Mostrando postagens com marcador Aventuras de João Pequeno. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Aventuras de João Pequeno. Mostrar todas as postagens

domingo, 12 de dezembro de 2021

Aventuras de João Pequeno (Contos de Fadas), de Irmãos Grimm

 

AVENTURAS DE JOÃO PEQUENO

No tempo em que Deus andava pelo mundo, estava um pobre lavrador aquecendo-se à lareira enquanto se lastimava à mulher, que perto dele fiava, desgostoso por não ser contemplado com filhos.

— Que sossego — acrescentou — vai nesta casa enquanto que em outras então tanto barulho há causado pela alegria e pelos risos da pequenada!

— Tens razão — apoiou a mulher, suspirando. — Oxalá tivéssemos um só, embora tão pequenino que quase se não visse. Isso me bastaria para nos alegrar e querer-lhe-íamos de todo o coração.

A boa mulher, alguns dias passados, principiou a andar doente, e ao cabo de sete meses foi mãe de um menino tão bem formado que se dissera de todo o tempo, mas muito pequenino. Ao vê-lo, a mãe não se conteve que não dissesse:

— É exatamente como nós o havíamos desejado; não deixa, apesar de mais pequeno do que um dedal, de ser o nosso filhinho.

Por via disso toda a parentela lhe ficou chamando João Pequenino. Criaram-no tão bem quanto puderam; não cresceu mais, ficando sempre do mesmo tamanho em que nascera. Era muito vivo, muito esperto; e tinha uns olhitos muito brilhantes; e bem cedo mostrou o tino e atividade suficientes para levar a bom-efeito qualquer empresa a que se abalançasse.

O camponês, certo dia, aprontava-se para ir cortar madeira à mata vizinha e disse para consigo:

— Bem precisava eu de quem me conduzisse a carroça.

— Pai— gritou João Pequenino — eu guio a carroça, se quer; não se assuste que chegará a tempo.

O homem desatou a rir:

— Isso é impossível! Se és tão pequenino, como hás de segurar a rédea ao cavalo?

— Isso não faz ao caso, pai! Se a mãe vai atrelar o cavalo, eu meto-me na orelha do cavalo e ensino-lhe o caminho a seguir.

— Pois então, experimentemos.

A boa da mãe meteu o cavalo à carroça, e introduziu João Pequenino na orelha do animal; e o João Pequenino gritava todo o caminho: Vá, cavalo! mas tão distintamente que o animal andava como se na realidade o guiasse algum carroceiro; desta maneira chegou a carroça à mata, indo pelos melhores caminhos.

No momento em que a carroça torneava uma sebe, e se ouvia a voz do rapazinho: vá, cavalo! passaram dois indivíduos desconhecidos que exclamaram estupefatos:

— É célebre! Uma carroça que anda à voz de um carroceiro que não se vê!

— Alguma coisa há de extraordinário; sigamos o veículo para ver onde para!

Continuou a carroça no caminho que levava até parar no sítio onde havia árvores caídas. Assim que João Pequenino avistou o pai, gritou:

— Então, pai, guiei ou não guiei a carroça? Agora põe-me no chão.

O lenhador, segurando com uma das mãos a rédea, serviu-se da outra para tirar de dentro da orelha do cavalo o rapazito a quem pôs no chão; o rapazinho sentou-se num broto de planta.

Os dois desconhecidos, ao verem João Pequenino, não sabiam que imaginar, de tal maneira ficaram estáticos com o raríssimo fenômeno. Falaram em segredo e resolveram:

— Este exemplar pode trazer-nos uma fortuna, se quisermos expô-lo a troco de alguns cobres em qualquer povoação; não será mau comprá-lo.

Em seguida encaminharam-se para o camponês, e propuseram-lhe:

— Quer vender-nos esse anãozinho sob a condição que cuidaremos muito dele?

— Não,— respondeu o interrogado — é meu filho e por dinheiro algum eu me desfaria dele.

João Pequenino, porém, que percebera e ouvira bem toda a conversa, trepou pelas pernas do pai à altura do ombro e segredou-lhe:

— Pai, aceite a proposta, que eu em breve estarei de volta.

Ante esse conselho de João Pequenino, o pai cedeu-o aos homens por uma valiosa moeda de ouro.

— Onde queres tu colocá-lo? — perguntaram entre si.

— Ora, ponham-me na aba do chapéu; assim posso ver tudo quanto se passa em volta de mim e não há meio de me perderem — alvitrou João Pequenino, acrescentando: — Mas, cuidado, não me deixem cair.

Os homens assim fizeram; João Pequenino despediu-se do pai, e foram-se embora com o rapazinho. Fartaram-se de caminhar até ao cair da tarde; nessa ocasião o bocadinho de gente gritou-lhes:

— Parem, que preciso de descer!

