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quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

A Inveja (Conto da Infância), de Francisca Júlia

 

A INVEJA


Havia um homem, extremamente invejoso, que não tinha conseguido ainda arranjar fortuna, apesar dos esforços que fazia, do trabalho diário e das economias.
Este homem, desde que ficou só no mundo, sem o amparo de seus pais, que tinham morrido, entregou-se ao trabalho; mas como nunca foi honesto e empreendia tudo com má fé e malícia, não pode prosperar, de modo que todos, que deviam auxiliá-lo, evitavam-no e negavam-lhe apoio.
Seu principal defeito era a inveja.
Invejava a felicidade de todos, e a todos desejava mal. Se o seu amigo prosperava, cercava-o de pequenas intrigas, maculava-lhe a reputação até vê-lo empobrecer.
Um dia, cansado dos sofrimentos e humilhações por que tinha passado até então, revoltado contra a sorte que lhe era tão adversa, mudou de terra para recomeçar a vida. Empregou-se na casa de um rico moleiro.
Sua ocupação era pastorear as ovelhas, tomar conta do seleiro à noite, evitando a voracidade dos ratos que tudo destruíam. Trabalho suave esse, que lhe rendia algum dinheiro e um tratamento relativamente bom, porque o seu patrão era generoso. Assim viveu ele por muitos dias, feliz, alimentando-se bem e fazendo as economias a que estava habituado.
A inveja, porém, começou a dominai-o de novo, a envenenar-lhe a alma, obrigando-o a revoltar-se contra a crescente prosperidade do seu amo. À noite, fechado em seu quarto, estorcia-se no leito, espumava de raiva, fantasiava altercações com o moleiro, dirigia-lhe impropérios e a inveja ia-o tornando mau cada vez mais.
Daí em diante, já se não importava com o trato das ovelhas, deixando que se desgarrassem do rebanho ou que morressem de peste por falta de cuidados. Agitava a água da azenha, tornando-a suja. Abria a porta do seleiro para dar estrada aos ratos.
Tudo isso ele fazia no intuito de empobrecer o moleiro, fazendo-lhe esses males, causando-lhe prejuízos diários. Mas o proprietário, que já tinha percebido os maus sentimentos do seu empregado, e observado a sua inveja, chamou-o à sua presença e falou-lhe duramente:
— Tu és um mau homem; a princípio conseguiste iludir-me com tua falsa solicitude, com teu fingido amor ao trabalho; agora te conheço melhor, porque de uns tempos a esta parte tenho observado a baixeza de tua alma e a inveja de que está penetrada. De hoje em diante ficas dispensado do serviço da minha casa. Vai com Deus.
E despediu-o, depois de lhe haver pago o que lhe devia, dado alguma roupa e conselhos úteis de moral.
O nosso homem saiu, de cabeça baixa, coberto de vergonha e humilhação.
E jurou vingar-se.
A noite tinha caído de todo. Não havia uma estrela no céu. Tudo era propicio para a realização dos seus desígnios criminosos.
Armou-se de um punhal e encaminhou-se para a casa do moleiro.
Tudo, porém, estava fechado, e ele receava acordar os cães, que eram bravos.
Então, mudando de estratégia, resolveu vingar-se de outro modo: quebrar a roda do moinho.
E partiu, pé ante pé, de cócoras, para confundir-se com o mato e aproximou-se do moinho para quebrar-lhe a roda. Como era dotado de muita força, agarrou num dos raios, suspendeu-se, e, com o auxilio dos pés, pensou quebrar um por um todos os raios; estava nesta posição quando um grosso jato d'água se desprende de cima, apanha a roda, fá-la virar impetuosamente, e mata o desgraçado sem lhe dar tempo de gritar por socorro.
No outro dia, quando o moleiro soube do ocorrido, ergueu as mãos ao céu e rogou a Deus repouso para a alma daquele infeliz.


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Ano de publicação: 1899
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2022)

A Esperança (Conto da Infância), de Francisca Júlia



A ESPERANÇA



A crença mitológica nos conta que os povos antigamente eram felizes, viviam na maior harmonia, sem guerras nem disputas. O mundo era composto de uma só família, onde todos se amavam igualmente e estavam unidos por um afeto fraternal.
Não havia a pobreza, porque a terra, como uma mãe carinhosa, produzia frutos para o aumento de todos. Não se conheciam os ardores do verão, os rigores do inverno, nem a ameaça das tempestades; uma primavera continua refrescava os ares, animava a verdura dos campos e fazia nascer os frutos. Os animais viviam da mesma forma; os pássaros com os répteis, as ovelhas com as feras.
Desta maneira todos se sentiam absolutamente ditosos.
Júpiter, porém, possuía uma boceta, que estava fechada, e que continha todos os males que a humanidade sofre atualmente.
Nela estavam ocultas a amargura, a guerra, a peste, a fome, o assassínio, a ingratidão e todo o gênero de sofrimentos a que o homem está sujeito.
Um dia, Júpiter, tendo de descer do Olimpo com o fim de visitar a terra, como não quisesse abandonar a boceta à curiosidade dos outros deuses, chamou Pandora e falou-lhe assim:
— Toma esta boceta. Ela contém toda a espécie de males criados pelas forças infernais; se a abrires, a humanidade há de sofrer eternamente. É por isso que tá confio, na certeza de que saberás guardai-a com o maior cuidado, não só pelo respeito que deves às minhas ordens, como pela piedade que te inspira a fraqueza humana.
E entregou-a a Pandora.
Esta deusa guardou a boceta durante muito tempo; mas como era excessivamente curiosa, resolveu abri-la.
Abriu-a.
A princípio escapou a guerra: logo os homens começaram a inventar os punhais envenenados, couraças, lanças, setas e toda a variedade de armas de defesa, para, quando fosse ocasião, marchar para o campo da batalha e escravizar os povos vencidos.
A peste abateu os soldados; as lágrimas umedeceram os olhos das mulheres; o falso amigo escondeu no seio o punhal assassino; o filho ridicularizou a velhice dos pais; e assim por diante os males foram saindo da boceta encantada, espalhando-se pelo mundo, acordando sentimentos maus nos corações e derramando por toda a parte a desolação e o luto.
Pandora sentiu remorsos nesse instante e fechou a boceta.
Todos os males, porém, já tinham saído exceto um: a esperança.

