sábado, 11 de dezembro de 2021

As roupas novas do imperador (Contos de Fadas), de Hans Christian Andersen

 

AS ROUPAS NOVAS DO IMPERADOR
 

Há muito, muito tempo, vivia em um reino distante um imperador vaidosíssimo. 

Seu único interesse eram as roupas. Pensava apenas em trocar de roupas, várias vezes ao dia; desfilava vestes belíssimas, luxuosas e muito caras para a corte. 

Um belo dia, chegaram à capital do reino dois pilantras, muito habilidosos em viver às custas do próximo. 

Assim que os dois souberam da fraqueza do imperador por belas roupas, espalharam a notícia de que eles eram especialistas em tecer um pano único no mundo, de cores e padrões deslumbrantes. E — o mais impressionante, segundo eles: as roupas confeccionadas com aquele tecido tinham o poder de serem invisíveis para as pessoas tolas, ou que ocupassem um cargo sem merecê-lo. 

O imperador logo se entusiasmou com a ideia de ter roupas não só bonitas, mas também úteis para desmascarar os bobos e os que não mereciam cargos na corte. E tratou de mandar chamar tão habilidosos tecelões. 

— Ponham-se logo a meu serviço. Quero uma roupa sob medida, a mais linda que já tenham feito. 

— Majestade, necessitamos de uma sala, de um tear, de fios de seda e de ouro e, principalmente, de que ninguém nos incomode. 

Foram logo atendidos. Uma hora depois estavam diante do tear, fingindo tecer sem parar. E assim continuaram por muitos dias, pedindo cada vez mais seda, mais ouro... e mais dinheiro, é claro! 

O imperador estava curioso e um dia resolveu enviar seu velho primeiro-ministro para inspecionar a obra dos tecelões. 

"É ele um ministro sábio e fiel", pensou o rei. "Com certeza, conseguirá ver esse tecido tão extraordinário e nada me esconderá." 

Mas, quando o velho ministro chegou em frente ao tear, nada viu. Preocupou-se. Ficou em dúvida. 

— Mas isso não significa que eu não seja digno do cargo que ocupo — disse a si mesmo, aflito. 

Aos tecelões, porém, que lhe perguntavam com insistência se o padrão do tecido era de seu agrado, se as cores se harmonizavam, ele respondeu entusiasmado: 

— Mas claro! É magnífico. Nunca vi coisa igual. 

O ministro levou ao conhecimento do imperador os progressos da confecção e, por precaução elogiou o extraordinário bom gosto dos dois profissionais. Por nada neste mundo admitiria ter olhado para um tear vazio. 

Na cidade já não se falava em outra coisa, senão da nova roupa do imperador e de seus poderes mágicos. Dizia-se que custaria uma fortuna, mas que bem valia o preço: poderia desmascarar ministros e secretários! 

Na corte, em compensação, muitos impostores e aproveitadores do cofre do reino não dormiam tranquilos e aguardavam com temor o momento em que o imperador iria, enfim, vestir a tão famosa e denunciadora roupa. 

Transcorreram mais cinco ou seis dias, e o imperador, que não aguentava mais esperar, resolveu ir em pessoa visitar os tecelões. 

Com uma comitiva de guardas e escudeiros, e acompanhado por seu fiel primeiro-ministro, que tremia de medo, foi ver o trabalho dos dois impostores, sendo recebido com enorme solenidade e muitas explicações. 

— Nunca teríamos ousado esperar tanto, Majestade. Sua visita e sua satisfação são o maior reconhecimento ao nosso trabalho... Aprovando Vossa Majestade nosso humilde trabalho, ficaremos extremamente lisonjeados. Será muita honra. Após tanta bajulação, o imperador e sua comitiva foram conduzidos à sala do tear. 

— Majestade, observe a extraordinária beleza e perfeição do desenho — disse o velho ministro com voz trêmula. 

O imperador permanecia calado: estava assombrado! Ele não via nada, apenas o tear vazio, totalmente vazio! Isto queria dizer que era um bobo, ou não era digno de ser imperador. 

"Coitado de mim!", pensou. "Nada poderia ser pior, tenho que dar um jeito para não descobrirem a verdade." 

Resolveu reagir e afastar o perigo de um possível desmascaramento. Aproximou-se do tear, segurando seu monóculo, fingindo admirar o tecido invisível. 

— Hein?... Sim, é claro... É realmente uma beleza. Um trabalho e tanto. E a comitiva toda fez um coro de elogios e mais elogios. 

Nenhum membro do séquito iria confessar não estar vendo nada de nada, pois ninguém queria passar por tonto, ou ser considerado indigno do cargo que ocupava. 

Os espertos tecelões sorriam, satisfeitos. O temor dos poderosos representava mais seda, mais ouro e mais dinheiro. 

— Vossa Majestade, então, aprova o nosso trabalho? — perguntaram eles, com malícia e ironia. 

O imperador disse que estava satisfeito e, para demonstrar seu reconhecimento, presenteou os dois pilantras com um saco cheio de ouro. 

Mas continuava preocupado e perplexo. Seria indigna sua realeza? Seria ele um incompetente? 

