quarto.

— Meu Padre, eu sei que vai amanhã à cidade, e lhe venho pedir um favor.

Tanta doçura havia nas palavras do desconhecido, tanta certeza, tão amável e boa era a sua fisionomia, que o velho sacerdote teve a esquisita vontade de lhe beijar as mãos.

— Mas como soube que eu vou amanhã à cidade?

O carpinteiro tirou o gorro passou a mão pelos cabelos e pela barba castanha, e falou com uma voz persuasiva:

— Não lhe posso dizer ao certo como tive notícia de sua visita amanhã a Paris; mas o que é verdade é que há mais de quinze dias eu ando à sua busca para lhe pedir a graça a que vim. Sempre, infelizmente tem havido desencontro entre nós; aqui estou porém; e mesmo que o Padre quisesse adiar a viagem, é tão caridoso o que lhe vou pedir, que certamente acederá à obra de tanta misericórdia e caridade!

— Fale, irmão!

— Depois de amanhã é o Carnaval; é a loucura da embriaguez e da orgia. Num dos centros mais populosos e vergonhosos da cidade mora uma pobre pecadora que há seis meses definha, vencida pelo mal terrível da tuberculose. A casa em que habita é muito mais que suspeita; desde janeiro até São Silvestre estrebucha entre as quatro paredes uma horrenda bacanal; é lá a reunião dos vadios, dos alcaiotes, dos companheiros do vício, dos sodalícios da orgia. É a vilança da inteligência e do caráter, a pândega pulha e ignóbil de bordel e de taverna! A criatura de que falo muito me interessa; parece-me que no mato, descobri um remédio que si não é cura, é ao menos um alívio ao doloroso mal dos pulmões. Mas me diga, irmão: eu, um pobre carpinteiro posso entrar assim de blusa, sem chamar a atenção numa casa de tanto pecado e. tanto luxo? O meu amigo é um sacerdote; e para que não desperte suspeita, quando levar o remédio ouvi-la-á em confissão, pois a criatura, enfermiça há muito, anda agora a morrer. Bastará que chegue à sua casa às dez horas da noite, quando os rapazes e as mulheres saírem em algazarra para o ruído do Carnaval. O seu quarto é no segundo andar, num corredor, terceira porta à esquerda. Vá, meu irmão, e fique certo de que faz uma grande obra de caridade. Vá, ela o espera!

E o marceneiro deu a rua e o número da casa.

Com tanta firmeza ele falara que o Padre não pensou em por a menor objeção; apenas com um sorriso que a tristeza severizara indagou:

— E o remédio que lhe devo dar, onde o encontro?

Quedou-se alguns instantes pensativo com o sobrecenho carregado o desconhecido; parecia que uma grande magna lhe lancinava a alma; por fim, murmurou:

— Irmão, ela já está desenganada pelo médico!

— Sim, mas o seu remédio descoberto no mato?

O carpinteiro meneou a cabeça negativamente.

— É inútil levar-lhe remédio! Vejo que é tarde! Leve-lhe a extrema unção!

Bernardim curioso ainda perguntou se ele a vira ultimamente.

— Não, eu nunca a vi!

Até hora alta da noite os dois homens conversaram; um do outro se agradara na simplicidade que os fazia parecidos; e era tão simpática a convivência dos seus espíritos que nem um reparou na madrugada que vinha nascendo no céu...

***

Paris estava no deslumbramento da festa louca. Explodiam por toda a parte orquestras de assovios, faiscavam iluminações, retumbavam clamores de orgia. Já passavam os grupos para os bailes numa ruidosa algazarra a que se sentia o vinho. Era o domínio do rega-bofe e da troça, da pândega desconjuntada, da pilhéria, da chalaça, da chacota, da laracha, do insulto mascarado a que se chama geralmente espírito... Passavam pierrots, arlequins, clowns, dominós; todo mundo tinha uma fisionomia mais ou menos mascarada; tilintavam guizos, sacudiam-se canções lascivas de bordel. Era o Carnaval. Era a intriga elegante para a gente fina, era a pilhéria boçal para os rudes; eram os vinhos Champagne para os ricos e clubmans, era a aguardente para os pobres e galhardos. Para muitos era a verdade. Vinham os grupos e os carros de todas as ruas e penetravam ruidosos nos boulevards festivos. A grande, a gloriosa, a imortal cidade parecia toda entregue à momice e à graçola do entrudo. Onde estava o grande cérebro de Paris produzido por centenas de edições, em milhares de brochuras, a seiva fecunda do seu grande espírito pelas artes e pelas ciências? Onde os cursos em que se aprendem todos os conhecimentos do saber humano, em que se preveem todas as hipóteses, em que se investigam todas as causas, e se determinam todos os efeitos? Paris descansava; o Carnaval se estendia sobre a opulenta cidade como um grande polvo que abre tentáculos...

Caía a neve; choviam policromias de confetti; e pairava no ar um cheiro de harém, e subia no espaço um perfume de absinto...

