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sábado, 1 de janeiro de 2022
Barceloz (Conto Popular), de Sílvio Romero
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História de João (Conto Popular), de Sílvio Romero
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Ano de publicação: 1883
Origem: Sergipe (Brasil)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2022)
Os três irmãos (Conto popular), de Sílvio Romero
No cabo de quinhentos dias chegou ao primeiro rio. Ficou na margem do rio, por o não poder atravessar, e à noite deitou-se debaixo de um arvoredo. À meia-noite chegaram os diabinhos para fazerem suas visagens; no mesmo instante o velho acorda e põe-se a escutar. Pergunta o diabo mais velho:
Começaram as fadas a dar as suas respostas:
— Eu fiz um rei deserdar do trono a princesa; — eu fiz o Reino das Maravilhas encantar-se, só o desencantará o João ferreiro, que é vassalo do irmão; — eu encantei a Cidade de Âmbar, só a desencanta o José carpinteiro; — eu encantei o Reino das Três Colunas, só o desencantará Jorge, pai dos três felizes, que todos três hão de ser reis, depois que o pai andar mil e quinhentos dias; terá de passar três dias debaixo d’água e ser comido pela serpente; depois de tudo isto será feliz.
O velho acordou e pôs-se a correr; mas já era tarde, e foi engolido vivo por uma serpente. No ventre da serpente esteve o Jorge 496 dias, quando ela entrou num rio e levou três dias no fundo como se fosse peixe. Depois foi dar à costa nas matas encantadas do reino das Três Colunas, e aí morreu, saindo para fora o velho ainda vivo, mas muito magro e abatido. Pegou no sono e ouviu uma voz que dizia:
Houve muitas festas, mandando Jorge todos adorar a vaca. Ficou bem com seu filho, e foram todos felizes.
A Mãe d'Água (Conto popular), de Sílvio Romero
quinta-feira, 18 de novembro de 2021
O Papagaio do Limo Verde (Conto popular), de Sílvio Romero
Uma vez havia, num lugar retirado duma cidade, uma velha que tinha três filhas: uma de um só olho, outra de dois, e outra de três. Perto da casa da velha havia uma outra casa, onde morava uma moça muito bonita. Por esta moça namorou-se o príncipe real do reino do Limo Verde, que a visitava todas as noites, e lhe estava dando muitas riquezas. A velha vizinha entrou a desconfiar daquelas riquezas, e, uma vez por outra, ia à casa da moça para ver se pilhava alguma coisa, e nada...
Uma vez sua filha mais velha, que tinha três olhos, lhe disse:
— Minha mãe, me deixe ir passar a noite na casa da vizinha que eu descubro o segredo.
A velha concordou, e a moça dos três olhos foi. Chegando lá disfarçou:
— Ó vizinha, há muito tempo que não lhe vejo; vim hoje passar a noite com você.
— Pois não, vizinha, a casa está às ordens! — respondeu a bela namorada.
Quando foi na hora de irem dormir, a dona da casa deu à sua companheira, em lugar de chá, uma dormideira. A moça dos três olhos ferrou no sono como uma pedra; roncou toda a noite e não viu nada.
O príncipe real do Limo Verde veio, como de costume, encantado num grande e lindo papagaio; foi chegando e batendo com as asas na janela do quarto; a namorada abriu-a, e ele foi dizendo:
— Dai-me sangue, dai-me leite, ou dai-me água!
A moça apresentou-lhe um banho numa grande bacia; o papagaio caiu dentro da água a se arrufar e bater com as asas; cada pingo d’água que lhe caía das penas era um diamante, e assim é que a moça ia ficando cada vez mais rica. O papagaio, no banho, desencantou-se num lindo príncipe, que passou a noite com a sua namorada. De madrugadinha tornou a virar em papagaio, bateu asas e foi-se embora. A mulher dos três olhos não viu nada; voltou para casa e disse à mãe que tudo eram boatos falsos, e que na casa da vizinha não havia novidade.
