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terça-feira, 14 de dezembro de 2021

A Rainha de Sabá (Conto Poético), de Henrique de Vasconcelos

 

A RAINHA DE SABÁ 

Balkis esperava. Entre as suntuosidades do seu palácio de Mareb, a Rainha vivia, solitária, escondida, só com a sua beleza.

Em vão os povos e os senhores, ouvindo falar da imaculada formosura acorriam dos remotos reinos onde a sua lei governava, Sabá, Marebe e Iêmen, e, defronte do palácio imenso e fechado, pediam para ver a deslumbrante adolescente. Em vão os sacerdotes quiseram ver os olhos puros. Ninguém o conseguiu.

Apenas uma velha ama a vira nua, quando menina. Era como um lírio o seu corpo.

Sete aposentos eram os da Rainha. E cada uma das sete portas uma chave de ouro fechava. E no último, a rainha vivia. Grandes espelhos de cobre mandavam-se uns aos outros, como ecos, a imagem quase divina. E Balkis, apenas vestida de joias, passava os dias na contemplação dos intactos esplendores da sua adolescência.

Entravam pela janela que abria sobre o jardim fechado e calado, os pavões brancos e os pavões policromos. Aqueles formavam, estendendo as caudas, pequenas luas macias; estes faziam fulgir constelações, doçuras de veludos, coruscantes gemas. E Balkis era mais branca do que os pavões brancos, mais brilhavam as suas cinturas e manilhas pesadas do que as caudas cintilantes.

Nas noites escuras saia ao jardim. Deixava cair entre as moitas de flores, a cintura, as manilhas, os anéis e o diadema. Soltavam-se-lhe os cabelos de ouro, que eram, no ar azul escuro, como um cometa pálido; e nua, como uma flor graciosa, dirigia-se para o tanque de mármore onde adormecera a água perfumada. Os seus pés, ao entrar no tanque, eram como um raio de lua...

Deitada no tanque, os braços abertos, as mãos à tona d'água, como dois lotos brancos, Balkis espreitava o céu onde se movia o dourado formigueiro de astros. As estrelas vinham reproduzir-se na água, como molhadas flores de ouro, em indecisos contornos; uma lhe brincava no seio, quase à flor d'água. Era como uma joia a correr, com o movimento do corpo. Às vezes, num gesto mais largo, a gema caía, para outra vez voltar, numa festa, a percorrer todo o corpo branco, que era, na água escura, polvilhado de brilhos, como um nenúfar enorme, em que se agitassem grandes abelhas fulgentes.

Depois, quieta, ouvindo somente, de quando em quando, o ruído ligeiro das flores que tombavam, murchas, na areia discreta do jardim, os braços a apoiar a cabeça, como um diadema feito de duas hastes de açucenas, a Rainha pensava.

E esperava...

Balkis esperava o noivo que havia de vir.

De todas as partes, chamados pela fama da sua beleza, dos seus tesouros ou dos seus exércitos, tinham acorrido os príncipes da Ásia. Poetas uns, avaros outros, na maior parte guerreiros, todos vinham em cavalgadas surpreendentes, cobertos de ouro e de joias. No seu trono altíssimo de ouro e prata, invisível, mas a todos vendo, a Rainha ouvia as imagens aladas que fulgem e perfumam, a descrição dos poços profundos, abarrotados de barras de ouro, de vasos de cobre, de moedas de todos os feitios, de pedrarias de todos os brilhos; diziam-lhe histórias compridas de cruentas façanhas, batalhas mortíferas em que as flechas e as espadas, a bater contra os escudos, produziam chispas de incêndio, contra os corpos, rios de sangue. Os guerreiros, com o desejo de aumentar os exércitos belicosos, aprendiam uma eloquência calorosa. Eram os que mais falavam, regozijando-se com a recordação das chacinas. Mas a um sinal da Rainha iam-se, despedidos, os poetas com as lágrimas nos olhos, as cabeças curvadas, como sobre o peso das mitras, os avaros e os guerreiros batendo com força, nos ladrilhos policromos, as sandálias ligeiras.