Às dez horas da noite, de uma casa da rua des Petits Correaux saiu um grupo alegre de mascarados e mascaradas; carruagens se aproximaram; houve uma grulhada de vozes, uns risos e uns gritinhos nervosos, um ar de cochicho e segredo que há sempre entre máscaras para que toda gente saiba que eles se conhecem entre si; depois um ajuntamento de curiosos, e os carros partiram. Aquele trecho da rua ficou por instante silencioso; nesse momento, um carro modesto parou; desceu o Padre Bernardim acompanhado pelo acólito, e os dois entraram na casa de onde haviam partido os mascarados. Defronte, um homem de blusa de operário e que parecia um marceneiro, rondava.

***

O velho Bernardim sentiu-se contrafeito ao penetrar naquele corredor, ao subir aquela escada onde pairava um ar de mistério e de orgia, onde havia pouco roncavam deboches e bebedeiras, onde passaram homens sem fé e mulheres seminuas, e onde entrava agora com Jesus Cristo, para dar a extrema-unção a uma moribunda. Mas lembrava-se das palavras do seu visitante: "Ela o espera!" Ela o esperava; mas onde? Todas as salas estavam vazias; por toda parte, em vez de remédios, jaziam garrafas esgotadas de vinhos Seus pudicos olhos surpreendiam interiores desonestos de alcovas lascivas... O acólito lembrou que era no segundo andar, terceira porta à esquerda. Subiram uma nova escada, chegaram ao corredor; mas pairava o mesmo silêncio, descansava o mesmo abandono. O velho padre estava receoso; temia que entrasse alguém e o visse conduzindo o Salvador aquela casa de pecado e de vício. E se voltassem de repente aquelas mulheres e aqueles homens? Decerto o desrespeitariam, tontos pela loucura da bebida e do Carnaval. Foi com uma vaga esperança de fugir àquela casa sem fé e sem Deus, que ele disse ao companheiro:

— Parece que nos enganamos! Não há ninguém na casa!...

Mas este não respondeu: com a mão em concha sobre a orelha, parecia ouvir atentamente.

— Que é que fazes?

— Não está ouvindo um rumor que parece um gemido?

Efetivamente aos ouvidos do Padre chegavam agora uns dolorosos e abafados ais. Encaminharam-se mais para porta, e bateram de leve; ninguém respondeu; outra vez, com os nós dos dedos, Bernardim de mansinho fê-la ressoar; também não houve resposta, mas aos dois amigos pareceu que o sussurro cessara. Por fim o rapaz entreabriu a porta, e o Padre entrou sozinho.

***

Longo tempo durou a confissão.

Quando o Padre abeirou-se do leito da enferma, quando ela o viu, não mostrou o menor espanto nem o mais ligeiro sobressalto; apenas nos seus grandes olhos muito fundos e sofredores, fulgiu rápida e fugace uma centelha de alegria. O velho sacerdote olhou em volta de si. O quarto era pequeno, mas conservava um luxo atrevido e convencional de veludos e de cetins; o leito largo, fofo, sensual, era encimado por um baldaquino de seda vermelha como sangue; e à cabeceira, pregado à parede, um grande espelho refletia o quadro triste de uma doente quase na agonia. O Padre que vencera facilmente a vergonha de entrar naquela casa suspeita, escrupulizou diante daquele cristal de serralho, luzente e obsceno, e desviou os castos olhos. Perto da porta um divã ostentava a sua cor vermelha também; havia espalhadas duas ou três cadeiras largas; o lavatório estava cheio, transbordando de frascos secos de essências e caixas vazias de pó de arroz ao lado um átrio onde descansavam os três volumes do Chevalier de Faublas e uns números velhos de Sans-Gene, L'Indiscret, Culotte Rouge, La Dame aux Camélias", e uma história de Napoleão I; perto da cama estava a mesinha; havia frascos de remédio, — e uma vela iluminava uma pequena e tosca imagem de São José Bernardim, com uma voz tranquila deu as boas noites à rapariga, e indagou solícito:

— Sente-se melhor? Gemia tão baixinho que mal pude ouvi-la!

Ela fez um esforço cansado e murmurou com tristeza:

— Tinha medo de incomodar os que se divertiam! Já ontem quiseram mandar-me para o hospital! Diziam que eu ia estragar-lhes o entrado... Não me queriam dar um confessor! Mas eu. sempre tive a esperança de não morrer com tanta culpa!

E olhou com um ar devoto para a imagem de São José...

— Pois aqui estou, minha filha, para ouvi-la e perdoá-la!

A pobre criatura ficou com os olhos rasos de lágrimas felizes; e com a voz trêmula indagou curiosa:

— Diga-me, meu Padre, conhece-me? Como soube que estava doente?

— Um homem que foi à minha casa e me falou do seu estado... Não o conheço; creio que é um carpinteiro.

— Talvez queira fazer o meu caixão...

— Talvez queira salvá-la, minha filha!

Ela contou-lhe a sua história. Era a mesma de sempre, dolorosa e banal; era a sedução estúpida de um homem covarde; depois da posse vinha o gualdipério imediato; era a primeira queda no lodo e na lama do vício, o espectro da fome aparecendo, e por fim a rendição completa, o aluguel do seu corpo, a prostituição da sua alma.