Daí a tempos a irmã de dois olhos se ofereceu para ir passar também uma noite na casa da vizinha; foi e chupou da dormideira, pegou no sono, e veio o papagaio, e ela nada viu. Voltou para casa sem descobrir o segredo. Passados dias, a moça de um só olho se ofereceu à mãe, dizendo:
— Agora, minha mãe, minhas irmãs já foram, e eu quero também ir descobrir o segredo.
As irmãs caçoaram muito dela:
— Quando nós, que temos mais olhos do que tu, não vimos nada, quanto mais tu, que tens um só!...
Enfim a velha consentiu, e a sua filha de um só olho foi. Chegando lá, fez muita festa à rica vizinha, e, quando foi a hora da ceia, fingiu que bebia a dormideira, e derramou-a no seio. Deitou-se e fingiu que estava dormindo. Lá para alta noite chegou o grande e bonito papagaio, batendo com as asas na janela; a dona da casa abriu, e ele se desencantou num moço muito formoso, e, como das outras vezes, dentro da bacia do banho ficou muito ouro e muitos brilhantes que a namorada guardou. A sujeitinha de um olho só via tudo caladinha. No outro dia bem cedinho largou-se para casa e contou tudo à mãe. No dia seguinte a velha foi quem veio passar a noite na casa da moça. Quando entrou para o quarto de dormir disfarçou e colocou umas navalhas bem afiadas na janela por onde tinha de entrar o papagaio. Ele, quando veio se cortou todo nas navalhas e disse para a namorada:
— Ah, Maria ingrata! Nunca mais me verás; só se mandares fazer uma roupa toda de bronze e andares até ela se acabar...
Bateu asas, e voou. A moça, que não esperava por aquilo, ficou muito desgostosa, e logo compreendeu a razão das visitas daquela gente a sua casa. Mandou fazer uma roupa toda de bronze, e com chapéu, sapatos e bastão também de bronze, e largou-se pelo mundo a procurar o reino do Limo Verde. Depois de muito andar, sem ninguém lhe dar notícia, foi ter à casa do pai da Lua.
Lá chegando disse a que ia. O pai da Lua a recebeu muito bem, lhe disse que só sua filha lhe poderia dar notícia de tal terra, que ele não sabia; mas que ela, quando vinha para casa, era muito aborrecida e zangada com todos, que portanto a peregrina se escondesse bem escondida. Assim foi. Quando ela chegou, veio muito enjoada, dizendo:
— Aqui me fede a sangue real!
O pai a enganou, dizendo:
— Não, minha filha, aqui não veio ninguém, foi um frango que eu matei para nós cearmos.
A Lua tomou banho e se desencantou numa princesa muito formosa e foi para a mesa cear. Aí o pai disse:
— Minha filha, se aqui viesse uma peregrina indagar por uma terra, tu o que fazias?
— Mandava entrar e tratava muito bem, e se está aí apareça.
A moça apareceu e disse a sua história. A Lua lhe respondeu que andara muitas terras; mas que daquela nunca tinha ouvido nem falar; mas o Sol havia de saber. A moça se despediu, e, na saída, a Lua lhe deu de presente uma almofadinha de fazer rendas toda de ouro, com os bilros de ouro, alfinetes de ouro e etc., tudo de ouro. A moça seguiu. Ao depois de muito andar, e estando já com os vestidos de bronze quase acabados, chegou à casa da mãe do Sol. Entrou e disse ao que ia. A mãe do Sol a tratou muito bem; disse que não sabia onde era aquela terra; mas seu filho havia de saber, porque andava muito; o que tinha era que quando vinha para casa era muito zangado, queimando tudo, e que ela se escondesse bem. Assim foi. Quando o Sol veio, foi aquele quenturão de acabar tudo, e dizendo:
— Aqui me fede a sangue real, aqui me fede a sangue real!
A mãe o enganou dizendo que tinha sido uma galinha que tinha preparado para o jantar. O Sol tomou seu banho e se desencantou num belo príncipe. Na mesa a mãe lhe disse:
— Meu filho, se aqui viesse uma peregrina, perguntando por uma terra, tu o que fazias?