E Balkis voltava para o recuado aposento do seu palácio populoso. Ali, só, admirava nos espelhos a gracilidade do seu corpo esbelto e firme. Deixava cair sobre o corpo branco, como uma flor inundada de sol, o cabelo louro.

Depois de admirar toda a sua beleza, Balkis dizia-se:

— Aquele que eu amar possuir-me-á intacta, como uma flor que vive no meio de uma floresta guardada pelos Medos. Ninguém lhe aspirou o perfume, ninguém viu a cor deslumbrante, ninguém a maculou. Nesta terra cheia de sol, em que as cores não brilham, ardem, e as caçoletas não perfumam, estonteiam, eu sou branca, o sol nunca me viu. Entre os muros dourados dos meus sete aposentos, a vida é quieta e fácil!

Balkis esperava.

Os meses passavam ligeiros. No jardim fechado, as rosas desabrochavam, perfumavam e morriam. Outras vinham com igual brilho e igual frescura, enormes rosas escarlates, como bocas em que os beijos deixam feridas, do desejo intenso. Balkis conservava, no seu corpo núbil, intactos, os esplendores de uma adolescência eterna. Untava-se com óleos, alisava com pentes de ouro os seus cabelos de ouro. Vestia-se apenas com joias, joia ela mesma. E nos seus olhos azuis, largos e serenos, brilhava a mocidade.

Não a viam olhos humanos. Nenhum desejo maculou o seu corpo.

E quando Salomão, filho de Davi, que no seu palácio de Jerusalém tinha mais concubinas que de estrelas há no céu numa noite de lua, quando Salomão a veio buscar, ela entregou-se-lhe, pura, radiosa e imaculada, como uma flor crescida numa floresta insondável, cujo perfume ninguém aspirou.

Virgens, guardai para o desconhecido Amado, o vosso corpo e a vossa alma, como, se é verdade a lenda árabe, para Salomão, filho de Davi, guardou Balkis, Rainha de Sabá!


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Origem: Portugal
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)

A princesa perdida (Contos Palacianos), de Henrique de Vasconcelos

 

A PRINCESA PERDIDA 

Naquela serena tarde de primavera, a princesa descera com as pequeninas aias e a camareira-mor as escadas de mármore branco e de mármore róseo do suntuoso palácio real.

Era numa corte de complicada pragmática. Os movimentos eram feitos consoante regras antigas; cada passo, cada mesura, cada sorriso, vinham marcadas no grosso livro que um mordomo-mor coligira, a exemplo do que fizera um imperador bizantino.

Apesar disso, porém, na corte esplendida havia um pouco de mocidade. E detrás dos leques de varetas rendilhadas, os lábios abriam-se em sorrisos os olhos franziam-se, quando estava distante a hirta, camareira-mor.

Os bailes tinham solenidade como os ofícios divinos; mas as cores frescas das raparigas, a ligeireza com que dançavam, a graciosidade que florescia nas suas atitudes rapidamente desmanchadas, logo substituídas, davam-lhes o ar de festas.

No grande palácio brilhante, as gentes andavam lentamente, como em procissão. No rosto do mais alegre era preciso espelhar-se, sombria, a tristeza que emagrecia a face pálida do rei. Era mister que ninguém perturbasse, com o tinir fresco de um riso, a dor real. Se alguma vez as donzelas deixavam passar o riso através das rendas finas dos seus leques, logo a camareira-mor intervinha, severa, a repreender. Nos tapetes morriam os sons dos passos; os grossos reposteiros abafavam o ruído das vozes. O silêncio era eterno, como essa grande e aniquiladora mágoa que abatera a vigorosa mocidade do Rei.