A esperança ficou no fundo, escondida, para consolar as mágoas e animar o mundo; de modo que, por mais infelizes que nos julguemos, sempre nos resta a esperança de alcançarmos uma felicidade futura, um suave descanso para as nossas tristezas e um consolo para as nossas aflições. 


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Ano de publicação: 1899
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2022)

O Trovador (Conto da Infância), de Francisca Júlia

 

O TROVADOR
(Balada escandinava)

— Que é que ouves à porta, ó pajem loiro?
— Rei, é um velho de barbas brancas e cabelos longos, que empunha um instrumento de cordas, de que tira celestes harmonias e músicas sonoras.
— Faze-o entrar, lindo pajem, e dize-lhe que venha cantar sob meu trono, na presença dos meus vassalos, as melancolias de sua alma.
"Viva, poderoso rei! em tuas mãos está o cetro de ouro diante do qual se curvam os cortesãos e todos os validos do reino; ao teu mando os exércitos se movem, como servos submissos, obedientes, aos caprichos do teu desejo.
Saúde, nobres senhores! em vossos peitos se ostentam condecorações de honra e medalhas de valor, adquiridas no serviço do rei ou ganhas nos campos da batalha. Urrah, formosas damas! vós inflamais os peitos dos jovens e despertais em suas almas as mais estranhas aspirações de glória.
Eu sou um pobre velho, curvo ao peso doa anos, experimentado nas lides da miséria, que anda pelo mundo despertando nos corações alheios as amarguras adormecidas".
— Canta, trovador.
O velho fechou os olhos e entoou um canto triste, arrancado ao fundo de sua alma. Os homens abaixaram a cabeça para esconder as lágrimas que lhes subiram aos olhos; as moças tremeram á vibração do instrumento e choraram ao eco das suas notas.
O rei, a quem o canto era dirigido, levou aos olhos a ponta do manto, enxugou uma lágrima sentida e disse:
— Velho, desde que subi ao trono sobre o qual se sentaram meus antepassados ilustres, acostumei-me a assistir às dores de outrem de olhos enxutos e coração fechado. Na guerra vi meus amigos e companheiros de infância cair crivados de balas ou rasgados pelas lanças. A fonte do meu pranto está seca. Mas tu, velho, após tantos anos de odiosa indiferença, conseguiste, com as harmonias do teu canto, umedecer a rugosidade das minhas pálpebras com algumas gotas de saudosa lágrima. Toma esta barra de ouro; é mais pesada que o bastão a que te animas.
— Obrigado, bom rei! Agradeço o teu ouro. Quero apenas um pouco de alimento para matar a minha fome e um copo de água fresca para saciar a minha sede.
— Servos, dai ao velho o resto do meu banquete.
O trovador sacia-se nas iguarias reais.
— Obrigado, bom rei! Que a lágrima que derramaste te faça lembrar do trovador humilde. Dá-me agora a liberdade; quero sair, para continuar no silêncio da noite, sob o fulgor das estrelas, minhas tristezas interrompidas.


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Ano de publicação: 1899
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2022)

Vaidade (Conto da Infância), de Francisca Júlia

 

VAIDADE

Estavam reunidas cinco meninas no campo, a conversar, abrigadas à sombra de uma velha árvore, onde as cigarras cantavam.
Todo o resto da campina estava inundado de sol. Fazia um calor estival.
Como eram meninas ricas, e a vaidade é para a maior parte delas a preocupação constante, falavam a respeito da beleza de cada uma.
Dizia a primeira:
— Eu sou a mais bela de vós todas, porque tenho os cabelos claros e quando o sol os ilumina dá-lhes um reflexo dourado. E para mostrá-los, ficou em pé de encontro ao sol, cujos raios formaram uma auréola de ouro em torno à sua cabeça.
A segunda disse:
— Não sou menos bela que tu; tenho a cútis fina e rosada como a polpa de um pêssego.
— Eu tenho as mãos encantadoras.
E assim cada qual enumerava seus encantos, fazendo-os sobressair do melhor modo possível, em vez de ocultá-los ou disfarçá-los como manda a boa educação e a modéstia.
Minhas meninas, nunca vos blasoneis de vossos encantos físicos e do vosso aspecto externo, por mais notáveis que vos pareçam, porque a beleza com que a natureza vos dotou desaparece facilmente com as moléstias que se adquirem, com os inúmeros acidentes da vida e com a idade.
Deveis ser modestas, educar o vosso espírito nas boas leituras, nos exemplos bons, nos atos nobres, que sereis mais belas ainda e a simpatia, que decorre da elevação do espírito, dará um imperecível realce aos vossos encantos.