— Mandava entrar e tratava muito bem.
A moça apareceu e disse o que queria. O Sol lhe respondeu que nunca tinha ouvido falar em semelhante terra, que só o Vento Grande poderia saber dela, porque andava mais do que ele. A moça se despediu, e, na saída, o Sol lhe deu uma galinha de ouro, com uma ninhada de pintos todos de ouro, e vivos e andando. A moça seguiu viagem e foi ter, depois de muito trabalho, à casa do pai do Vento Grande. Lá chegando disse ao que ia, e o velho pai do Vento Grande respondeu que não sabia; mas que seu filho havia de saber, o que tinha era que, quando vinha, era como doido, botando tudo abaixo, e que a moça se amarrasse bem num esteio da casa. Assim ela fez. O Vento Grande quando veio chegando era aquele zoadão, que fazia medo, botando muros e telhados abaixo, e dizendo:
— Aqui me fede a sangue real!
— Não é nada, meu filho, foi um capão para nossa ceia.
Assim o velho foi enganando até que ele tomou o banho e se desencantou num moço muito belo. Na mesa o pai lhe disse:
— Se aqui viesse uma peregrina, tu o que fazias?
— Mandava entrar e tratava bem.
A moça apareceu e disse o que queria. O Vento Grande respondeu:
— Oxente! Ainda agora passei por lá; é perto. Monte-se amanhã na minha cacunda, e, onde avistar um pé de árvore muito grande e copudo na frente de um palácio muito rico, agarre-se nos galhos, deixe-me passar que é aí.
No dia seguinte, quando o Vento Grande partiu, a moça montou-lhe na cacunda e seguiram.
Depois de muito voar por muitas terras e reinos, avistou o pé de árvore na frente dum grande palácio; o Vento logo de longe foi dizendo:
— É ali; agarre-se nos galhos, senão eu a levo para o fim do mundo.
Assim a moça fez; agarrou-se num galho da árvore, e o Vento seguiu. Ela desceu e pôs-se embaixo da árvore, imaginando um meio de entrar no palácio para ver o príncipe, ou ter notícias dele. Com pouco chegaram três rolinhas e se puseram a conversar nos galhos da árvore. Disse uma delas:
— Manas, não sabem? O príncipe real do Limo Verde está muito mal; talvez não escape.
Disse outra:
— E o que será bom para ele?
Respondeu a terceira:
— Ali não há mais remédio; as feridas que ele recebeu na guerra são três e não saram; só se pegarem a nós três, nos tirarem os coraçõezinhos, torrarem e moerem, e deitarem o pó nas feridas.
A moça ouviu toda a conversa das rolas; armou um laço e pegou todas três; matou-as, tirou os corações, torrou-os e fez um pozinho e guardou. Lá no reino tinha-se espalhado a notícia de que o príncipe estava à morte de umas feridas recebidas numas guerras.
Não achando um meio de entrar no palácio, a peregrina tirou para fora a almofada de ouro, e se pôs a fazer renda. Veio passando uma criada do palácio, viu e foi dizer à rainha, mãe do príncipe:
— Não sabe, rainha minha senhora, ali fora está uma peregrina com uma almofada de ouro, com birros de ouro, fazendo renda também de ouro, coisa mais linda que dar-se pode. Só vosmecê possuindo...
A rainha mandou perguntar à peregrina quanto queria pela almofada. A moça respondeu:
— Para ela não é nada; basta me deixar dormir uma noite no quarto do príncipe que está doente.
A criada foi dar a resposta; mas a rainha ficou muito insultada e não quis. Mas a criada lhe disse:
— O que tem, rainha minha senhora? O príncipe meu senhor está tão mal que nem conhece mais ninguém; que mal faz que aquela tola durma lá no quarto no chão?