O Padre escutava-a em silêncio, ansioso pela obra da graça e do perdão; ouviu-lhe ainda todos os feios pecados, e absolveu-a. Nesse momento a vela se apagou. Quando conseguiu de novo acendê-la, reparou com um vago tremor que a estátua de São José tinha caído, e que a rapariga estava morta...

***

Muitas horas passara no quarto da moribunda; quando chegou à rua reparou que era hora alta da madrugada. Por todos os lados ainda estrugiam gritos alegres de carnaval.

O carro aproximou-se; Bernardim deu um derradeiro olhar à triste casa onde ficara abandonado um cadáver, e entrou com o acolito para a carruagem. Vinham pela rua carros alegres, iluminados a fogos de bengala; era o grupo de mascarados que regressava. Os animais fustigados partiram, e ele pensou:

— Aí voltam os doidos para o cemitério!...

Para trás não tinham ainda ficado dez metros, quando ao aceno de um desconhecido, a caleça parou. Era o marceneiro; e assim disse:

— Muito obrigado, meu Padre, por ter vindo! Coitada, ela morreu!

Foi só; caminhou e desapareceu na sombra. Mas o Padre Bernardim, dando ordem para de novo partir, pensou que havia qualquer coisa de estranho naquele homem tão pobremente vestido de operário; pareceu-lhe que havia uma luz refulgente e tranquila nos seus olhos; e supus um instante que em fim aquele carpinteiro talvez fosse São José...


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Ano de publicação: 1904.
Origem: Brasil
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021).

sábado, 11 de dezembro de 2021

O Mistério da Árvore (Contos de Mistério), de Raul Brandão

 

O MISTÉRIO DA ÁRVORE 

Esgalhada e seca, enorme, os seus frutos eram cadáveres ou corvos. Ninguém se lembrava que ela tivesse dado folhas nem flor, a árvore enorme que havia séculos servia de forca: ninguém se deitava à sua sombra e parece que nem o sol lhe dava, estarrecida e hirta, a árvore enorme que havia séculos servia de forca.

Em frente ficava o palácio real, construído dum bloco de pedra negra, que o mar bravo batia, e só o rei se pusera a amá-la, pois que ela era igual à sua alma, nua e trágica, a árvore triste que havia séculos servia de forca...

Que doença estranha, vagarosa mas tenaz, matava o rei?... Só amava os crepúsculos, agonias de luz, o passado, e a multidão silenciosa vinha vê-lo, ao findar da tarde, de cabeça a escaldar encostada aos vidros das janelas, sem desejos, o olhar perdido em quimeras, imaginários países, onde tudo são agonias, águas quietas, espectros de árvores esgalhadas. Tudo o que era moço e vivo fugira do palácio, porque o rei aborrecia e mandava punir a mocidade e o amor. Só o mar ainda o prendia ou a árvore negra, desde séculos seca e estarrecida, a árvore maldita que no seu reino servia de forca...

Pusera-se a odiar os felizes e os amorosos, na raiva de não ser moço e forte. Às noites, no silêncio tumular do seu palácio, nos corredores, onde os seus passos ecoavam, tinha desesperos, torturas de não poder amar as lindas mulheres de carnes de camélia, frias e lácteas. Erguia os braços numa súplica, sozinho, porque não queria ver ninguém, babujava, caía no ódio à mocidade e ao amor. Fizera-se assim invejoso e mau e por vezes já mandara matar criaturas, que se amavam...

Sucedeu que veio a primavera e todas as árvores, ao seu hálito, estremeceram e se cobriram de floração. Havia pequenas borboletas que nasciam do sol, pedaços de luz materializada, e dois amorosos, vindos de países lendários, perderam-se também, naquela terra praguenta, erma e bravia... Ela era grácil, envolta na poalha dos seus cabelos, com risos infantis. O mendigo, apenas vestido, era feliz e esbelto, preso no seu olhar. E assim vieram enlaçados, com a primavera, cobrindo todo o país árido, que calcavam, de vida e de amor. As macieiras dos quintais deitavam galhos fora dos muros e pequenas flores esvoaçavam pela sua nudez: os poentes no mar tinham cor, púrpuras e ouro em brasa...

Só o rei no palácio trágico vivia braço a braço com a dor. A vida, a luz, as árvores lembravam-lhe a sua miséria e enojavam-no. Queria que todo o país fosse negro e viúvo; e o amor que ele sentia correr na terra, a morte até, que tudo transformava e enchia de vida, lhe parecia uma abominação. Deitava-se no chão e a terra era uma noiva, os montes, seios duros, as árvores, cabelos ao vento. Sentia-a palpitar amorosa e, num desespero, fugia, para não pensar, sozinho no seu palácio construído de pedra negra e cuspido pelo mar raivoso...

Ficava então horas de olhos fitos na árvore. Como o rei ela era seca e hirta, negra, e os seus frutos cadáveres ou corvos, a árvore trágica que havia séculos servia de forca. Tudo à volta se transformava, amava, se cobria de floração: só ela ficava estarrecida diante da vida e do amor.

