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domingo, 12 de dezembro de 2021

João no auge da alegria (Contos de Fadas), de Irmãos Grimm

 

JOÃO NO AUGE DA ALEGRIA


Era uma vez um rapaz que dava pelo nome de João e que esteve a servir durante sete anos num lugarejo de província. Ao cabo desse tempo, despediu-se do patrão e disse-lhe:

— Patrão, terminou o meu tempo de serviço para que fora chamado, mas, desejando regressar para casa de minha mãe, precisava que me pagasse o meu salário.

— Como foste sempre fiel e honesto — respondeu o patrão — mereces boa paga; e, pronunciando estas palavras, deu-lhe uma barra quase tão grande como a cabeça do seu antigo criado.

João tirou o lenço da algibeira, embrulhou nele a barra, pô-la aos ombros e meteu pernas a caminho em direitura à casa da mãe. Andando sempre, ainda que custando-lhe a andar, por causa do peso do fardo, viu passar a seu lado um viandante trotando satisfeito num bonito e fogoso corcel.

— Que bom há de ser andar a cavalo! — exclamou João em tom alto. — Aquele homem vai ali comodamente sentado, não dá topadas nas pedras, não estraga as botas e anda sem que dê por isso.

— Mas olha lá, ó rapaz — respondeu o viandante que lhe ouvia a exclamativa — por que é que vais a pé?

— Porque assim me é necessário — tornou João. — Levo uma trouxa muito pesada que tem de ir para casa; é ouro, é certo, mas pesa-me como chumbo e quase me custa levantar o pescoço!

— Queres tu entrar numa combinação comigo? — aventurou o cavaleiro, que fizera estacar o animal. — Faze troca: eu cedo-te o meu bonito cavalo dando-me tu a barra de ouro!

— Com o máximo prazer! Advirto-o, porém, de que o carrego é pesado!

O viandante depressa se desmontou do ginete, ajudou João a montar-se e em seguida tomou a barra, dizendo ao ingênuo moço, enquanto lhe dava as guias:

— Assim que desejes andar tão veloz como o vento, basta dares um estalido com a língua e gritares: upa, upa!

João ficou louco de contente, apenas se viu escarranchado no cavalo, e partiu a rápido galope. Ao fim de certo tempo, lembrou-se de ir mais depressa ainda, e, dando um estalido com a língua, incitou: upa upa! O animal, compreendendo a indicação, largou numa corrida desenfreada, dando grandes upas e tais foram eles que o alegre João, não podendo suster-se no dorso do animal, caiu estatelado no meio da estrada, quase à beira de um poço. O cavalo continuou a correr, mas um aldeão que vinha em sentido inverso, trazendo uma vaca, agarrou-o pela rédea e assim o levou para junto de João que, levantando-se, estava a ver se havia sofrido algum desastre com o trambolhão.

— Olha que asneira, montar a cavalo! Arrisca-se a gente a deparar um animal como este que nos atira de pernas ao ar! Nunca mais caio em outra. Agradeço o seu favor, mas não me fale no cavalo; se fosse uma vaquinha, isso então era outro cantar; basta levá-la diante de si, com certo jeitinho; e não é só isso: dá também o leite com que se faz a manteiga e o queijo que nos sustenta. Que não faria eu para assim possuir um animal!

— Se faz nisso muito empenho — alvitrou o aldeão eu não ponho dúvida em a trocar pelo seu cavalo.

João açambarcou logo a ideia, cheio de satisfação; o aldeão montou o animal e depressa se eclipsou.

João tocou a vaca, que ia na sua frente muito devagar, enquanto ia magicando nas vantagens da troca que acabara de fazer:

— Desde o momento em que me não falte uma fatia de pão, e com certeza não será isso o que me há de faltar, posso, quando a fome me aperte, comer manteiga ou queijo, se tiver securas, munjo a vaca, e bebo um excelente leite. Que mais podes ambicionar, ó Janeco?

Ao acercar-se de um albergue, parou e querendo possuir alimento para sempre, deu cabo de toda a comida e gastou os derradeiros escudos numa cerveja. De seguida, tornou a pôr-se a caminho da casa precedido pela pachorrenta vaca.

O sol estava a pino e escaldava o rapaz e João, encontrando-se num sítio desarborizado, sentiu tanta sede que se lembrou de beber leite; para esse fim, amarrou a vaca a uma sebe e, descarapuçando-se, começou a mungir o animalejo, mas por mais esforços que empregasse não conseguiu uma gotinha de leite. Como era leigo no assunto, magoou a vaca que, com a dor, lhe deu um coice que atirou longe João, que com a dor desmaiou.

Por felicidade, acercou-se um homem que levava, num carrinho de mão, um porco ainda pequeno.

— Que diabo foi isso? — perguntou o homenzinho, ajudando-o a pôr em pé.

João narrou-lhe o sucedido; o homem do porco ofereceu-lhe a borracha, dizendo-lhe:

— Ande, beba-lhe um gole para o pôr firme! E quer saber? A vaca está velha; boa apenas para puxar a uma carroça ou então para ir para o matadouro. Por esse motivo não é para admirar que lhe não conseguisse tirar leite.

— Oh com a breca! — exclamou João, arranjando o cabelo que se havia emaranhado com a queda — Quem o diria! O que é verdade é que, matando-se, a vaca ainda alimenta muita gente, mas como acho a carne pouco saborosa, não me servia. Agora se fosse um porquito! Isso era ouro sobre azul! Eu então que sou doido por chispe com feijão branco e chouriço de sangue!