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Ano de publicação: 1899
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2022)11

O Cão (Conto da Infância), de Francisca Júlia

 

O CÃO

Alfredinho possuía um cão que se chamava Lobo. Era grande como os maiores da sua raça, o pelo crespo, inteiramente negro e dotado de uma coragem e força que o faziam temido por todos.
À noite, quando o soltavam no quintal, Lobo escondia-se na sombra dos muros, e aí ficava, imóvel e alerta, à espera dos ladrões. Mas estes, que lhe temiam a ferocidade, não se arriscavam a galgar o muro.
Entanto este cão, apesar do seu aspecto feroz, dos seus olhos sanguíneos e duros, que fitavam tudo com aspereza, e da sua boca rasgada, guarnecida de dentes afiados, era manso como um cordeiro para o seu pequeno amo, que lhe alisava o pelo e lhe dava beijos no focinho.
Viam-nos sempre juntos, Alfredinho e Lobo, amigos inseparáveis, — aquele, mal sustentando-se nas perninhas fracas, este, ostentando sua corpulência de fera. Às vezes iam passear juntos até ao campo, e Lobo acompanhava o seu amiguinho, seguindo-lhe todos os movimentos, obedecendo a todos os seus gestos, num desejo de adivinhar os seus mais ínfimos pensamentos.
Alfredinho, com ser uma criança de cinco anos apenas, compreendia esta dedicação e retribuía ao seu amigo do mesmo modo, tratando-o com o maior carinho, zangando-se com os criados se lhe davam uma ração pequena ou se lha davam com grosseria.
Certa vez, um homem rico, muito amante de cães, dirigiu-se ao pai de Alfredinho e ofereceu-lhe uma soma avultada para a compra de Lobo.
O pai recusou-se a vendê-lo, dizendo:
— Este cão é o melhor amigo do meu filho, acompanha-o por toda a parte. Se algum dia este digno animal perecer, meu filho não poderá sobreviver-lhe, tal será o desgosto que há de sentir.
O homem foi-se embora, não sem ter lançado de soslaio um olhar invejoso sobre o cão.
De fato, não havia ninguém que não admirasse Lobo, o seu corpo volumoso ornado de um pelo crespo e macio, as suas patas enormes armadas de unhas pontudas e curvas, como as de um leopardo, e o seu peito largo e forte como uma couraça.
Alfredinho, quando tinha três anos, era um menino doente, extremamente débil.
Seu pai, que o amava muito, fazia-lhe todas as vontades, satisfazia-lhe todos os desejos, com medo de contrariá-lo ou aborrecê-lo. Alfredinho, porém, dotado de sentimentos generosos e boa alma, nunca abusou, como fazem geralmente as crianças da sua idade, das delicadezas de que era cercado.
Nessa época, num dia de muita chuva, em que o vento passava impetuosamente em uivos prolongados, Alfredinho, trêmulo de susto, ouviu um gemido triste que vinha da rua. Mandou ver o que era.
— Era um cão muito magro, disseram, e coberto de lepra.
Alfredinho, piedoso como era, pediu ao pai com os olhos cheios de lágrimas que recolhessem o pobre cão, que lhe dessem agasalho.
O cão entrou, encharcado da água da chuva, tremendo de frio. Seu aspecto era repugnante: magríssimo, as costelas salientes, imundo e coberto de lepra.
Todos recusaram-se a recebê-lo.
O menino tanto insistiu, chorou e bateu o pé, que o pai resolveu, não sem escrúpulo e nojo, ficar com o cão.
Deram-lhe o nome de Lobo pelo ar selvagem que tinha.
Pouco a pouco, alimentando-se bem, sujeitando-se ao tratamento da lepra que lhe cobria o pelo, o cão foi engordando, e em pouco tempo tornou-se um animal lindo e afagado por todos.
Durante o dia seguia Alfredinho aos passeios, sacudindo a cauda, fazendo-o rir com suas graças; à noite soltavam-no no quintal para defender as galinhas e as hortaliças do assalto dos malfeitores.
O seu pequeno amo, uma manhã, depois de haver pedido licença ao pai, convidou-o a um passeio ao campo, para caçar borboletas e cigarras.
O cão acompanhou-o.
Alfredinho corria pelos atalhos, escondia-se nas touças de verdura, tentando iludir a vigilância de Lobo.
Cansado, porém, de tanto brincar, deitou-se na relva e adormeceu.
O cão deitou-se também, alerta sempre contra qualquer perigo, disposto, se fosse preciso, a defender o seu querido amiguinho.
Nesse instante uma cobra traiçoeira, arrastando-se por entre as folhas, aproximou-se do lugar em que estavam, pronta para picar a criança e matá-la com sua peçonha mortal.
Lobo, que a tinha pressentido, voltou-se de repente e atacou-a em botes furiosos.
Matou-a. Enquanto a serpente estava estrebuchando no chão, crivada de dentadas, o cão, que tinha sido picado, gemia, penetrado de dores lancinantes.
Pobre e fiel animal!
Minutos após, Lobo, rojando-se no chão, esgotado de forças, chegou até onde estava o seu amiguinho, lambeu-lhe as mãos carinhosamente e morreu num doloroso gemido.