Um dia o rei soube que dois mendigos felizes tinham entrado no seu país e mandou-os logo prender. Havia já noites que ele os sentira em tudo: nos espinheiros em flor, nos sapos dos caminhos, que pareciam extáticos, nas coisas que queriam falar e estremeciam, na noite que trazia até ao palácio murmúrios, no vento que atirava para o castelo construído num só bloco de pedra negra, galhos de árvores luminosos, cheinhos, dir-se-ia, de geada. Punha-se de ouvido à terra, e a terra, a noite, o mar tinham vozes confusas, que ele entendia e o enfureciam.

Quando vieram ao palácio, trazidos por soldados, com eles entrou um bafo procriador, luz, sol: cheiravam a árvores, à erva e à lama dos caminhos, húmus, que traziam pegada nos seus pés feridos. A vida rompera por aquele túmulo dentro e, pois que iam morrer, dir-se-ia que a morte, em lugar da foice simbólica, trazia nas mãos um galho de árvore onde batia o sol.

Raivoso, o rei não lhes perguntou nada. Olhou-os odiento durante minutos e depois fez um gesto aos carrascos, que logo se apoderaram deles e os arrastaram. Os mendigos sorriam, alheados, lindos, cobertos de erva, de terra: cheiravam a árvores, a sol e à primavera. Enlaçados, olhavam-se e parecia que eles eram, um a vida, outro o amor.

Noite negra e o rei subiu sozinho ao terraço. Restos de nuvens, restos de mantos enlameados, arrastavam-se pelo céu. A árvore estarrecida e hirta, onde os dois mendigos haviam sido enforcados, mal se via na escuridão; mas de lá vinha um frêmito, a sua agonia talvez, e uma claridade, os seus vestidos decerto... Toda a terra lhe parecia uma podridão a fermentar: ouvia murmúrios, gritos de amor. Se as árvores falassem, se as árvores e as coisas dissessem tudo o que sabem!...

Encostado à muralha passou a noite absorto. As nuvens galopavam, o grasnido dos corvos na árvore afligia-o: só ele diante da vida ficava seco e inerte... Por que não iria ser macieira, mendigo, húmus? transformar a sua dor em felicidade? ser humilde e beber o sol, ir alegre na aluvião da vida? Oh como ele odiava a mocidade, o amor, lábios que se beijam, a emoção!... Só a árvore esgalhada e seca o prendia ainda, a árvore sinistra que no seu reino servia de forca.

Ficou até de manhã, d’olhos postos nela, sua igual, triste e estarrecida, sem amor e sem vida, negra como as ideias que ele tecia, da secura da sua alma, a árvore enorme que no seu reino servia de forca... Começaram os cerros a ter tintas violetas, as árvores a azular-se, e a forca, em que ele agora se absorvia, a erguer-se dentre a névoa, a árvore que havia séculos, não tinha seiva, esgalhada e negra...

Súbito ficou petrificado, de olhar fito na árvore, que aquecida com o imortal amor dos mendigos, tinha um galho, aquele em que os dois pendiam enforcados, cheinho de flor. Toda de negro, hirta e má como uma praga, deitara um galho que enternecia, tão coberto de flor, ideal noivado, a árvore enorme que havia séculos servia de forca. Nos seus galhos tinham sido enforcados tantos desgraçados, as suas raízes para sempre secas pelas lágrimas dos que choravam: tolhida pela dor dos justiçados, não bebia água, nem sugava húmus. Vira passar reinados, homens, primaveras, sem se comover, negra e arrepelada como uma mão a amaldiçoar a terra e o castelo. Assistira a transformações do solo, a cataclismos, a tempestades e a guerras, a ambições e a sofrimentos, e sempre morta, petrificada, negra como uma cova — e naquela noite, aquecida com o amor de dois mendigos, a árvore deitara um galho, um único, mas cheio de flor, adorável, como se nele se concentrasse toda a paixão, a primavera e o noivado da terra — a árvore maldita que desde séculos servia de forca...

 

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Ano de publicação: 1900.
Origem: Portugal
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)

Natal dos pobres (Contos de Natal), de Raul Brandão

 


NATAL DOS POBRES
 

Natal...

Está um dia fosco de neblina incerta e tristeza. Para lá as árvores despidas não bolem. A vida parou. As nuvens andam a esta hora a rastro pelas encostas pedregosas dos montes. Não se ouve um grito. Tudo na natureza se concentra e sonha. Há entanto um grande rio envolto que nunca cessa de correr...

Longe pelos caminhos, através de pinheirais cismáticos e calados, vão velhinhas tristes, de saia pelos ombros, para consoar nessa noite com os filhos. Andam trôpegas léguas e léguas. As suas mãos calosas, as caras enrugadas, onde as lágrimas abriram sulcos, os olhos tristes, contam o que elas têm passado na vida, dias sem pão, suor de aflições, desamparos, maus tratos...