Em tempo, o palácio vibrara com o clamor das festas; as músicas saltitantes riam nas amplas salas. Os vestidos claros, em cujos decotes os peitos brancos se mostram, sublinhavam a alegria. Um bobo pequenino e monstruoso punha um chocalhar de guiso em cada frase. E junto da Rainha, loira, pálida, delgada, o Rei também sorria, a olhar a flor preciosa e frágil que pelo braço levava, em movimentos musicais, como uma ave.

Junto à sua frescura luminosa, as joias pareciam flores. E o diadema pesado, sobre os cabelos louros, era como uma aureola maior nessa cabeça fina.

Ela também sorria, olhando os olhos escuros do Rei. E pela boca vermelha havia como um palpitar de beijos. A festa continuava. Havia no ambiente claro de tantas luzes, tantas joias, tantos olhos contentes, uma alegria maior. Vaporizavam-se os movimentos. As rendas tremiam nos vestidos das mulheres, nos gibões de seda dos gentis-homens. As conversas de amor faziam arfar os seios... O Rei e a Rainha continuavam a sorrir-se, como dois amantes rústicos, que se encontram na vinha, por um suave outono.

Uma noite, porém, a dor entrou nesse palácio claro. Ligeiros, para não fazer ruído, como sombras, os cortesãos, as damas de honor, as aias, passavam, murmurando rezas, ou trocando, baixinho, as impressões. Era como um ciciar leve de brisa sobre um campo de flores. Os vultos cruzavam-se:

— Então?

— Na mesma...

— Impossível salvar-se...

— O físico não atina com o remédio...

Era a Rainha, que, como certos arbustos que morrem, depois de florir, finava-se ao dar à luz a pequena princesa.

A dor trágica e calada do moço Rei! Nem uma palavra se lhe ouviu da boca crispada. Nem um grito na lutuosa câmara onde carpiam as senhoras da corte. De joelhos junto ao leito magnífico, onde se postara depois de ter cerrado os largos olhos garços, o Rei chorava em silêncio. Os frades diziam monotonamente, como um esvoaçar de insetos, as rezas rituais. Um ou outro soluço, a desolação de um ai, cortavam a fúnebre quietude; mas o rei, entre as suas as mãos finas e amarelecidas da Rainha, não tinha um grito, nem uma palavra. Nos lábios da morta ainda havia o sorriso, esboçado a olhar para o marido...

O Rei mandou retirar a todos do quarto. Quis ele próprio vestir aquela que tanto amara. Beijou-lhe os olhos de pálpebras azuladas, beijou os cabelos, que na imprecisa penumbra, tinham um brilho de ouro... Outra vez caiu de joelhos.

Então as palavras de dor, abundantes, saíram dos lábios tanto tempo represos. Disse-lhe o grande amor e a grande mágoa. Prometeu-lhe viuvez eterna; que a sua alma se conservaria fechada, como um relicário, a guardar a imagem quase divina da mulher primeira amada, única...

Longo tempo se conservou, as mãos frias da morta entre as suas, no quarto silencioso, onde apenas os seus queixumes davam uma nota de vida. No lampadário já se extinguiam as luzes, que, de quando em quando lançavam, altas, dentadas, labaredas azuis e de ouro.

A madrugada clara entrou pelas janelas, como um chilrear de pássaros. A vida renascia, musical, da noite escura. No coração do Rei a dor fizera uma sombra eterna.

Entre os brandões acesos levaram o cadáver, vestido por mãos mercenárias, que as do Rei nem tinham forças para o peso dos anéis...

Filas de bispos mitrados, graves e compungidos, seguiam o féretro através as ruas da cidade e por estradas risonhas, até o convento magnífico em cuja igreja jaziam todos os numerosos reis e rainhas da casa real; seguiram os fidalgos como seus escudeiros de luto; seguiu, comovido, o povo, que pranteou a morte daquela que fora linda e nas ruas sorria às criancinhas pobres, que lhe pediam a benção...