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Ano de publicação: 1899
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2022)

A Iara (Conto do folclore brasileiro), de Francisca Júlia



A IARA
(Balada tupi)


Rio abaixo descia a veloz igara impelida pelo remo. Um moço tapuio, belo como os mais belos da sua tribo, robusto e valente, cantava à proa, a meia voz, uma canção melancólica, em que dizia os combates que ferira contra as tribos inimigas, as mágoas que sofrera longe dos seus, nas perigosas caçadas pelo sertão bravio.
A igara corria. As águas espumavam em torno.
A tarde ia descendo. Uma tristeza crepuscular invadia as várzeas. Pássaros selvagens recolhiam-se em bando, vagarosamente, as asas abertas, cortando o ar em longos e regulares giros.
O sol há muito tinha caído. A lua, do alto, espiava, destacando-se na transparência do azul como uma mancha luminosa.
"Tapuio, tapuio! volta a tua canoa, corta a correnteza das águas, foge e entra na taba dos teus pais antes que a noite chegue.
Durante a noite, sob a claridade pálida da lua, a Iara aparece à flor d'água. Ela tem os cabelos loiros como as barbas do milho; os dentes brancos como o granizo que cai com as grandes tempestades; os olhos azuis como o céu nas madrugadas do estio.
Não te aproximes dela, tapuio! Em seu palácio encontrarás a morte.
Foge, tapuio, foge!"
A Iara, à tona do rio, o corpo envolvido na onda dos cabelos de ouro, a cabeça airosa apoiada numa das mãos, tem os olhos fixos no céu, embevecida na contemplação dos astros.
Há um grande silêncio. As folhagens estão mudas; a viração que passa é tão leve, tão branda, que as roça apenas sem as agitar.
A igara continua a correr, rio abaixo, impelida pelo remo.
A Iara canta:
"Nunca olhos humanos fitaram beleza igual à minha. Minha boca é perfumosa como a flor do vale rociada da neblina matinal.
Todas as noites, à flor d'água, acordo o silêncio da mata com as sonoridades do meu canto. E quando o sono me vence e me vai obrigando a fechar as pálpebras, desço ao meu palácio de ouro, que fulgura no fundo do rio, onde se acumulam os maiores encantos da terra."
O tapuio apareceu.
Aproximou-se cada vez mais, os olhos presos na Iara, fascinados de admiração e espanto, deslumbrados de encantamento.
Prevendo o perigo a que se expunha e a morte horrível, tentou, com um movimento rápido do remo, voltar à proa da igara e fugir. Era tarde. Seus músculos estavam frouxos, seus braços pendiam amolecidos de cansaço. E a Iara foi-se chegando a ele, resvalando de onda em onda...

O tapuio resiste. Ela agarra-o, envolve-lhe o corpo na túnica longa dos cabelos, e leva-o para o fundo do rio. As águas abriram-se, espumaram, fecharam-se sobre os dois e foram escorregando pelas várzeas em flor. 


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Ano de publicação: 1899
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2022)

O Aleijadinho (Conto da Infância), de Francisca Júlia

 

O ALEIJADINHO

De quando em quando, nos dias de missa ou de festejos religiosos, enquanto o povo estava aglomerado em torno da igreja, o aleijadinho aparecia, arrimado a uma muleta, e ia implorando esmolas com o chapeuzinho no ar.
Todos o conheciam e davam-lhe pequenas esmolas, uma moeda, um pedaço de pão, gulodices, a que ele com sua vozinha simpática agradecia, dizendo:
— Deus lhe pague.
O aleijadinho morava no meio de uma floresta numa velha choupana coberta de telhas de zinco com seu pai, que há muitos anos gemia no fundo do leito, entrevado pela enfermidade.
O filho era o seu único amparo; levava-lhe a comida à boca, dava-lhe água, os medicamentos que lhe aconselhavam para suavizar-lhe as dores; e quando o sustento escasseava, lá ia a pobre criança para a povoação, arrastando-se pelas estradas.
Pedia esmola aos passeantes e tudo que lhe davam guardava numa sacola.
Entrava pelas casas de famílias e desde a entrada ia gritando:
— O aleijadinho!
As crianças corriam a recebê-lo, davam-lhe roupas novas, doces, e muitas invejavam a sua existência humilde, a coragem que tinha de caminhar pela floresta em noites escuras, sem medo aos lobos nem às feras.
Perguntavam-lhe se havia almas do outro mundo na escuridão da mata; a tudo o pobrezinho respondia sorrindo, e contava histórias curiosas de passarinhos, das tempestades do inverno, e, inteligente como era, inventava novelas de fadas, castelos encantados, para iludir a miséria da sua vida.
Tirava dos bolsos ovos de passarinhos, ninhos, pedras de varias cores, distribuía tudo entre as crianças, contando histórias muito bonitas a respeito de cada objeto.
Ia-se embora apressadamente, para que a noite o não surpreendesse em caminho, e, quando entrava na choupana, começava a mostrar ao pai, muito alegre, as esmolas que havia recebido.
E assim ia vivendo a miserável criança, de sofrimento em sofrimento, ignorante dos gozos da fortuna, mas tão resignada sempre, que nunca se lhe viu uma lágrima nos olhos nem um gesto de revolta na candura do seu rostinho.
Passado algum tempo, como o pobrezinho não aparecia mais na aldeia, todos começaram a pensar que as feras decerto o tinham devorado e ao seu velho pai, em alguma noite escura, no silêncio da floresta.
Houve nos corações das crianças um enternecimento geral.
Todos o choraram, lhe lastimaram a sorte, e muitas mãozinhas se ergueram ao céu, suplicantes, rogando a Deus repouso para a sua alma.