A rainha concordou; foi a almofada de ouro para palácio, e a peregrina dormiu no quarto do doente. Logo nesta primeira noite ela lavou bem as feridas que o príncipe tinha no peito, e botou nelas o pó dos corações das rolinhas; mas o príncipe ainda não deu por de si, e não a conheceu. No dia seguinte a moça foi outra vez para debaixo da árvore, e puxou para fora a galinha de ouro com os pintinhos, que se puseram a andar. A criada veio passando e viu. Correu logo para palácio e disse:
— Ó rainha minha senhora, a peregrina está com uma galinha de ouro com uma ninhada de pintos, tudo vivinho e andando... Que coisa bonita! Só rainha, minha senhora, possuindo...
A rainha mandou propor negócio. A moça disse que não era nada; bastava deixar ela dormir mais duas noites no quarto do príncipe. A rainha não queria; mas a criada arranjou tudo e a moça foi dormir no quarto do príncipe, e deu a galinha e os pintos de ouro. Na segunda noite que ela dormiu em palácio, a moça continuou o tratamento, e aí o príncipe foi melhorando e já a ia conhecendo. Na terceira noite acabou o curativo e o príncipe ficou bom. Depois que ficou de todo com saúde, saiu do quarto e apresentou à rainha e ao rei a peregrina como sua noiva, e assim se desmanchou o casamento que já lhe tinham arranjado com uma princesa vizinha. Houve muita festa na cidade e no palácio... E eu (isto diz por sua conta o narrador popular) trouxe de lá uma panelinha de doce para lhe dar (referindo-se à pessoa a quem contou a história), mas a lama era tanta que ali na ladeira dos Quiabos escorreguei e caí e lá foi-se o doce.
Entrou por uma porta,
Saiu por um pé de pato;
Manda o rei, meu senhor,
Que me conte quatro.
O Rei Andrada (Conto popular), de Sílvio Romero
Havia um rei de nome Andrada, que tinha três
filhas, e lhes disse que o que sonhassem lhe contassem todos os dias pela
manhã. Uma delas, logo no dia seguinte, contou ao rei um sonho que foi o
seguinte:
— Sonhei
que havia de mudar de estado nestes poucos dias, e cinco reis haviam de me
beijar a mão, e entre eles el-rei meu pai.
O rei ficou muito zangado com a filha e lhe
ordenou que, se de novo sonhasse aquilo, não lhe contasse mais, senão a
mandaria matar. A moça tornou a sonhar coisa semelhante, e pela manhã, apesar
de lhe rogarem as irmãs, ela contou o sonho ao pai. Ele mandou matá-la, e
cortar-lhe o dedo mendinho que os matadores lhe deviam trazer.
Os criados do rei levaram a princesa para um ermo, e tiveram pena de a matar; cortaram-lhe somente o dedo, que levaram ao rei, deixando a moça nas brenhas. Ela começou a caminhar, e, muito longe, encontrou um buraco, e entrou por ele dentro, e, quanto mais entrava, mais o buraco se alargava até que ela foi dar num rico palácio. Aí ela tinha o almoço, a janta, e a ceia, sem ver ninguém, porque o palácio era encantado. Apenas ela ouvia, de um quarto que estava fechado, falar um papagaio. Depois de alguns dias, apareceu-lhe um lindo moço que lhe deu a chave do quarto, e disse que o abrisse e respondesse ao papagaio coisa que fizesse sentido ao que ele dissesse. O moço desapareceu. A princesa abriu a camarinha, e o papagaio, que era muito grande e bonito, e das asas douradas, ficou muito alegre, sacudindo-se todo, e disse:
Aí o papagaio desencantou-se no lindo moço
que dantes lhe tinha aparecido, o qual moço mandou logo vir um padre e se casou
com a princesa, mandando convidar cinco reis, que no cortejo beijaram a mão de
sua noiva. No meio deles veio o rei Andrada. Todos os outros beijaram a mão da
princesa, e, quando chegou a vez do rei Andrada, a nova rainha não lhe quis dar
a mão; pelo que ele ficou muito injuriado, e foi queixar-se ao rei seu amigo, e
dono da casa. O noivo, indo perguntar a razão daquilo, a moça lhe contou a sua
história, o que sabendo o rei Andrada foi pedir perdão à sua filha.
