sábado, 4 de dezembro de 2021

O rabo do macaco (Fábula), de Monteiro Lobato

 

O RABO DO MACACO
 

Era um macaco que resolveu sair pelo mundo a fazer negócios. Pensou, pensou e foi colocar-se numa estrada, por onde vinha vindo, lá longe, um carro de boi. Atravessou a cauda na estrada e ficou esperando.

Quando o carro chegou e o carreiro viu aquele rabo atravessado no caminho, deteve-se e disse:

— Macaco, tire o rabo da estrada, senão passo por cima.

— Não tiro! — respondeu o macaco — e o carreiro passou e a roda cortou o rabo do macaco.

O bichinho fez um barulho medonho.

— Eu quero meu rabo, eu quero meu rabo — ou então uma faca! Tanto atormentou o carreiro que este sacou da cintura a faca e disse:

— Tome lá, seu macaco dos quintos, mas pare com esse berreiro, que está me deixando zonzo.

O macaco lá se foi, muito contente da vida, com a sua faca de ponta na mão.

"Perdi meu rabo, ganhei uma faca! Tinglin, tinglin, vou agora para Angola!"

Seguiu caminho. Logo adiante deu com um tio velho que estava fazendo balaios e cortava o cipó com os dentes.

— Olá, amigo! — berrou o macaco. — Estou com dó de você, palavra! Onde já se viu cortar cipó com os dentes? Tome esta faca de ponta.

O negro pegou a faca mas quando foi cortar o primeiro cipó a faca se partiu pelo meio. O macaco botou a boca no mundo.

— Eu quero, eu quero minha faca — ou então um balaio!

O negro, tonto com a gritaria, acabou dando um balaio velho para aquela peste de macaco — que, muito contente da vida, lá se foi cantarolando: "Perdi meu rabo, ganhei uma faca; perdi minha faca, pilhei um balaio! Tinglin, tinglin, vou agora para Angola!"

Seguiu caminho. Mais adiante encontrou uma mulher tirando pães do forno, que recolhia na saia.

— Ora, minha sinhá — disse o macaco — onde se viu recolher pão no colo? Ponha-os neste balaio.

A mulher aceitou o balaio, mas quando começou a botar os pães dentro, o balaio furou. O macaco pôs a boca no mundo.

— Eu quero, eu quero o meu balaio — ou então me dê um pão. Tanto gritou que a mulher, atordoada, deu-lhe um pão. E o macaco saiu a pular, cantarolando:

"Perdi meu rabo, ganhei uma faca; perdi minha faca, pilhei um balaio; perdi meu balaio, ganhei um pão. Tinglin, tinglin, vou agora para Angola!"

E lá se foi, muito contente da vida, comendo o pão.

 

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Ano de publicação: 1922.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)

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