— Majestade — falou o primeiro-ministro. — Por que com esse tecido não manda confeccionar uma roupa especial para o torneio do próximo domingo? 

— Sim, sim, claro — resmungou o imperador.— Estou mesmo querendo uma roupa nova para o torneio. 

Foi dada nova incumbência aos tecelões, que pegaram a fita métrica e tiraram as medidas do rei, fingindo entender do ofício. 

— A cauda, Majestade, deverá ser muito longa? 

— Claro que sim, muito comprida. Arrastando-se por metros atrás de mim. 

— E o laço? Prefere de veludo ou de cetim? 

— Podem sugerir, confio no gosto de vocês.  

O imperador voltou ao palácio transformado, e os dois impostores continuaram a trabalhar na frente do tear vazio. Nem sequer pararam durante a noite. Empenhados na farsa, trabalhavam à luz de vela. 

Alguém que, por curiosidade, foi espiar por uma fresta da porta, viu-os atarefados, cortando o ar com uma grande tesoura e costurando com uma agulha sem linha. 

Dois dias depois, na manhã do domingo, os tecelões se apresentaram na corte, levando a roupa para o torneio. Mantinham os braços levantados, como se estivessem segurando algo muito delicado e volumoso. Ninguém via nada — pois nada havia para ser visto —, mas ninguém, também, ousou confessar. Quem assumiria ser tolo ou incompetente? 

Os dois charlatões correram ao encontro do imperador, assim que este apareceu na porta do salão. 

— Vossa Majestade gostaria de vestir suas roupas novas agora? — perguntou, irônico, o primeiro. 

O imperador disse que queria vesti-las logo. Foi para a frente de um grande espelho e tirou as roupas que vestia. Os tecelões fingiram entregar ao imperador primeiro a túnica, depois a calça e, enfim a capa com sua longa cauda. 

O imperador, meio despido, sentia muito frio. Até espirrou, mas não podia nem pensar em perguntar se continuava em trajes íntimos. 

— Não é um pouco leve demais este tecido? — arriscou. 

— Majestade, a leveza é uma de suas qualidades mais apreciadas. Nem uma aranha poderia tecer uma tela tão impalpável, apesar de termos empregado muitos fios de ouro. 

E o imperador se convenceu de que estava vestindo uma roupa fabulosa, embora o espelho refletisse apenas a imagem de um homem de cueca e camiseta. 

Em volta dele, os cortesãos se desmanchavam em elogios à nova roupa. Finalmente, a toalete terminou: tomara banho, perfumara-se, penteara-se e vestira a tão falada roupa. 

No pátio do palácio já estavam a postos quatro soldados em trajes de gala, segurando um dossel sob o qual o imperador se protegeria até a praça dos torneios. 

— Vossa Majestade está pronta? A roupa é do seu agrado? — Perguntou um dos charlatões. 

— Não deseja mais nenhuma mudança? — Perguntou o outro trapaceiro. 

O imperador deu mais uma olhada no espelho, perplexo e desconfiado, e respondeu: 

— Claro. Podemos ir. 

Os criados de quarto ficaram fingindo recolher do chão a cauda do manto real, os soldados seguraram bem alto o dossel, e o cortejo começou a caminhar. 

Ao longo das ruas uma multidão estava à espera do cortejo, a fim de admirar as fabulosas roupas do imperador. Nas janelas e nas sacadas os curiosos se espremiam, e os comentários eram intermináveis. 

— É a roupa mais linda de todo o guarda-roupa imperial. 

— Que luxo, que elegância! 

Naturalmente, ninguém via a roupa tão comentada, mas não iria confessar isso, pois correria o risco de passar por bobo ou incompetente. 

O cortejo já tinha atravessado meia cidade, chegando próximo à praça dos torneios. 

De repente, um menininho que conseguira um lugar bem na frente, gritou, desapontado: 

— O imperador não está vestido. Como é ridículo, assim quase pelado! Cadê as roupas novas? 

Muitos o escutaram, alguém repetiu o comentário. 

— Um garotinho está gritando que o imperador está sem roupas... 

— Oh! É a voz da inocência! Criança diz tudo que vê. As palavras, primeiro murmuradas, aumentaram de volume e agora eram ditas aos brados pela gente do povo, que ria até não poder mais. 

O imperador escutou e ficou corado como um tomate, pois a cada passo que dava, se convencia de que aquela gente tinha razão e que ele tinha sido redondamente enganado e que, na verdade a tão elogiada roupa não existia. Mas, e agora? Faria o quê? 

Continuou a caminhar, todo orgulhoso, como se nada de estranho ocorresse, acompanhado pelas gargalhadas cada vez mais intensas de seus súditos.

 Os dois charlatões nunca mais foram vistos. Fugiram com todo o ouro, e o imperador aprendeu que a vaidade é a pior inimiga do reino.


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Fonte:
"Contos tradicionais, fábulas, lendas e mitos": Ministério da Educação - Fundescola - Projeto Nordeste - Secretaria de Ensino Fundamental. Brasília, 2000 - Volume 2. (A imagem que acompanha o texto, não se inclui na referida obra).

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