O Pinto Pelado (Conto popular), de Sílvio Romero
Foi um dia um pinto pelado estava pinicando num terreiro, achou um papelzinho e disse:
— Bravo!
vou levar esta carta ao rei, meu senhor.
E partiu. Chegando adiante, encontrou uma
raposa, que lhe disse:
— Aonde
vai, pinto pelado?
— Quirrichi; vou levar esta carta a rei, meu
senhor.
— Apois eu também quero ir.
— Apois entre aqui no meu oveiro — respondeu o pinto. A raposa entrou e o pinto
seguiu. Chegando mais adiante encontrou um rio, que lhe perguntou:
— Aonde
vai, pinto pelado?
— Quirrichi; vou levar esta carta a rei, meu
senhor.
— Eu também quero ir.
— Apois entre aqui no meu oveiro.
Seguiu. Chegando adiante encontrou um
espinheiro, que lhe perguntou:
— Aonde
vai, pinto pelado?
— Quirrichi; vou levar esta carta a rei, meu
senhor.
— Eu também quero ir.
— Apois entre aqui no meu oveiro.
Seguiu, e, depois de muito andar, foi ter no
palácio do rei. Entrou e entregou a carta. O rei se zangou por aquele atrevimento
do pinto lhe ir levar um papel sujo, e o mandou jogar entre as galinhas e galos
do poleiro, que muito o espancaram. Aí o pinto largou a raposa que caiu em cima
dos galos e galinhas e acabou com tudo. O pinto largou-se para trás a toda a
pressa. O rei, quando deu por falta de suas galinhas, mandou pegar o pinto.
Saiu gente atrás dele. Mas o pinto quando avistou a gente largou o rio. Foi
água por cima do tempo, e a gente não pôde passar. Arranjaram canoas, e
passaram sempre; mas o pinto pelado já estava longe. A tropa avançou na
carreira, e quando ia chegando perto do pinto, ele largou o espinheiro, e
gerou-se no mundo aquela mata de espinhos muito grande e serrada que ninguém
pôde varar. Então voltaram todos para trás, e o pinto pelado teve tempo de chegar
ao seu terreiro, onde ninguém mais o incomodou.
Uma das de Pedro Malazartes (Conto popular), de Sílvio Romero
Um dia, Pedro Malazartes foi ter com o rei e lhe pediu três botijas de azeite, prometendo-lhe levar em troca três mulatas moças e bonitas. O rei aceitou o negócio. Pedro saiu e foi ter à casa de uma velha ali pela noitinha; pediu-lhe um rancho, e que lhe botasse as botijas no poleiro das galinhas. A velha concordou com tudo. Alta noite, Pedro Malazartes levantou-se, foi de pontinha de pé ao poleiro, quebrou as botijas, derramou o azeite, lambuzando as galinhas. De manhã muito cedo Malazartes acordou a velha, e pediu-lhe as botijas de azeite. A velha foi buscá-las, e, achando-as quebradas, disse:
— Pedro,
as galinhas quebraram as botijas e derramaram o azeite.
— Não quero saber disso, disse Pedro; quero
para aqui meu azeite, senão quero três galinhas.
A velha ficou com medo, deu-lhe as três
galinhas. Malazartes partiu e foi à noite à casa de outra velha; pediu rancho e
que agasalhasse aquelas três galinhas entre os perus. A velha, como tola, consentiu.
Alta noite, Pedro se levantou, foi ao quintal, matou as três galinhas,
besuntando de sangue os perus. No dia seguinte, bem cedo, acordou a velha,
pedindo as suas galinhas, porque queria seguir viagem. A velha foi buscá-las e
encontrou o destroço; voltou aflita, contando a Malazartes. Ele fez um grande
barulho até levar seis perus em troca das galinhas. Na noite seguinte, foi ter
à casa de um homem que tinha um chiqueiro de ovelhas, e pediu-lhe para passar a
noite em sua casa e que lhe agasalhasse aqueles perus lá no chiqueiro das
ovelhas, porque bicho com bicho se acomodavam bem. O homem assim fez. Tarde da
noite, Pedro foi ao lugar onde estavam os perus, e matou-os a todos labreando
de sangue as ovelhas. Pela manhã levantou-se bem cedo e pediu ao dono da casa
os seus perus. O homem indo-os buscar achou-os mortos, e voltou muito aflito,
dizendo:
— Pedro,
não sabe? As ovelhas mataram os seus perus.