— Ah, sim?! — lembrou o homem — Então tome lá o porco em troca da vaca!

— Deus o ajude! — aceitou João dando a vaca; puxou o porco pela corda que o segurava no carrinho.

À medida que ia andando, ia pensando, que tudo lhe corria em maré de rosas; mal tinha uma contrariedade e logo lhe desapareceu. Nisto dá de rosto com um rapazinho que levava debaixo do braço um gordo pato. Deram-se os bons dias e começaram de conversa. João narrou os seus feitos, gabando-se da sua ventura; em compensação, o rapazito disse que o pato era uma encomenda para um batizado que tinha lugar na próxima localidade.

— Tome-lhe o peso — aconselhou o rapazelho, agarrando o pato pelas azas — Pesa bem, não é assim?! Não é caso para espantos, pois há mais de dois meses que foi para a engorda. Quem o cozinhar pode gabar-se de apanhar uma excelente enxundia!

— E é verdade que sim! — apoiou o nosso João. — Está gordo que é uma beleza! Contudo, o meu porquinho também não está mau!

O rapazito calou-se, mas não fazia outra coisa senão olhar para um lado e para o outro inquieto; em seguida, meneando a cabeça, disse: 

— Quer saber uma coisa? Roubaram não há muitas horas um porco a uma das autoridades da terra por onde eu agora fiz caminho. Está-me cá a parecer que é esse mesmo, sim, quase que ia jurar! Que mau bocado lhe fariam passar se o vissem com ele. O menos que lhe faziam era metê-lo numa enxovia muito escura!

João, muito assustado, exclamou:

— O meu amigo é que me pode valer nestes apuros! Desde que conhece os cantos à vila, nada mais fácil que ocultá-lo; dê-me o pato que lhe cedo por troca o porco.

— Corro grave risco com a transação — hesitou o moço — mas para o livrar das mãos da justiça, aceito-a!

Agarrou a corda e, puxando pelo porco, depressa se esgueirou por um atalho. O nosso herói, descuidado e alegre, continuou a andar, raciocinando:

— Fazendo bem as contas, eu ainda ganho com a troca: a carne do pato é muito saborosa e com as penas faço uma almofada.

Depois de haver transposto a derradeira localidade antes de chegar à sua aldeia natal, notou um amolador parado com a sua roda que fazia girar cantando.

João estacou e ficou a olhar para o que o homem estava fazendo; em seguida, dirigiu-lhe a palavra.

— Pela sua alegria se vê que tudo lhe corre no melhor dos mundos possíveis!

— Certamente, todo o ofício é ouro em fio, um bom amolador anda sempre endinheirado. Onde comprou esse belo pato?

— Comprar não comprei... foi uma troca que fiz! troquei-o por um porco.

— E o porco?

— Foi em troca de uma vaca!

— E a vaca?

— Trocada por um cavalo!

— E o cavalo?

— Por uma bola de ouro do tamanho da minha cabeça!

— E esse ouro?

— Foi a paga que recebi de sete anos de serviço

— Sim, senhor! — exclamou o amolador. — Não se perde! Se não mudar de táctica ainda há de juntar muito dinheiro.

— Parece que sim! — retorquiu João. — Que hei de agora fazer para o conseguir?

— Faça-se amolador. É-lhe necessária apenas uma pedra de amolar... o resto depois vem com o andar dos tempos. Tenho aqui uma; já está um pouco gasta, mas para lha vender não, troco-a pelo pato. Convém-lhe?

— Se convêm! — aceitou logo João. — Se suceder, como diz, que nunca me há de faltar dinheiro, serei um rei pequeno, sem cuidados, sem ralações e sem trabalho!

Entregou em seguida o pato ao amolador, que lhe deu uma pedra de amolar e uma outra que apanhara do chão.

— Olhe — disse para o herói do conto — aqui tem mais uma; esta é magnífica para fabricar uma bigorna e endireitar pregos. Tome sentido nela.

João tomou as duas pedras e lá se foi muito contente, com os olhos brilhando de alegria.

— Nasci dentro de algum fole com certeza; pensou de si para si — tenho sorte em tudo!

Entretanto como já andava desde manhã sentiu-se fatigado; estava com fome, mas nada tinha com que a matar, por ter comido todo o farnel quando da troca da vaca. Custou-lhe a andar e volta e meia tinha que parar para descansar; as pedras faziam-lhe muito peso e disse com os seus botões que era bem bom que não as levasse, pois que lhe impediam andar mais ligeiro. Arrastando-se conforme pôde, chegou próximo de uma fonte ficando contente por encontrar com que molhar as goelas e criar alento para a caminhada.

Não querendo estragar as pedras, pô-las no rebordo da fonte e curvou-se para encher o barrete da límpida água que corria da bica; mas, tocando-lhes sem dar por isso, as pedras rebolaram e caíram com grande ruído dentro d'água.

João, assim que as viu desaparecer, saltou de contentamento e, ajoelhando-se, agradeceu a Deus, com os olhos marejados, a mercê que lhe havia feito de o livrar daquele peso.

— Era esta a única coisa que me incomodava! Não creio que haja rapaz mais feliz do que eu!

E de coração ao largo, não possuindo mais coisa alguma, pôs novamente pernas a caminho e só parou quando topou com a porta de casa de sua mãe.

 

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Fonte:
Tradução de Henrique Marques Júnior: "Pérolas e Diamantes". Irmãos Grimm (1908).
Pesquisa a adequação ortográfica: Iba Mendes Editor Digital. São Paulo, 2021.