— Deixa-te estar no meu chapéu; não estejas com cerimônias, porque os passarinhos também me fazem isso muita vez!

— Não, não quero! — insistiu João Pequenino — ponham-me depressa no chão.

O homem pegou no João Pequenino  e pô-lo no chão num relvado à beira-estrada; João Pequenino depressa alcançou umas moitas e de repente encafuou-se numa toca de rato que buscara de propósito.

— Boa viagem, meus senhores, continuem o caminho sem a minha companhia — lhes gritou, rindo. Quiseram agarrá-lo, fazendo cócegas na toca de rato com palhinhas — como é de uso fazer-se aos grilos, mas perderam o tempo e o feitio, pois que João Pequenino cada vez se metia mais para dentro da toca, e a noite vizinhava-se, de modo que foram obrigados a ir para casa, fulos e com as mãos a abanar.

Quando já iam longe, João Pequenino saiu do improvisado esconderijo. Arreceou-se de seguir viagem à noite, por meio de campos, porque quebrar uma perna não é difícil. Felizmente avistou uma cavidade no topo de uma árvore, exclamando:

— Louvado Deus, já tenho casa para dormir.

Quando ia a pegar no sono, ouviu a voz de três homens que abancaram por baixo da árvore, ceando e conversando:

— Como havemos de proceder para roubar a esse rico pároco toda a sua fortuna?

— Eu lhes digo! — dirigiu-se-lhes a voz invisível.

— Quem está aí?! — gritou um dos ladrões verdadeiramente aterrorizado — Ouvi uma voz!

Calaram-se para escutar, quando João Pequenino se tornou a ouvir:

— Tomem-me à sua conta, que eu os ajudarei nessa piedosa tarefa.

— Onde é que estás?

— Procurem na árvore, no sítio de onde parte a voz.

Os ladrões encontraram-no por fim e exclamaram:

— Pedaço de gente, como é que tu nos podes ser útil!

— Ora, de um modo bem fácil: meto-me pelas grades da janela que há no quarto do pároco e vou-lhes passando tudo o que quiserem.

— Pois bem, seja! — acederam os ladrões — Vamos à experiência!

Assim que chegaram ao presbitério, João Pequenino introduziu-se no quarto, e em seguida começou a gritar com toda a força dos pulmões:

— Querem tudo o que está aqui?

Os ladrões amedrontados disseram-lhe:

— Fala mais baixo que acordas toda a gente!

João Pequenino fazendo ouvidos de mercador, cada vez gritava mais:

— O que é que vocês querem? É tudo isto?

A criada, que dormia no quarto pegado àquele em que o herói da historieta se encontrava, ouviu este ruído, levantou-se da cama e pôs-se de ouvido à escuta; os malfeitores haviam desaparecido, mas cobrando ânimo e, supondo que o rapazito só os queria amedrontar por mera brincadeira, voltaram à carga, e disseram-lhe devagarinho:

— Tem mais tento: passa-nos alguma coisa, anda! João Pequenino, se gritava até então, agora quase que berrava:

— Vou dar-lhes já tudo; aparem as mãos!

Desta feita, a criada ouviu tudo perfeitamente; saltou da cama e correu para a porta. Os gatunos ao pressentirem gente deram às de vila Diogo, como se o Diabo lhes tivesse dado asas; a criada, não ouvindo mais coisa alguma, foi acender uma candeia. Quando apareceu, João Pequenino, sem que ela o tivesse enxergado, foi esconder-se no palheiro. A criada, depois de ter pesquisado todos os cantos à casa sem que nada visse, tornou a deitar-se, supondo que tudo o que ouvira fora sonho.

João Pequenino tinha-se aninhado no feno, onde arranjara uma boa caminha em que contava dormir até manhã, indo em seguida para casa dos pais que a essa hora deviam estar em sobressaltos. Não pararam porém, aqui as aventuras deste ratão; havia de passar ainda por bem maus bocados. A criada ergueu-se ao luzir do buraco para dar ração ao gado. A primeira coisa que fez foi ir ao palheiro buscar forragem, de onde tomou uma braçada de feno com o infeliz João Pequenino lá metido muito ferrado no sono. E tão bem dormia que não deu por coisa alguma e quando despertou viu-se na boca de uma vaca, que o engoliu com um bocado de feno. A primeira impressão que sentiu foi a de se julgar caído num moinho de pisoeiro; mas depressa compreendeu onde é que realmente estava. Evitando o meter-se por entre os dentes, deixou-se escorregar pela garganta até ao estômago. O compartimento em que se encontrou parecia-lhe estreito, sem janela, e onde não havia sol, nem luz, nem sequer candeia! A casa em que morava desagradava-lhe bastante, e o que mais complicava a sua crítica situação, era a quantidade de feno que lá se armazenava, estreitando mais ainda o pouco espaço em que se continha. Por fim, não podendo mais suster-se do terror que dele se apossara, João Pequenino gritou o mais que pôde:

— Basta de feno, basta de feno que eu não posso mais... abafo!