Ouvindo isto, Malazartes fez um grande
espalhafato, gritando que o homem tinha morto os perus do rei e recebeu seis
ovelhas pelos perus. Largou-se, indo dormir na casa de um homem que tinha um
curral de bois. Aí ele fez as mesmas artimanhas, até pegar seis bois pelas seis
ovelhas. Mais adiante, ele encontrou uns vendilhões de ouro e trocou os bois
por ouro. Mais adiante encontrou uns homens que iam carregando uma rede com um
defunto. Pedro perguntou quem era, disseram-lhe que era uma moça. Ele pediu
para ir enterrá-la e eles deram. Logo que os homens se ausentaram, ele tirou a
moça da rede, encheu-a de bastante ouro e enfeites, e foi ter com ela nas
costas à casa de um homem rico que havia ali perto. Pediu rancho, e disse às
filhas do tal homem que aquela era a filha do rei que estava doente, e ele
andava passeando com ela, e pediu que a fossem deitar. Foram levar a moça para
uma camarinha indo Malazartes com ela, dizendo que só com ele ela se acomodava.
Deitou a moça defunta na cama e retirou-se, dizendo às donas da casa:
— Ela
custa muito a dormir, ainda chora como se fosse uma criança, quando chorar
metam-lhe a correia.
Alta noite, Pedro foi e se escondeu debaixo
da cama onde estava a morta e pôs-se a chorar como menino. As moças da casa,
supondo ser a filha do rei, deram-lhe muito até ela se calar, que foi quando
Pedro se calou. Depois ele escapuliu e foi para seu quarto. De manhã ele pediu
a moça, que queria ir-se embora. Foram ver a filha do rei, e nada de a poderem
acordar. Afinal conheceram que estava morta, e vieram dar parte a Malazartes.
Ele pôs as mãos na cabeça, dizendo:
— Estou
perdido; vou para a forca; me mataram a filha do rei!...
Os donos da casa ficaram muito aflitos, e
começaram a oferecer coisas pela moça, e Pedro sem querer aceitar nada, até que
ele mesmo exigiu três mulatas das mais moças e bonitas. O homem rico as deu, e
Pedro disse que dava uma desculpa ao rei sobre a morte de sua filha, e lhe dava
de presente as três mulatas, para o rei não se agastar muito. Malazartes
largou-se e foi logo para palácio, onde entregou ao rei as três mulatas com
este dito:
— Eu
não disse a Vossa Majestade que lhe dava três mulatas pelas três botijas de
azeite? Aí estão elas.
O rei ficou muito admirado.
O Sargento Verde (Conto popular), de Sílvio Romero
Havia um homem rico que tinha uma filha muito
formosa; apareceu uma vez um moço também muito bonito que quis casar com ela.
Contrataram o casamento. Mas Nossa Senhora, que era madrinha da noiva, lhe
apareceu e disse:
— Minha
filha, tu vais te casar com o cão. Quando for no dia do casamento, depois da
festa acabada, teu marido há de querer te levar para casa dele; tu, então,
deves dizer a teu pai que só queres ir no cavalo mais magro e feio de todos, e
quando chegares a um lugar da estrada onde faz cruz, teu marido há de tomar
pela esquerda, tu deves tomar pela direita e mostrar-lhe o teu rosário para ele
estourar e sumir-se para o inferno.
Passou-se. Quando foi no dia do casamento
houve muito pagode e divertimento; mas a moça sempre triste.