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Ano de publicação: 1899
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2022)

O Curandeiro (Conto da Infância), de Francisca Júlia

 

O CURANDEIRO

Cristo andava passeando em companhia de São José pelas ruas de uma aldeia, parando diante de cada porta a observar o trabalho de cada um.
Viu um ferreiro que dirigia imprecações contra o céu, porque o fogo da forja não era bastante forte para abrandar o ferro; um mercador sentado em uma pedra a contar o dinheiro ganho com usura; um ladrão que passava, de ar humilde de mendigo do templo, esfarrapado e imundo, ocultando sob os andrajos o produto do seu roubo; viu com horror alguns garotos apedrejando um velho estropiado; cães sem dono, magríssimos, uivando de fome pelas ruas, e lazarentos raspando as chagas com cacos de telha.
— Que gente ímpia! disse Jesus ao seu companheiro. São José abaixou o rosto, sem dizer nada, como se se sentisse envergonhado diante de tanta impiedade.
E foram caminhando, devagar, pelas tortuosas ruas da aldeia.
— Cada homem destes, falou Cristo, tocado de compaixão, se é rico, é perverso e cruel; se é pobre, é um revoltado da sorte, que vive a maldizer a pobreza. Parece que um gênio mau ou que a cólera divina derramou sobre esta miserável terra o aluvião de todos os pecados. Pobre gente!
— Bem difícil seria arrastá-la ao bom caminho.
— Impossível quase, murmurou Jesus; mas, enfim, para que se não diga que a nossa visita foi inútil e sem proveito, vamos ensinar a virtude com o bom exemplo ao primeiro que aparecer.
Nesse instante eles tinham passado diante de uma porta onde um curandeiro se anunciava com grandes gritos, dizendo-se milagroso.
Pararam.
Cristo ouviu o seu pregão e perguntou-lhe:
— Em que consistem as vossas curas milagrosas, e por que é que vos apregoais como o primeiro curandeiro do mundo? Que virtudes têm os vossos remédios e a vossa ciência? Que mágico vos ensinou tanta sabedoria? Mostrai-me vossas virtudes todas, para que eu vos acredite.
O homem começou a enumerar, com orgulho, as curas que praticara:
— Com óleo de oliva, a que misturei umas preparações, de que eu só guardo o segredo, curei um leproso em poucos dias; concertei a perna a um estropiado; dei vista a um cego e voz a um mudo; uma pobre mulher, que há muitos anos gemia no fundo do leito, ergueu-se e está hoje sã com os remédios que lhe dei. Tenho bálsamos para as feridas, óleos para as queimaduras, alívio para as dores, pós para as lepras e colírios para todas as doenças de olhos.
— Sois, na verdade, muito sábio; porém, por mais prodigiosas que sejam as vossas curas, nunca vos esqueçais de que o mundo é grande e nele devem haver homens de sabedoria igual ou superior à vossa.
— Igual, talvez; mas superior, não, afirmou com a natural soberba.
— Vejamos, pois, disse Cristo. Aqui está um homem (e apontou para o seu- companheiro) que, desde a infância, tem uma enorme chaga que lhe cobriu a perna inteira e o faz estorcer-se de atrozes dores. Vede se podeis curá-lo.
São José, que já estava prevenido ou tinha adivinhado a intenção do Mestre, ergueu a ponta do manto que o cobria e mostrou a perna, muito inchada e toda coberta de chagas vermelhas e roxas.
O curandeiro olhou com repugnância e untou a perna de São José com uns óleos frescos e perfumosos.
O Santo começou a gemer de dor, e grossas lágrimas lhe molharam as barbas.
O homem falou:
— Impossível curá-lo. Essas feridas são tão velhas que se radificaram por todo o corpo. Podeis seguir o vosso caminho, infeliz peregrino, que não encontrareis cura em parte alguma.
Cristo, então, disse-lhe:
— Vós nunca soubestes curar. O que não puderam fazer os vossos óleos, faço eu com um gesto.
Passou a mão de manso sobre as feridas de São José, e curou-as imediatamente.
O curandeiro caiu de joelhos, assombrado.
— Quem sois vós, senhor, que sabeis obrar tão grandes prodígios e milagres como estes?
— Um pobre peregrino, respondeu Cristo, com sua evangélica modéstia e religiosa humildade, que anda pelo mundo a aliviar as dores e sofrimentos humanos.