Os cavadores deixaram os arados mortos nos campos, que a chuva alaga. Que tudo repouse. O vinho de hoje conforta, como as lágrimas choradas pelas nossas desgraças, o lume de hoje aquece como o amor de nossas mães.

Nos soutos, sob a chuva que cai mansa e continua, andam pobres que não têm lenha, a arrancar uma raiz esquecida, para se aquecerem. Deus os tenha na sua mão de pai. Partem, chegam, vêm muito longe, para verem os seus meninos, matando saudades. Quase não comem e sustentam filhos, sustentam netos. Os velhos, que tem atrás de si uma vida de martírio e fomes, dizem:

– É hoje o maior dia do ano...

Na lareira arde um canhoto. Cai o nevão. A cozinha é negra, de telha vá, é negro o frio, mas as almas sentem-se agasalhadas. Por um buraco avistam-se as estrelas e uma pedra serve de lar. Ao estalido das pinhas, abafadas na cinza, repartem um pão que é o suor do seu rosto, bebem o vinho aquecido em árvores que as suas mãos cortaram...

Sentados ao lume não falam. As brasas vão-se extinguindo como um poente, ou como uma alma que vai deixar-nos. A Morte passa. No buraco do telhado a estrela reluz, o nevão cai com um ruído das flores desfolhadas, e cada um cisma em alguma coisa de indeterminado e vago, de longínquo; em certa hora da vida, na mãe, num filho ausente, naquela morta que passou seus dias a sacrificar-se por nós...

– O lume apaga-se...

– Deitai-lhe canhotos.

O lume apaga-se e as sombras da noite, em re-voadas, vêm escutar-nos atentas.

Os pobres são como os rios. Estancam a sede da terra, fazem inchar as raízes e crescer as árvores; acarretam; moem o pão nos moinhos. Ei-la a vida da terra. Todas as catedrais se construíram da sua dor; sem eles a vida pararia.

Natal dos pobres! natal dos pobres!... Porque é que criaturas misérrimas encontram ainda na sua gélida nudez horas para recordar e amar? Pobres repartem o seu pão; espezinhados dão-nos das suas lágrimas. Vinho quente! vinho quente e amargo, que sabe a aflição! Chegam-se uns aos outros para se aquecerem. Nas enfermarias, nos sítios onde se sofre, os míseros e os doentes quedam-se muito tempo a cismar. Os pobres pensam que existem seres ainda mais pobres, lares desamparados, onde nem o lume se acende; cuidam numa velhinha, que, a essa mesma hora, cisma, abandonada, e sozinha, ao pé de brasas extintas no filho doente, no filho ausente... Há cabanas nuas, lares rotos, almas mais gélidas que o nevão.

As lágrimas que se choram e se não vêem são as melhores: caem sobre a alma.

Sofia sobe as escadas com uma caneca de vinho quente, para repartir com o Gebo. Na sua fisionomia há um cansaço enorme.

A chorar, misturando-lhe lágrimas, o velho, mais gordo e todo branco, bebe o azedo vinho quente das prostitutas. Depois abraçados soluçam na trapeira fria. Fora não se ouve rumor: as coisas ingeridas escutam.

Põem-se a cismar na mãe que descansa na terra encharcada. Tudo tão triste, dias sem pão, e o amor a prendê-los, a uni-los, mais forte que a desgraça. Não protestam, não têm forças para gritar. Baixinho o velho Gebo e a filha choram aquela que a terra primeiro tragou.

– Se o Senhor também nos levasse...

E Sofia bebendo do mesmo copo:

– Tenha paciência, tenha paciência...

– Se o Senhor nos levasse juntos, na mesma hora...

Cuido que não tinha tanto frio.

– Aí tem pão.

– Sabes? Eu tenho medo de morrer. Se morresse contigo, minha filha, não tinha tanto medo.

– A mãe lá nos espera. Na cova acabam-se as precisões e as lágrimas...

– Tudo se acaba na cova. Chegada a nossa hora, acaba-se também a desgraça.

– Aqui tem o vinho.

Natal dos pobres, noite de comunhão, noite de lágrimas e saudades! Não é chuva que cai sem ruído, são lágrimas. O Gebo abre a janela e põe-se a falar para a escuridão com palavras que a noite escuta, com palavras que a noite leva.

Em torno da mesa de pinho ceiam as mulheres. Com os cotovelos fincados nas tábuas, olham o vinho quente e cismam... Ceia de natal! Ceia de natal!... Até as prostitutas se querem lembrar... Moídas de pancadas, têm más palavras, gritos, e um sorriso humilde. Fazem-se pequeninas para que lhes perdoem uma vida infame.

Falam! falam!... Parece que a mesma primavera negra fez dar emoção a estas criaturas exploradas e servidas. Lembram-se da sua vida, sempre lágrimas, risos sem piedade... Uma começa:

– Ninguém canta?

E logo outra, como se as palavras lhe saíssem de golfão:

– Eu cá foi por fome que me desfrutaram. Ninguém queria saber de mim e a minha madrasta calcava-me aos pés.

– Eu não sei como foi...

– E eu então – continua – foi por fome. O pai estava escarangado e a minha madrasta era tão má, que, por eu me demorar num recado, partiu-me um braço.