Era uma comprida fila que se perdia nas corcovas da estrada. As confrarias, os conventos mandaram os irmãos e os frades, com as insígnias. E àquele radioso sol de agosto, que punha na atmosfera uma tremura, tudo resplandecia, como uma apoteose. Brilhavam as lanças, brilhavam os ouros, brilhavam os báculos e sobretudo refulgiam as insólitas pedrarias dos bispos, caminhando majestosos e tristes. E o salmejar dos padres, ouvido ao longe, perdia a nota de lamento: era como o último eco de um canto de vitória, no dia glorioso...

No palácio quase deserto, o Rei ficara no quarto vazio. Como arredá-lo de lá? De joelhos ainda, pensava talvez ter entre as suas mãos os dedos finos da Rainha morta. De quando em quando um soluço parecia estalar a garganta. E as lágrimas desciam pela face, iam morrer na barba perfumada.

Olhava para o grande espelho, onde a Rainha costumava ajeitar, à noite, os cabelos fartos. Lembrava-se de ter ali visto o gesto grácil, aquele pó de ouro, e o corpo que tinha a frescura e a elegância de uma flor que vai a desabrochar. Por que não guardam os espelhos as imagens refletidas? Teria ali, viva, a Rainha, na atitude de compor as sedas das suas tranças... Mas os espelhos deixam tudo escapar. Assim os lagos não guardam, no seio ligeiro, volúvel, o voo curvo das pombas que fogem...

E para ali se quedava, vivendo do passado, como um velho... Que importava que as guerras na fronteira distante assolassem o país? Que tinha que os povos gemessem, que as catástrofes aluíssem as cidades fulgentes ao luar e ao sol nas suas catedrais preciosas, que os rios, saltando os leitos, invadissem as aldeias claras? Que importava a vida se ele só vivia da morte? Mergulhassem os outros no passado os olhos cobiçosos e vivessem de tanto esplendor de batalhas e de riquezas que listravam de clarões a história do reino afortunado. Na miséria presente, que se recordassem!

A própria princesa entre as mãos das açafatas, delicada e linda, ia vivendo, nos grandes olhos verdes, uma tristeza, como quem sabia... No palácio severo, lúgubre, sem os tinidos das alabardas e os mantos que formavam lagoas, nas alcatifas, ninguém se via. E ela, a pequena princesa, não aprendera a rir e também não chorava.

Uma vez ou outra, ao atravessar silencioso e só as câmaras, o Rei via a princesa; maquinalmente as suas mãos pálidas passavam pelos cabelos louros da filha. E seguia, taciturno, sempre diante de si a imagem daquela que morrera a sorrir e o esperava na cripta silenciosa do austero templo gótico.

Ensinavam as aias à princesinha, não relatos cruéis de contendas, nomes temidos dos reis seus avós, mas histórias maravilhosas. Diziam-lhe que à noite, os grandes cálices das magnólias abriam-se, com um ruído musical. E de dentro saíam cortes de fadas minúsculas, vestidas com mantos tecidos com raios de luas-cheias. Pelo parque andavam livremente entre as roseiras esplêndidas... Contavam-lhe que à meia-noite, as árvores se desprendem da terra e vão beber, como os gados, às límpidas ribeiras. Ela sabia que entre si os animais falavam, as andorinhas nos bicos dos telhados, os cisnes brancos nas lagoas azuis, os pavões sobre as árvores, quando espalmam as enjoalhadas caudas, as pombas brancas à beira dos poços, sobre o mármore polido.

Conhecia os trabalhos ligeiros dos gnomos, que nas cavernas escuras trabalhavam o ouro e o ferro; distinguia os alfagemes, que afiam as espadas mortíferas, e os ourives, que afilagranam os metais.

Diziam-lhe as lendas floridas dos amantes, de cujos túmulos saem sorrisos carregados de rosas, que num arco perfumado se abraçam a misturar os perfumes...

Mas a pobre princesa, apenas núbil, não conhecia a Vida, nem o Amor, nem o Riso.

Um dia, pois, a princesa, com as pequenas aias, desceu ao jardim do suntuoso palácio.