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Ano de publicação: 1899
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2022)

O Monge (Conto da Infância), de Francisca Júlia

 

O MONGE

Uns mercadores, com suas malas às costas, caminhavam em direção à cidade, para vender suas mercadorias. Mas a viagem tinha sido longa e eles estavam cansados.
Tinham atravessado campos, galgado montanhas e sentiam já tanta fadiga, que resolveram sentar-se sobre a relva para descansar. Mas o sol estava muito ardente e eles seguiram adiante. Entraram num bosque onde a sombra era fresca e em cuja entrada havia uma gruta de pedras brutas, iluminada de alvas estalactites.
Penetraram, não sem algum receio, cautelosos, porque podia ser um covil de malfeitores.
Tudo estava às escuras. Mas, logo que se habituaram às trevas s da gruta, viram um monge de joelhos, as mãos postas, a fronte erguida, absorvido nas suas preces.
— Monge, disse um deles; perdoa-nos ter-te interrompido nas tuas meditações. Entramos em tua habitação para te pedir abrigo contra os ardores do sol.
— Entrai, viajantes, respondeu o monge mal desperto das suas contemplações místicas Todos os peregrinos terão aqui seguro abrigo contra as inclemências do sol e contra as tempestades da noite.
Os mercadores agradeceram, e, como sentissem fome e sede, falaram:
— Na nossa longa e perigosa jornada a fome devorou nossas entranhas e a sede secou nossas gargantas; mas tu deves estar tão acostumado ao jejum, que em tua habitação nada pode haver.
— Nada há, de fato, pobres viajantes; mas o poder de Deus é infinito e a sua misericórdia é sem limites. Então, de um gesto, fez jorrar de uma fenda da rocha um grosso fio de água clara, onde eles beberam até à saciedade; e, arrancando do chão uns calhaus que se transformaram em pães, entregou-os aos peregrinos, dizendo:
— Tomai; cumpriu-se a divina vontade.
Os mercadores, homens materiais e rudes, tremeram de susto, receando algum sortilégio diabólico; mas, ao mesmo tempo, diante da religiosa bondade e aspecto humilde do monge, comeram.
E um deles falou:
— Monge, se tu estás revestido de tanto poder e podes, com um gesto apenas, fazer brotar a água e transformar em pães os calhaus brutos, por que não fabricas também o ouro para gozares as delicias da riqueza? E por que vives oculto nas trevas desta gruta, como uma fera, emagrecido pelos jejuns e cilícios?
— Que errada e falsa compreensão tendes da vida, meus amigos! Sabei que o ouro serve somente para corromper os sentimentos, envenenar a alma, e não poderá dar-me os gozos a que eu aspiro. Ao menos, na pobreza em que vivo e que desprezais, sem as preocupações que acarreta a fortuna e os pecados que ela desperta, posso mergulhar-me inteiramente em minhas preces e na contemplação da divindade.
Os viajantes agradeceram ao monge o generoso acolhimento, beijaram-lhe respeitosamente as mãos e partiram.


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Ano de publicação: 1899
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2022)

A Ovelha (Conto da Infância), de Francisca Júlia

 

A OVELHA
(Fábula)



A ovelha, um dia, muito triste por não ter forças para lutar com os cães que a mordiam, ou armas de defesa contra a ferocidade dos lobos, dirigiu-se a Júpiter e expôs-lhe suas queixas:
— Pai, todos os animais que vivem sobre a terra, desde o inseto ao paquiderme, têm meios de defender-se contra os ataques; e coragem para provocar as lutas. Eu, porém, sou tímida e indefesa: tudo me causa medo. Queria, pois, que me désseis uma arma qualquer.
Júpiter, tocado de piedade, perguntou-lhe:
— Queres um veneno oculto nos dentes, para dar a morte aos que te fizerem mal?
— Oh! não! respondeu a ovelha. Os animais venenosos são nojentos e causam medo a todos.
— Queres ter na boca duas fileiras de dentes afiados, como os leões e os lobos?
— Oh! não! Os animais carnívoros são tão odiosos e antipáticos!
— Queres saber arremeter, como os touros, com duas pontas na cabeça?
— Oh! não! Eu causaria terror aos outros animais, e não seria acariciada pelos pastores.
— Que queres, pois? gritou Júpiter, impaciente.
— Nada, senhor, nada quero. Prefiro viver assim, tímida e fraca, porém estimada e afagada por todos.


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Ano de publicação: 1899
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2022)