– Pois eu foi assim de repente... – diz outra.

– Ia pela rua fora. Vinha da fábrica, começou a chover e uma lama!... Tinha frio e um homem pôs-se a falar-me ao ouvido e a levar-me. Eu nem sei como aquilo foi... E a falar, a falar, até me doía o coração! E nunca mais o vi. Se o vir acho que nem o conheço.

– Enganam e nunca mais querem saber.

– A mim minha mãe bem me pregava mas a gente que há de fazer?

– Ontem os soldados puseram-me o corpo negro – diz uma.

E mostra a triste carne magoada, os seios murchos e com nódoas. No ombro os ossos furam-lhe a pele.

– Quando eu morrer... oh quando eu morrer!...

– Tola!

– Que tem? Tenho ali a roupa apartada.

– A mim, enganaram-me, levaram-me... Eu não sabia nada. Depois comecei a servir. Enganavam-me e punham-me fora... Depois não tinha mais para onde ir...

– Eu cá tive um filho...

Uma que estava calada soluçou no escuro. E como todas se voltassem pôs-se a rir e a ajeitar os cabelos.

– Eu tive um filho e pus-me a criá-lo. Depois disso o meu amigo nunca mais quis saber. Quando eu o procurava ria-se. Mostrava-lhe o inocente e ele punha-se a rir. – Mulheres não faltam, dizia-me. Vai-te! – E a gente fica feia. Vai um dia e disse-me: – Se cá tornas chamo a polícia.

– Eu chorei até não ter mais lágrimas e acabou-se tudo. São todos o mesmo. Noutro dia vi-o, mas ele fingiu que não me conheceu.

– E o teu filho era bonito?

– Era um anjinho do céu. Tanto chorei que secou-se-me o leite de chorar. A gente sempre e mais tola!...

Pôs-se muito chupadinho e morreu.

– A Maria já deitou um à roda.

– Eu cá se tivesse um filhinho acho que morria por ele. Não tinha coração para o dar a criar.

– A gente não podemos ter filhos.

– Eu cá era uma inocente. Até me dá riso! Tinha treze anos e foi logo ao entrar para a fábrica. O mestre foi quem me desfrutou. Agarrou-me, mas eu não sabia e pus-me a chorar. – Cala-te! se dizes, vais para a rua! – Abandonou-me, outros vieram... A gente há de cumprir o seu fado.

– Eu cá fui um miminho. Meu pai tinha de seu...

Depois tudo esqueci, porque senão a gente morria. Meu pai era muito meu amigo. Era preciso não ter coração para o enganar. Nem ele podia supor mal de mim, nem do outro que entrava na nossa casa. Meu pai era também muito amigo dele e tinha-lhe valido sempre. Ainda me lembro, quando meu pai comigo no colo me dizia: – Tu és o meu coraçãozinho... – Eu sempre tive um colo! Olhai: embalava-me como às crianças. – Falta-te a tua mãe, mas eu sou a tua mãe, queres? – Era uma dor do coração enganá-lo e nós enganamo-lo ambos. E eu bem sabia que ele era casado, mas mentia-me...

– Por que será que os homens mentem sempre?

– Mentia-me sempre, e eu era inocente. Mentiu-me e mentia a meu pai. O pior é que um dia fiquei grávida. Começou o meu castigo. – Vou-lhe dizer tudo.

– Diz – disse ele. Matá-lo. Se queres diz... – Eu calei-me. – E agora? – Agora... – Eu já lhe não queria, acho mesmo que nunca lhe quis deveras. Foi uma desgraça.

Já estava escrito que fosse desgraçada, acabou-se!...

Depois não podia esconder o meu erro. Só meu pai não reparava... E ele que me imaginava uma inocente!...

Esperai... – E agora? agora?... – perguntei-lhe. Então arranjei com que meu pai me deixasse ir com ele e a mulher para uma quinta. Se vós vísseis! A pobre da mulher! Batia-lhe sempre, tratava-a pior que a um cão.

– Cala-te! e ela calava-se, a pobre. – Fala! – e ela falava.

– O estupor, tu não te calarás! – Ela tinha os cabelos todos brancos e vai eu um dia perguntei-lhe quantos anos tinha. – Trinta – respondeu-me, e calou-se. Fiquei passada. O homem diante dela dava-me beijos para a ver chorar. Dizia-lhe: – Vou dormir com ela, ouves, velha? – E dormia comigo. A senhora não dizia palavra. Chorava e punha em mim uns olhos tão tristes, que faziam aflição. Um dia que ficamos sozinhas, ela disse-me: – A menina há de ser uma infeliz. – Eu chorei; e ela com a mão nos meus cabelos, a fazer-me festas! – Coitada! coitada, que sorte a sua tão negra!... Ainda eu...

– Por que não o deixa? – perguntei-lhe. – Já me tinha deitado ao rio se não fossem os meus filhos.

– Ele sempre há desgraças! Às vezes mais vale ser mulher da vida.