A moça do pároco, que nesse momento estava precisamente ouvindo mungir a vaca, ao ouvir a voz sem que visse quem falava, mas que reconhecia pela que a tinha acordado durante a noite, assustou-se tanto que saltou do banco em que estava sentada, entornando o leite. Foi de caminho, a toda a pressa chamar o pároco para lhe dizer:

— Senhor cura, a vaca fala!

— Tu ensandeceste, rapariga? — tornou o padre, enquanto que despreocupadamente se dirigia para o estábulo, para se certificar do que ouvira.

Não tinha ainda o pároco franqueado o portal quando João Pequenino gritou de novo:

— Basta de feno... que eu atabafo!

O terror apoderou-se então do padre, que supondo a vaca enfeitiçada, ou que tinha o diabo metido no corpo, disse que era preciso dar cabo dela. Abateram-na, e o estômago, onde o pobre João Pequenino se via prisioneiro, foi lançado para o estrume.

O rapazito viu-se em pancas para se desenvencilhar do malcheiroso sítio em que se conservava, e apenas conseguiu ter a cabeça desembaraçada, uma nova desgraça o veio ferir, uma aventura inesperada. Um lobo esfaimado atirou-se ao estômago da vaca, e, chamando-lhe um figo, engoliu-o de uma assentada. João Pequenino não descoroçoou.

— Talvez — pensou com os seus botões — este lobo seja sociável.

E de dentro da barriga, em que estava novamente preso, gritou-lhe:

— Bom lobo, vou ensinar-te o sítio onde há uma excelente presa.

— E onde fica isso? — perguntou o lobo.

— Nesta e naquela casa; pouco trabalho tens: basta-te deslizar pelo esgoto da cozinha; aí encontrarás bons bocados, como toucinho, chouriço à discrição; que mais queres? E olha que te não levo nada pelo conselho!

E assim o experto João Pequenino lhe deu os sinais certos da casa do pai.

O lobo não quis ouvir mais, nem se fez rogado, nem se quer foi preciso dar-lhe o recado mais de uma vez; meteu-se pela cozinha e comeu à tripa-forra. Quando, porém, quis sair, foi-lhe impossível. Tirou o ventre de misérias, de tal maneira que não houve meio de passar pelo cano. João Pequenino — que tudo previra começou a fazer um grande barulho no corpo do lobo, aos pulos e em altos gritos; o lobo pedia-lhe:

— Vê lá se estás quieto! Tu assim acordas meio mundo!

— Deixa-me cá... Tu comeste até que te regalaste; agora sou eu que me divirto a meu modo! — e continuou a gritar tanto quanto podia.

Acabou por acordar a família, que veio pressurosa olhar para a cozinha pelo buraco da fechadura. O pai e a mãe ao verem que estava ali um lobo, armaram-se: o pai com um machado e a mulher com uma foice.

— Fica para traz — aconselhou o marido à mulher quando entraram na cozinha, eu vou matá-lo com o machado, mas se o não matar de um só golpe, tu abres-lhe a barriga!

João Pequenino — ao conhecer a voz do pai— pôs-se a gritar:

— Sou eu, meu pai, sou eu que estou na barriga do lobo!

— Graças! — exclamou o pai louco de contente. — Ora até que enfim que o nosso filho foi encontrado!...

E disse logo à mulher que pusesse de parte a foice não fosse ferir o João Pequenino. Em seguida com faca e tesoura abriu a barriga do lobo de onde saltou lesto o nosso simpático João Pequenino.

— Não podes calcular, filho,— exclamou o pai— os sustos que temos tido com a tua sorte!

— Acredito, pai... mas olhe, eu fartei-me de correr mundo; felizmente que já vejo a luz do dia!

— Onde tens tu estado?

— Ora, onde tenho estado! Estive numa toca de rato, na cavidade de uma árvore, no feno, na barriga de uma vaca, no estrume e por fim na barriga de um lobo! Agora estou com os meus queridos pais!

— E nós não te tornaríamos a vender por dinheiro algum deste mundo! — disseram os pais abraçando-o e apertando-o contra o coração.

Deram-lhe de comer e vestiram-lhe outra roupa, pois a primitiva vinha em estado lastimoso, o que é natural, atendendo aos sítios pouco limpos por onde viajara o nosso João Pequenino.

 

---
Fonte:
Tradução de Henrique Marques Júnior: "Pérolas e Diamantes: Irmãos Grimm" (1908).
Pesquisa a adequação ortográfica: Iba Mendes Editor Digital. São Paulo, 2021.