domingo, 19 de dezembro de 2021

O Barba Azul (Versão de Paulo Soriano), de Charles Perrault

 

O BARBA AZUL 

Era uma vez um homem que tinha belas casas na cidade e no campo, baixelas de ouro e prata, móveis muito bem trabalhados e carruagens douradas; mas, infelizmente, sua barba era azul, o que o deixava tão feio e terrível que não havia dama ou donzela que não fugisse dele.

Uma de suas vizinhas, uma senhora de elevada estirpe, tinha duas filhas muito belas. Ele pediu a mão de uma delas, deixando à mãe a missão de escolher qual seria noiva. Nenhuma das moças queria casar-se com tal pretendente e cada uma empurrava-o para a outra, incapaz de decidir em casar-se com um homem de barba azul. Além disso, o que ainda mais as desprazia era o fato de que ele já se havia casado com várias mulheres e ninguém sabia o que havia acontecido a elas.

Barba Azul, para estabelecer relações com as jovens, levou-as com a mãe, três ou quatro amigas íntimas e algumas moças da vizinhança, para uma de suas casas de campo, onde permaneceram oito dias inteiros, entretidas em caminhadas, caças e pescarias, bailes e banquetes. As convidadas mal dormiam e dedicavam as noites às diversões. O tempo passou tão agradavelmente que Cadette, uma das filhas, julgou que o anfitrião não era dono de uma barba assim tão azul e que parecia, de fato, um homem honrado; e, quando voltaram para a cidade, celebraram o casamento.

Um mês depois, o Barba-azul disse à esposa que era obrigado a fazer uma viagem à província, de pelo menos seis semanas, para tratar de um assunto importante.  Implorou à esposa que, durante sua ausência, ela cuidasse de se divertir o máximo que pudesse, convidasse suas amigas para que lhe fizesse companhia, que fosse com eles ao campo, se lhe aprouvesse, e mantivesse sempre a mesa farta.

— Aqui estão — disse ele — as chaves dos dois grandes guarda-móveis. Estas são as chaves dos talheres de ouro e prata que não são usados diariamente; estas outras são as dos cofres onde eu guardo o meu ouro e a minha prata. Já estas são as das arcas em que estão as minhas joias e pedras preciosas. E aqui eu te entrego as chaves que abrem as portas de todos os cômodos. Esta pequena chave é a do gabinete que fica no final da grande galeria do subsolo. Tu podes abrir tudo, adentrar todos os ambientes, mas eu te proíbo de entrar no gabinete; e de tal forma eu te proíbo, que, se a abrires, poderás esperar toda a minha ira.

Ela prometeu cumprir exatamente o que lhe fora ordenado. Então, depois de beijá-la, o marido subiu à carruagem e partiu.

As vizinhas e amigas não esperaram, para ir à da jovem noiva, que as mandassem buscar, tão impacientes que estavam por verem todas as riquezas daquele lugar — algo que não ousariam fazer na presença do marido, pois a sua barba azul as enchia de temor.   Começaram, então, prontamente, a examinar os quartos, os gabinetes, os vestiários, cada um mais belo que o outro.  Depois, subiram aos guarda-móveis, onde puderam admirar suficientemente a beleza das tapeçarias, das camas, dos sofás, dos guarda-roupas, dos gueridons, das mesas e dos espelhos — que reproduziam imagens da cabeça aos pés —, cujas molduras, algumas de vidro, outras de prata dourada, eram as mais belas e magníficas que se poderiam ser vistas. Não paravam de exagerar e invejar a felicidade de sua amiga, que, no entanto, não se aprazia em contemplar tantas riquezas, impaciente que estava em abrir o gabinete do subsolo.

Tamanha era a sua curiosidade que, sem perceber a indelicadeza de abandonar as amigas, desceu por uma escada reservada, e tão precipitadamente que, por duas ou três vezes, correu o risco de quebrar o pescoço. Ao chegar à porta do gabinete, ela se deteve por algum tempo, lembrando-se das advertências do marido, e ponderando que algum infortúnio poderia advir-lhe por conta de sua desobediência.  Mas a tentação era tão forte que ele não conseguiu vencê-la; então, pegando a chave pequena, abriu, com a mão trêmula, a porta do gabinete.

A princípio, ela nada viu, porque as janelas estavam fechadas. Contudo, após alguns instantes, percebeu que o chão estava completamente coberto de sangue coagulado, no qual se refletiam os corpos de várias mulheres mortas, presas ao longo das paredes. Essas mulheres eram todas as que o Barba Azul desposara, e que haviam sido massacradas, uma após a outra. Pensando que morreria de medo diante de tal espetáculo, deixou cair a chave da despensa que acabara de tirar da fechadura.

Depois de recuperar um pouco os sentidos, ela pegou a chave, fechou a porta e subiu ao seu quarto para se recompor.  Mas não conseguiu, de tão atribulado que estava o seu espírito. 

Percebendo que a chave do gabinete estava manchada de sangue, tratou de limpá-la, duas ou três vezes, mas o sangue não desaparecia. Em vão a lavou, esfregando-a com sabão e pedra-pomes. Contudo, o sangue permanecia sempre, pois a chave era encantada e não havia como limpá-la completamente: quando se removia o sangue de um dos lados, ele reaparecia no outro.