– Esperai pelo resto. Tive as dores uma noite no verão, em a gosto, e a pobre da senhora é que me tratou. Ele levou-me logo o filho. Na outra sala ouvi gritos. Vai e atirei-me pela cama fora, sem saber o que fazia. – Onde está o meu filho? – Fui mesmo de rastos e pus-me à porta a escutar. Eles berravam. – Se falas esgano-te! – dizia o malvado à mulher. – Mata-me! – tornava ela. – Tu queres a minha desgraça? Estorcego-te! – Depois ouvi um grande grito e fiquei como morta. – O nosso filho? o meu filho? – Nasceu morto. – A mulher a um canto chorou. Chorou sempre depois.

– Tinha-o matado, o malvado?...

– Tinha. Afogou-o na latrina. Depois veio a polícia. Esperai... A criada ouvira os gritos. Sabe-se sempre tudo, o diabo tapa dum lado e descobre do outro. Ele fugiu para o Brasil, eu fui presa, e meu pai diante duma ingratidão tão negra – quereis crer? – estalou-lhe o coração. Depois... depois... A gente quando nasce já tem a sua sina escrita.

– E a ti?... Não falas? – perguntam a uma sumida no escuro.

– A mim enganaram-me. Foi há tanto tempo que já me não lembra. Tudo perdi.

– E a tua família?

– A gente não tem família.

Na noite, a um canto do Hospital o velho banco de tábuas puídas, dá-lhe também para cismar. A ventania parou. Duma fresta tomba luar. A treva amontoa-se ao fundo, e, para além, nos corredores abobadados, arde um lampião. Direis que o negrume remexe: pedaços de escuridão destacam-se, escoam-se sem ruído pelas muralhas úmidas e espessas. Mais para o fundo há como um abismo, vala comum de treva empastada. Os gritos redobram; depois, por momentos o silêncio sufoca, como o dum sepulcro.

– Se é luar que cai daquela fresta... – cuida o banco.

– Se fosse luar!

Pela escada vê-se a enfermaria onde os lampiões em fila dão uma claridade triste, que mostra os corpos moldados em branco, caídos nos leitos: parece uma necrópole subterrânea e imensa.

– Se fosse luar... – Há que tempos que não sinto o luar. Era como um ruído branco que me envolvia outrora na floresta. Neva às vezes luar. E havia ainda outras vozes... Sempre se sonha, quando certas noites nascem! Era diferente... Havia rumor nas folhas e o vento dizia aos ramos histórias acontecidas noutros montes. Há épocas em que o vento traz noivados, ais de sapos, frangalhos arrancados às flores... Se aquela poeira fosse luar... E se o luar se pusesse a correr sobre mim, aquecendo-me como outrora, quando em mim subia não sei o quê de misterioso e forte?

Redobram os gemidos, os estertores, os gritos. Os últimos lampiões apagam-se um a um, como se alguém lhe soprasse. É a Morte seguindo o seu caminho. Sombras esvoaçam. E a cova, negra, toma corpo, vive, mais calada, maior, vala infinita, a que uma luzinha dá alma. E o banco cisma:

– Há que tempos que não sinto em mim a luz da manhã, que traz consigo a vida de tudo o que existe, dos rios, das outras árvores, nem o sol a crescer em vagas de ouro, nem a água verde, melancólica, e tão mansa entre os choupos que parece ir vogando já morta... Sinto-me transido... Transido? Isto é como fogo, mas trespassa-me de frio. E não há nevão, mas ouço sempre gritos, ais, dores... Oh se fosse luar!... Destas enfermarias corre também um sonho parecido com luar... Será uma fonte?...

As fontes! nem te lembres das fontes!... Aqui parece que as minhas fibras mergulham num mar revolvido, que eu ignoro, mas que é feito de gritos.

Baixo a pedra começa também a lembrar-se e àquela hora perdida da noite toda a alma inconsciente do Hospital estremece. Quer recordar, palpita e logo esquece... Os sonhos dos doentes, dos pobres, dos tristes, materializam-se e são como nuvens: são de fogo, são de luar. Sombras aos bandos dissolvem-se, para outra vez se criarem.

– Acho que sempre é luar... E quando havia sol? Torrentes corriam pelo meu tronco, inundavam a minha roupa cascosa e em volta numa poeira azul andava um turbilhão de bichos. Outras árvores flutuavam na mesma poalha e as suas folhas ou eram de sol ou todas de prata. Longe – e que encanto aquela companhia sempre presente e amiga! – o fio do rio chalrava. Folhas caíam e iam devagarinho viajar sobre a água verde. Para onde?...

Debaixo de mim, até ao mais fundo das minhas raízes quantas vidas protegi e defendi!... As minhas raízes tocavam na vida!... Às vezes caia um pé de água, mas depois vinham sempre teias de sol, fios de sol, para me enredar – e o sol traz consigo um cheiro a terra e renovo que consola, o hálito dos montes e dos pinheiros meus amigos.