Misterioso por tantas sombras, tantos caminhos que se contorciam por entre rugosos troncos, tantas águas que cantavam nos mármores brancos, tantas flores que dentre a verdura perfumavam...

De socalco em socalco abriam-se, em leques, as escadarias; saltavam as águas das cascatas, despenhavam-se as trepadeiras floridas, rastejavam as ervas, rosas de toucar e jasmins lançavam os ramos frágeis.

Junto ao palácio o jardim era cuidado, como uma cabeça garrida. As largas flores espargiam os aromas; os repuxos finos esguichavam fios de prata, pelas ruas areadas passavam, majestosos os pavões solenes... Mas depois, começava a floresta. As altas árvores lutavam, estorcidas: algumas subiam, magras como pedintes, numa aspiração, muito direitas para o sol. Outras torciam-se, esta sem forças, esgarçava-se mirrada. E a hera crescia, vestia os troncos, até nas árvores secas vicejava, como uma mascara risonha numa face de morto. Alguns troncos de seculares carvalhos continham grutas escuras. E os pássaros, dentre os galhos, ao ruído dos passos, levantavam voo, alvoroçados.

Era o "Caminho das Rosas", que ali levava. Rosas de toda a cor: ensanguentadas, brancas, cor de mel e de marfim, cor de carne, rosas para florir peitos de danados e para tranças de primeiras comungantes, rosas que abrem chagas no verde das roseiras, outras que chamam beijos, como colos nus em festas iluminadas, rosas que têm toda a pureza de uma noiva, outras toda a garridice de uma amante, rosas para túmulos, brancas, mortas quase, rosas cheias de vida, que pareciam querer saltar das hastes, e oferecer-se, lascivas...

Vinha do seu conjunto um perfume entontecedor. Por tanto aroma lançarem no ar, nas noites quentes de agosto, algumas damas da corte caiam, em delíquio. E todas tinham medo daquele pórtico encantado, que parecia abrir para um paraíso, mas que podia descer a algum abismo.

Foi para ali, que, correndo atrás de uma borboleta, se dirigiu a princesa. Em vão lhe prenderam as vestes de seda os espinhos das roseiras, em vão a chamaram as pequenas aias; mesmo foi debalde que a voz seca da camareira-mor gritou por ela, entre respeitosa e autoritária. A princesa, a rir, corada, continuava atrás da grande borboleta, deixando tiras de seda nos galhos em flor que, sacudidos, lançavam sobre a sua cabeça pétalas finas.

Ninguém, contudo, se atreveu a ir atrás dela.

Corria no palácio e na cidade uma lenda estranha sobre a floresta, que continuava o jardim, depois do perfumado "Caminho das Rosas".

Dizia-se que numa época remota, no tempo em que pela cidade luminosa e culpada ainda passavam os santos ensinando a Lei e edificando as gentes, governava o reino uma rainha pagã. No jardim murmuroso e claro havia frêmitos de beijos. Nas águas dos tanques brilhavam corpos ligeiros. Nas salas que as tochas e os lampadários iluminavam, mulheres quase nuas dançavam levemente ao som de músicas alegres. E o vinho levava das taças lavradas às bocas vermelhas a alegria e o Amor.

Por toda a parte havia flores, havia risos, havia festas. Os cavaleiros, nas justas, paravam; morriam as centelhas em que ardem as espadas no choque dos combates, e das bocas frescas saíam vozes a cantar a formosura das florestas, a elegância das mulheres, a limpidez das águas cantantes.

Um dia, um santo bispo entrou, andrajoso e cansado, a pedir pousada; a rainha, ao vê-lo tão miserável, mandou-o recolher no canil, com os criados das matilhas. Os cães, piedosamente, foram lamber os pés em sangue do santo homem.

Mas a Rainha não o quis receber. Como de São João Batista, as palavras subiam para as portas, ásperas e condenatórias. Toda a noite a sua voz rude anunciava o castigo.