Barba Azul voltou de sua viagem na noite do mesmo dia e disse que no caminho havia recebido uma carta informando-o de que o assunto que o obrigou a partir havia sido concluído vantajosamente para ele. A esposa fez tudo o que pôde para fazê-lo acreditar que estava encantada com o seu retorno inesperado.

No dia seguinte, o marido pediu-lhe as chaves e ela as entregou com uma mão tão trêmula que Barba Azul imediatamente adivinhou tudo o que havia acontecido.

— Por que a chave do gabinete não está com as outras? — ele perguntou.

— Eu devo tê-la deixado em minha mesa — respondeu a esposa.

—Dá-me a chave imediatamente — ordenou o marido.

Após vários adiamentos, a esposa se viu obrigada a entregar a chave.

Barba Azul, tendo olhado a chave, disse à esposa:

— Por que há sangue nesta chave?

— Eu não sei — respondeu ela, mais pálida que a morte.

 —Não sabes? — respondeu Barba Azul. Eu sei muito bem: tu querias entrar no meu gabinete!  Pois bem, madame, tu nele entrarás, e, entre as mulheres que lá viste, ocuparás o teu lugar

Ao ouvir essas palavras, ela se jogou aos pés do marido, chorando e implorando o seu perdão, com todas as demonstrações de verdadeiro arrependimento por ter sido desobediente. Sua beleza e aflição poderiam ter enternecido uma pedra, mas Barba Azul tinha um coração mais duro do que um rochedo.

—Tu deves morrer, madame — disse ele —, e irás morrer agora!

 — Já que devo morrer — disse ela, olhando para o marido com os olhos marejados de lágrimas —, dá-me um tempo para orar.

 — Dar-te-ei dez minutos — respondeu Barba Azul. — Nem um segundo a mais.

Assim que ficou sozinha, chamou a irmã e disse:

— Minha irmã Anne (este era o seu nome), sobe, por favor, até o topo da torre e vê se meus irmãos estão vindo. Eles me prometeram que viriam visitar-me hoje e, se os vires, dá-lhes um sinal para que se apressem.

A irmã Anne subiu ao topo da torre e a pobre esposa, aflita, perguntava-lhe a todo instante:

—Anne, minha irmã, estás vendo alguma coisa?

E Anita respondia:

— Só vejo o Sol cintilante e a relva verdejante.

Entrementes, o Barba Azul, segurando um grande cutelo, gritava com todas as suas forças para a esposa:

— Desce já ou eu subo para apanhá-la!

— Um momento, por misericórdia! — respondia-lhe a esposa.

Então ela disse, em voz baixa:

—Anne, minha irmã, vês alguma coisa?

A irmã respondeu:

— Só vejo o Sol cintilante e a relva verdejante.

— Desce já — rugiu Barba Azul — ou subo eu!

— Estou indo — respondeu a mulher; e, depois, perguntou:

— Anne, minha irmã, alguém vem vindo?

 — Sim, vejo uma grande nuvem de poeira que daqui se aproxima.

— São meus irmãos?

— Ai, minha irmã, não! É um rebanho de carneiros...

— Tu vens ou não vens? — gritou Barba Azul.

A esposa implorou por mais um momento e, então, perguntou:

— Anne, minha irmã, vem alguém?

 — Estou vendo — respondeu ela — dois cavaleiros que se aproximam, mas ainda estão longe... — Louvado seja Deus! — exclamou Anne, um momento depois. — São meus irmãos! Estou fazendo sinais para apressá-los.

Barba Azul rugiu tão alto que toda a casa estremeceu. A pobre esposa desceu e se jogou a seus pés, com os olhos marejados e as tranças desgrenhadas.

— Não adianta — disse o Barba-azul —; tu tens que morrer.

Então ele a agarrou pelos cabelos com uma mão e brandiu o cutelo com a outra para cortar-lhe cabeça. A pobre mulher voltou seu olhar moribundo para ele e rogou que lhe concedesse alguns segundos.

—Não, não! — disse ele. — Encomenda a Deus a tua alma!

E ergueu o cutelo.

Naquele momento, bateram à porta com tanta força que o Barba Azul imediatamente se deteve.

Os dois cavaleiros abriram a porta e entraram. Desembainhando as espadas, correram direto para onde estava Barba Azul.

O marido reconheceu nos cavaleiros os dois irmãos de sua mulher: um deles pertencia a um regimento de dragões e, o outro, era um mosqueteiro. Então, ao vê-los, imediatamente fugiu.  Mas os dois irmãos o perseguiram tão de perto que o alcançaram antes que ele pudesse chegar aos degraus de fora.  Então, retalharam-lhe o corpo com suas espadas e o deixaram morto. A pobre mulher estava quase tão morta quanto o marido e não teve forças para se erguer e beijar os irmãos.

Descobriu-se que Barba Azul não tinha herdeiros; portanto, sua esposa tornou-se dona de todas as suas propriedades. Ela empregou parte da fortuna para casar sua irmã mais nova com um jovem cavalheiro, que a amava há muito tempo; outra parte, usou-a para comprar as patentes de capitão para seus irmãos. O restante do legado ela reservou para si mesma, casando-se com um homem muito digno e honrado, que a fez esquecer os momentos tristes que havia passado com o Barba Azul.

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