O Maníaco (Conto da Infância), de Francisca Júlia



O MANÍACO

Viam-no sempre por montes e vales, exposto à chuva que lhe encharcava as roupas, ou ao sol que lhe queimava a pele, curvado, com os olhos fixos no chão, como quem procura um objeto perdido.
Na primavera, quando os rosais da cerca estavam floridos, os campos verdes e os passarinhos alegres, cruzando-se no ar numa revoada feliz, o pobre rapaz passava, atravessava as campinas, subia as montanhas, indiferente à beleza da paisagem, os cabelos voando ao vento.
Quando se sentia muito fatigado, sentava-se na ponta de uma pedra e adormecia.
Alimentava-se de frutas silvestres, bebia água á nascente dos ribeiros, e, à noite, abrigava-se debaixo de uma árvore ou no fundo de uma gruta, como um animal selvagem.
Um camponês, que o conhecia, chamou-o um dia e perguntou- lhe com curiosidade:
— Ó rapaz! que é que andas fazendo pelos campos e bosques, todos os dias, exposto ao sol e à chuva?
— Procurando tesouros.
— E tens alguma esperança de achá-los?
— Sim, afirmou o moço com convicção, correndo os olhos pela extensão das campinas.
— É melhor, disse o campônio em tom de conselho, que mudes de vida; tu, nesta faina de procurar tesouros, tornas-te um homem completamente inútil, inapto para o trabalho. É melhor, pois, que te esqueças dos tesouros, que os não há, e procures outro gênero de vida em que aproveites a tua inteligência e o teu trabalho.
— Não, disse o maníaco, se há muitos anos dediquei minha existência à procura de tesouros, é porque tenho certeza de encontrá-los.
— Mas como?
— Uma noite, era eu pequeno ainda, estando adormecido em meu leito, apareceu-me uma fada em sonho, que me falou mais ou menos assim: "Tu estás destinado pela sorte a ser o homem mais rico do mundo, e cuja fortuna te facilitará os meios de vencer os maiores soberanos da terra, de conquistar reinos e mares e dominar sobre tudo com o poder do teu cetro. Legiões inteiras de soldados, vestidos de couraças e armados de lanças, te acompanharão nas conquistas; sobre os mares terás navios embandeirados, infindáveis domínios em terra, e um exército de lacaios, ricamente vestidos, que se hão de curvar, submissos, á voz do teu mando. Para isso, porém, é necessário que, logo que fiques homem, vás por campos e montanhas, planícies e vales, sem medo às tempestades nem às noites, em procura de um incalculável tesouro que a sorte destinou para enriquecer-te". Assim me disse a boa fada, com uma voz firme e segura, inspirada pela fatalidade do Destino.
Hoje sou um homem; cumpre-me obedecer-lhe; e, em quanto não encontrar a fortuna que se acumulou para o meu gozo, irei caminhando sempre, mundo fora, os olhos no chão, as roupas apodrecidas de uso, como um mendigo de estrada.
Dito isto, levantou-se, passeou a vista em torno, curvou a cabeça e partiu.
A noite tinha cabido. A lua, muito clara, apareceu entre as nuvens e inundou os campos com sua luz argêntea.
O maníaco foi seguindo.

"Infeliz rapaz!" pensou piedoso o camponês, acompanhando-o com os olhos. Quantos também não há no mundo que atravessam uma existência inútil, tão inútil talvez como esta, incapazes de trabalhar, esperando que a felicidade os venha procurar no sonho, como este louco que pensa encontrá-la no solo.


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Ano de publicação: 1899
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2022) 

O sino que anda (Conto da Infância), de Francisca Júlia

 

O SINO QUE ANDA
(Imitação de Goethe)



Era um dia uma criança tão inquieta e travessa, tão amiga dos brinquedos e da ociosidade, que não tinha paciência de estar por muito tempo ajoelhada na igreja, aspirando o perfume do incenso, sob a luz dos altares.
Quando chegava o domingo, à hora de ir fazer suas orações, achava sempre um pretexto para correr até ao campo, à procura das borboletas e de ovos de passarinhos.
Disse-lhe a mãe um dia:
— O sino chama-te, meu filho, o sino toca, o sino fala-te, o sino prescreve-te os deveres da religião e obriga-te a assistir às missas; e se continuares a fugir para o campo, um dia o sino há de descer da altura em que está e correr atrás de ti.
Mas a criança pensou:
"O sino está tão alto, badalando lá em cima, preso nas paredes da torre!..."
E seguiu adiante, correndo pelos atalhos e devesas, ávido de ar e de liberdade.
Mas que medo, meu Deus! que terror lhe arrepia os cabelos e lhe empalidece o rosto. Numa curva do caminho o sino aparece, andando como se tivesse pernas, a ralhar como se tivesse boca. A pobre criança, desesperada, corre de um lado para outro, tropeçando nas pedras, rasgando-se nos espinhos.
E o sino cai. O pobrezinho corre, corre sempre, toma a direção da igreja e entra, mal acordado do susto. Desde esse dia, quando chega o domingo, ou algum dia de festa, ele é o primeiro a ir à igreja, obedecendo ao primeiro toque do sino, sem ser preciso que ninguém o convide.


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Ano de publicação: 1899
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2022)