A Rainha, cansada de ouvir a voz rouca, mandou-o açoitar e expulsar do palácio, em que reviveu a alegria. Mas durou pouco, porque um dia uma língua de fogo saiu da terra, e agitou-se no ar, de sangue e ouro; espavorida, toda a corte fugiu, para não mais voltar, para a floresta misteriosa, que ninguém sabia ao certo onde acabava.

E todo o reino teve medo, como de um inferno, dessa floresta que começava por uma estranha floração de rosas e terminava porventura pelos eternos gelos, pelas labaredas, talvez...

Por ali seguira a princesa, a rir-se. Em vão o Medo guardou durante séculos a misteriosa entrada. Em vão as rosas se agitaram, como turíbulos, para a entontecer com o perfume, e os galhos a prenderam, e os espinhos lhe rasgaram as rendas e as sedas. Foi correndo. A borboleta enorme parecia uma joia a fugir por entre as flores. A princesa era como uma ave, delgada e linda, atrás dela.

Subitamente a paisagem modificou-se. Do dia glorioso que estava no jardim do palácio, nasceu um crepúsculo dourado, como um velho damasco amarelo.

A luz parecia um convalescente a rir-se por cima das árvores, pelos tanques quietos, pelos mármores. E as folhas das árvores tremiam fazendo brilhar os filamentos de ouro. As flores tinham todas um aroma ligeiro, como os frascos de perfumes, que durante longos anos se guardam, vazios, nos armários fechados. Eram brancas todas as rosas e as pétalas enrugadas, como peles finas de velhas, que viveram nos claustros, entre cosméticos.

Quando a princesa deu pela mudança da luz e da paisagem lembrou-se da lenda pavorosa que afastava as gentes da floresta e do Caminho das Rosas.

— Onde estão as línguas ávidas do fogo? perguntava-se. Onde os gelos que prendem e matam? Onde os dragões?

A paisagem era toda serena e de um riso triste. Dir-se-iam anêmicas as flores pálidas, as anêmonas de seda velha, de cera transparente, que por toda a parte deixavam cair, de cansadas, as pétalas finas. E nos caminhos a areia preta era cruzada pelos veios das ervas rasteiras, coberta pelos galhos dos arbustos, aqui sacudiam-se rosas, além os gerânios frescos. Pelos troncos direitos das árvores a hera enroscava-se, a subir. Nas curvas dos tanques, dormiam os nenúfares. Nos mármores dos poços as trepadeiras cobriam os lavores. Havia um silêncio leve, por onde perpassava o espírito de um canto, como um aroma que a brisa traz de longe.

Os templos tinham as portas abertas. A princesa para eles entrou, a medo, a espreitar, afastando os loureiros e os mirtos, que quase fechavam a entrada.

Ninguém. Apenas os deuses de mármore, calmos, esperavam as oferendas. Mas as aras dos sacrifícios tinham umidade da lavagem recente. As cinzas eram quentes; no templo de uma deusa havia grinaldas de rosas e penas de pombas brancas soltas pelo chão.

Alguém ali vivia, pensava a princesa. Mas quem? Gênio malfazejo, que a mataria, ou fada carinhosa? Seria ali que nas noites claras viriam passear as cortes suntuosas que moram nos cálices das magnólias?

Habituada ao silêncio sombrio da corte não a inquietava aquele silêncio leve. E continuava a explorar a encantada floresta, onde parecia agitar-se um simulacro de vida.

Como um coração que vive da saudade dos tempos remotos, assim ali parecia existir a repercussão de uma vida antiga. A cada passo a princesa encontrava sinais de sandálias, flores cortadas, uma fita, indícios de vida. Mas de onde partiam? Quem os deixava?

Viveria ali, naquele país de luz anêmica, uma corte de feiticeiras trágicas, que esperam, para sair das cavernas, as badaladas lúgubres da meia-noite? Mas não. As feiticeiras escolhem as montanhas altas e escarpadas onde chegue o canto soturno do mar revolto, sem árvores que impeçam o voo incendiário das blasfêmias e das imprecações para o céu sem lua e sem estrelas.