Nas temporadas fúnebres em que a água cai a golfões, a gente concentra-se e fica meio adormecida. Os montes envolvem-se em nuvens, os bichos na terra tremem de frio sob as raízes e as folhas secas estalam e gemem com saudades ao deixarem-nos. Se por instantes se descerra a névoa, os montes são mendigos, com um grande manto remendado. Ao fim da tarde levanta-se dos campos um lindo luar azulado que sobe e se dispersa.

É a névoa. Baba de ouro luz na água e os choupos são sombras. Ao longe havia um biombo verde de pinheiros, depois montes, e depois poentes doirados... Por que é que me ponho a pensar e a cismar? Há tanto tempo que dormia! As minhas fibras esta noite estremecem. Há de ser do luar... Oh se ainda houvesse luar!

As mulheres calaram-se. Não há ruído. Elas próprias sonham. Em torno da mesa, na cozinha saqueada, bebem sem palavra o vinho quente. Algumas pensam decerto num lar e bebem as lágrimas que caem no vinho e o gelam.

– A esta hora a minha mãezinha há de por força pensar em mim... – começa uma.

– E tu por que não foste consoar com ela?

– Punham-me fora! queriam-me lá!... Meu pai, meus irmãos...

– Em minha casa faz-se uma consoada muito grande. Assam-se pinhas no lar, e minhas irmãs pequeninas... oh minhas irmãs pequeninas!...

E sufocada desata de repente a chorar. As outras não se riem como de costume. Só uma, sentindo que iam todas chorar, canta:

Se vires a mulher perdida...

– Raparigas, é o fado... De que serve agora chorar? Ninguém foge ao seu fado.

– À noite a minha mãe aquecia vinho e dava-mo na cama. Sempre a gente é criada para uma vida! Quem adivinha?

– Cala-te!

– Eu era o miminho de todos, eu...

– Só eu nunca tive mãe, de mim ninguém se importa! Acabou-se! Cala-te! cala-te!...

Na escuridão as cinzas que restam num lar fazem tristeza e saudade. Brilham, esmorecem, vão-se apagar: são vidas que se extinguem, a alma da treva que em redor sufoca. Assim o Prédio ao abandono, sob a enxurrada, parecia cismar, como um rescaldo coberto de cinzas. Parara trágico defronte do Hospital, e cansado, tal como um pobre ao fim da vida, contempla o seu destino.

Natal dos pobres! Natal amargo dos que não têm pão e se juntam friorentos em torno dum lume que não aquece; natal dos seres que a desgraça usou... O vinho enregela, o pão é duro, mas resta ainda este lume, que jamais se apaga: – Amanhã! amanhã!...

Que poesia tão triste não vai caindo como um choro sobre aquelas almas de misérrimos, de gebos, de prostitutas, de desgraçados!

Numa trapeira o gato-pingado quer dizer: – Amo-te! – mas foi sempre tão nu que não sabe exprimir o que sente.

Na alma daquela criatura humilde, despida e escarnecida, que tinha medo de sonhar e até de chorar, fizera-se um clarão. Tal o espanto enternecido duma pedra a que uma raiz se apega e que a olha deitar flor na primeira primavera. – Fui eu, apesar da minha secura, pensa o calhau, que a trouxe no ventre.

Sem falar, bebem juntos, ele e a pobre, o mesmo vinho. Ele diz:

– Ambos somos desgraçados e sozinhos.

O vinho que havia aquecido dá-lho com um pedaço de pão. Ela olha-o, tendo sempre crescido por acaso e piedade, rota e triste. Havia pois alguém que a amasse?...

– Bebe.

– É tão bom a gente estar junta.

– Não se tem frio.

– Esta noite, sabes?... Lembro-me de minha mãe...

Por que seria que ela me enjeitou?

Fora choram. Ela ergue-se e vê no corredor uma rapariguinha que a mãe pôs fora da porta e que chora e pensa.

– E se eu me deitasse a afogar?

Dá-lhe do seu pão, reparte do seu vinho e, mísera, rota, ressequida, diz, pondo-lhe a mão na cabeça:

– Deus te crie para boa sorte...

Na terra só os pobres sabem ser desgraçados.

Meia-noite! meia-noite!... Para que tudo se crie, para que o pó se transforme em vida, que é necessário? Torrentes de chuva, oceanos de água. Eis a vida... Para que do que é matéria algo de radioso irrompa, que é preciso? Um atlântico de lágrimas.

Da matéria tem nascido à custa de gritos, de fibras torcidas, o imorredouro espírito. Através das idades ele se criou, através da dor veio surgindo. O mundo espiritual é já hoje mais vasto que o mundo material. A dor é a primavera da vida. Para se entrar na vida ou para se entrar na morte há sempre gritos. A dor ara o céu cheio de estrelas e os seres humildes.

Que se cria de tudo isto? que é que se alimenta no infinito? Destes pobres espezinhados, revolvidos, nascem as coisas eternas – húmus, amálgama, protoplasma, espírito lácteo, com que se constroem os mundos. Na vala comum os seus corpos, cansados de sofrer, são a vida da terra: as árvores, o pão, as formas, a seiva esplendente. No infinito é da sua dor que se sustenta Deus.

 

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Ano de publicação: 1900.
Origem: Portugal
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)