Anacreonte (Conto da Infância), de Francisca Júlia



ANACREONTE
Em Téos, na Grécia antiga, havia um poeta que se chamava Anacreonte.
Era velho, tinha os cabelos inteiramente brancos e as barbas aneladas e longas, que lhe cobriam o peito e lhe davam um aspecto simpático e venerando.
Era o homem mais feliz que havia. Como todos o amavam e o distinguiam com uma admiração sem limites, nada lhe faltava.
Sua habitação ficava à beira do mar, cujas ondas, na enchente, vinham até à sua porta, quebrando-se em espumas alvas.
Pela manhã, mal a aurora tinha nascido, as camponesas de Téos vinham em grupo trazer ao poeta o sustento do dia. Uma trazia um cântaro de barro cheio de leite gordo, outra um púcaro de saboroso vinho espumante e frutas de todas as qualidades; outra ainda um vaso de água pura para as abluções matinais do poeta. Depois untavam-lhe as barbas e cabelos com óleos aromáticos, perfumavam-lhe os pés com mirra sândalo, e esperavam, sentadas no chão, os agradecimentos do velho.
Anacreonte ficava em pé, majestoso na sua inspiração poética, e, com largos gestos e voz grave, ia cantando as odes que tinha composto durante a noite, fazendo-se acompanhar a uma lira de prata, cujas cordas desferiam os mais melodiosos acordes.
As raparigas subiam em seguida e atravessavam o campo em direção às suas casas, cantando as odes do poeta com suas vozes juvenis. Os camponeses, que não podiam ir fazer ao velho a visita matinal, porque os impedia o trabalho da lavoura, a criação das ovelhas e o fabrico do vinho, contentavam-se com vir ao encontro das moças, para ouvir dos seus lábios as últimas composições de Anacreonte.
Assim vivia ele, absolutamente feliz, querido e admirado por todos, preocupando-se apenas com seus versos, indiferente a outros afazeres.
Policrato, porém, tirano de Samos, curioso por conhecer o poeta, ouvir-lhe dos próprios lábios a poesia das suas odes, mandou chamá-lo.
Anacreonte, uma bela manhã, sobraçando a sua lira de prata encordoada de novo, com sua túnica de púrpura presa aos ombros, uma coroa de pâmpanos e heras em torno à fronte, embarcou numa galera, e partiu mar fora.
Policrato tinha ordenado que se preparasse um banquete real para festejar-lhe a recepção. Anacreonte apareceu.
Todos os que estavam ao redor da mesa, onde se ostentavam as mais extraordinárias iguarias, levantaram-se com as taças transbordantes e gritaram:
— Evohé! — que era o grito de satisfação dos gregos.
Anacreonte, então, em pé no meio dos convivas, admirável na sua roupagem de púrpura, empunhou o instrumento sonoro, arrancou um acorde e começou a entoar um hino de louvor a Policrato. Seus versos eram tão belos, tão inspirados, sua voz tão clara, que todos estavam suspensos de admiração, embriagados de poesia. Policrato aproximou-se do poeta, curvou-se em sinal de admiração ao seu gênio, deu-lhe uma bolsa cheia de moedas de ouro, e disse-lhe:
— Toma esta bolsa; é tua; contém uma fortuna. Quero que sejas o homem mais poderoso de Samos. Amanhã cantar-me-ás uma ode igual a essa.
Anacreonte agradeceu. À noite, quando se retirou para os seus aposentos, começou a pensar na fortuna que lhe pertencia, nas terras que havia de comprar à beira mar, plantadas de vinha, nas ovelhas brancas pastando pelos outeiros, no cortejo de escravos que havia de ter, na felicidade, enfim, que lhe dariam aquelas pesadas moedas de ouro. E não pode dormir, tal era a satisfação de que se achava possuído.
Pela manhã tinha um aspecto doentio, os olhos amortecidos.
Procurou Policrato e disse:

— Senhor! aqui está a vossa bolsa e o ouro que ela contém. Não a quero. Desde que a poesia bafejou minh'alma, ainda se não passou uma noite em que não compusesse uma ode; ontem, porém, a riqueza que me destes preocupou tanto minha imaginação, que não consegui dormir nem compor a ode que me pedistes. Adeus. Quero partir para Téos, pobre como vim, porém feliz na minha pobreza. Para que servem fortunas? Nada me falta: tenho o bom leite, o excelente vinho, a água fresca para as minhas abluções e a amizade dos meus vizinhos. Esta é a minha riqueza. Adeus. 


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Ano de publicação: 1899
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2022)

Rei Fantasma (Conto da Infância), de Francisca Júlia

 

REI FANTASMA
(Balada alemã)



Quem é que cavalga a esta hora, na escuridão da noite, sob a chuva que cai e o vento que uiva? As árvores agitam a folhagem descabelada, arrepiadas do terror da noite.
O velho passa apressadamente, apertando nos braços o filhinho amado, fazendo-lhe com o rosto e com as mãos um carinhoso abrigo.
— Oculta-me o rosto, pai.
— Para que queres que te oculte o rosto, filho?
— Não vês o rei envolvido em seu manto de púrpura, brandindo o cetro como um louco?
— Não tenhas medo, filho, é uma nuvem e mais nada; é uma nuvem que estremeceu à fúria do vento e se desfez em água.
"Linda criança, vem comigo! vamos gozar as riquezas do meu reino, embriagar a vista no esplendor do meu ouro, correr os meus campos onde há flores perfumadas e árvores vergando ao peso dos frutos".
— Pai, pai! não ouves o que o rei me promete em voz baixa?
— Não é nada, meu filho; é o vento brando que murmura nas ramas e que resvala nas folhas, e mais nada. Filho, não tenhas medo.
"Criança linda, queres vir comigo? As minhas filhas são claras como a neve e têm cabelos louros como o sol; elas te conduzirão à dança noturna em companhia das fadas do bosque; elas te ensinarão brinquedos nunca vistos e te farão passear numa barquinha azul sobre as águas do lago. E tu hás de adormecer ao seu canto e sonhar sob seus afagos".
— Pai, pai! Não vês as filhas do rei dançando lá em baixo na planície, vestidas de branco, com os rostos escondidos nos cabelos?
— Meu filho, meu filho, eu vejo bem: são os salgueiros distantes, embranquecidos de neve, que o vento agita e balança, e mais nada.
"Amo-te, bela criança; gosto do teu rosto pálido, dos teus olhos azuis como o céu e dos teus cabelos negros como a noite; vem! quero levar-te comigo para deslumbrar-te nas riquezas do meu reino. Se tentas resistir, arranco-te dos braços do teu pai".
— Pai, pai! o rei me leva, o rei me arranca, o rei me mata. Livra-me, pai! ele é tão mau, ele é tão grande, ele é tão feio!
O pobre pai treme; fustiga o cavalo; atravessa a escuridão da noite sob a chuva que cai e o vento que uiva; aperta tanto o filho contra o peito que o sufoca... Muito tempo depois, quando entrou em casa, tinha nos braços a criança morta.


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Ano de publicação: 1899
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2022)