Ia caminhando a princesa. Via ribeiros claros que escorregavam sobre seixos brancos; lagoas azuis, fachadas de templos, quincôncios bordados por buchos altos. E as ruas seguiam entre filas de altas árvores formando túnel, até serem cortadas por novas ruas, com árvores ou flores.

Cansou-se a pequena princesa. Um vago terror a invadiu. Quis regressar ao palácio, mas não podia. As ruas de árvores, os templos, os ribeiros, as estátuas, sucediam-se. Parecia-lhe estar num complicado labirinto. Como conseguir o mágico fio?

Uma noite, que parecia artificial, espalhara-se pelo céu e envolvia as coisas. À tonalidade dourada, sucedia uma tonalidade branca, como se tudo fosse feito de prata. A princesa sentou-se num banco, a chorar.

Ouviu de longe como um passar de brisa leve por harpas suspensas em árvores. Escutou. Era um canto que um coro fazia subir, ligeiro como um fumo. Mais se aproximava. As vozes eram cansadas, mas límpidas. Cantavam a vida e as festas, o rir das flores, a alegria das árvores na primavera.

Cada vez se aproximavam mais. Dirigiam-se, certamente, para o sítio onde ficara a princesa, um jardim junto de um templo de mármore verde.

Já via as canéforas, com açafates de flores, seguidas pelas escravas com tamboretes; depois a numerosa teoria de mulheres, com archotes, que, ao queimar-se, iluminavam e perfumavam. Não havia homens. Certamente que vinham para a festa ateniense das Tesmofórias.

Eram as habitantes da floresta. Caminhavam lentamente, as cunháricas flutuantes sobre as túnicas amarelas. As hidróforas traziam as urnas na cabeça. Num gesto gracioso, seguravam-as com uma das mãos; os braços nus eram tão brancos como os mármores transparentes das urnas.

Quando viram a princesa, medrosa, a esconder-se entre as árvores, a procissão parou, as vozes calaram-se, a meio do canto.

Em voz baixa concertavam entre si a resolução a tomar. A princesa ouvia apenas um zumbido confuso, como os das abelhas, quando nos dias quentes se cruzam pelos jardins floridos. Colada a um tronco, pálida como um ex-voto de cera, viu com pavor aproximar-se dela uma das habitantes da floresta. Era porém, tamanha a sua beleza e a sua gracilidade, que o medo tombou do espírito da princesa. Pensava-se ver uma haste florida a andar. Vagarosa, os seus gestos curvos e lentos pareciam fazer nascer no ar quieto uma harmonia...

— Perdi-me aqui! Perdi-me aqui!

— De onde vens?

— Do palácio. Sou a princesa. As minhas aias não se atreveram. Eu corri para apanhar uma borboleta. A borboleta fugiu. Fiquei sem saber onde estava, que caminho tomar. Isto é tão lindo! Mas faz tanto medo não se saber onde se está!

— E queres voltar? Deixaste teu pai e tua mãe...

— Minha mãe morreu. Meu pai não o vejo... quase nunca. É um velho triste e duro, que não fala... Tenho medo da camareira-mor. E as aias estão a chorar às escondidas dela como sempre... A vida é triste, triste, no palácio...

— Preferes ficar conosco?

A boca fina pareceu sorrir-se. A princesa olhava para as mais que se tinham acercado. Eram todas lindas e moças, mas sem frescura, como as rosas que abrem pelas chuvas e ventanias.

— Se me quiserem. Se me quiserem.

— Pois ficarás! Ficarás! Vem conosco!

Pôs-se em marcha o cortejo, novamente. Entraram no templo com a princesa. 

E a princesa ali ficou, porque nos rostos se conservava a mocidade e não havia a dor, nem o constrangimento. Tudo era claro e sereno. E não voltou mais ao palácio, onde as aias choravam e a camareira-mor, seca e hirta, tinha uma voz esganiçada e autoritária.


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Origem: Portugal
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)