Quando chegou a hora da partida veio um
cavalo muito bonito e muito bem arreado para a moça se montar. Ela disse ao pai
que não queria aquele, e só o mais feio e magro. O pai se espantou muito e não
quis concordar; afinal foi obrigado a fazer os gostos da filha. Partiram os
noivos; quando chegaram longe da casa havia no caminho uma encruzilhada; aí o
cão quis botar a moça adiante pelo lado esquerdo. Então a moça disse:
— Vá o
senhor adiante que sabe do caminho de sua casa e não eu que nunca lá fui.
O cão aí se zangou; mas a moça tomou pela
estrada da direita, mostrando-lhe o rosário. O cão estourou, e foi cair nas
profundas, e a moça seguiu a toda a bride. Lá mais adiante, ela cortou os
cabelos e vestiu-se de homem, toda de verde. Chegando a um reino, foi servir na
guarda do rei com o posto de sargento. A gente toda a chamava de Sargento
Verde. O rei tomou-lhe muita amizade, tanto que quase todas as tardes o
convidava para ir passear com ele no jardim. A rainha ficou, com poucos dias,
apaixonada por Sargento Verde. Uma tarde, depois de jantar, tendo-o o rei
convidado para passear no jardim, ao passar ele pela rainha, ela lhe disse:
— Olha,
Sargento Verde, que lindos olhos, e que lindo corpo para divertir contigo!
O Sargento respondeu:
— Não
sou falso a meu rei.
A rainha despeitada levantou-lhe um aleive ao
rei:
— Saberá
Vossa Real Majestade que Sargento Verde disse que se atrevia a subir e a descer
as escadas de palácio montado no seu cavalo a toda a bride, dançando e atirando
para o ar três limas, e todas três caírem num copo.
O rei ficou muito admirado e mandou chamar
Sargento Verde, e contou-lhe o caso. O Sargento respondeu:
— Saberá
rei meu senhor que eu não disse tal; mas como a rainha minha senhora disse, eu
vou fazer.
Saiu muito triste, e foi ter com o seu cavalo e lhe contou tudo; o cavalo disse que ele não se importasse, que no dia marcado fosse sem medo.
No dia marcado Sargento Verde apresentou-se e
andou pelas escadas a cavalo, correndo para cima e para baixo, dançando e
atirando para o ar três limas e aparando todas três num copo. Houve muito viva,
e a rainha ficou desesperada. Passaram-se dias; indo o rei passear de novo com
Sargento Verde no jardim, ao passar ele pela rainha, ela lhe disse:
— Olha
que lindos olhos e que lindo corpo para divertir contigo!
— Não sou falso a meu rei — foi o que ele
disse.
A rainha, despeitada ainda mais, levantou-lhe
outro aleive, que foi:
— Saberá
Vossa Real Majestade que Sargento Verde disse que era capaz de plantar na hora
do almoço uma bananeira no chão do palácio, e, quando fosse na hora do jantar,
estar ela deitando cachos com bananas maduras.
O rei mandou chamá-lo e perguntou-lhe se ele
se atrevia a tanto, e ele deu igual resposta à primeira e saiu vexado e foi ter
com o seu cavalo, que o animou muito. No dia seguinte, na hora do almoço do
rei, Sargento Verde levou um filho de bananeira, que plantou e na hora do
jantar estava caindo de carregado de bananas madurinhas. Houve muito viva e
muita saúde, e a rainha ficou ainda mais desesperada. Passados dias houve novo
passeio do rei e do sargento no jardim, e novo oferecimento da rainha, e igual
resposta do moço. A rainha armou-lhe novo aleive, que foi:
— Saberá
Vossa Real Majestade que Sargento Verde disse que se animava a andar montado no
seu cavalo no largo do palácio, por cima de duas fileiras de ovos sem quebrar
um só.
(Segue-se outra cena igual às precedentes).
No dia seguinte o Sargento Verde caminhou diante de muita gente, por cima das
fileiras de ovos sem quebra nenhum. Houve muita festa. A rainha ainda mais
apaixonada ficou. Passados dias ela armou-lhe novo falso, que foi:
— Saberá
Vossa Real Majestade que Sargento Verde disse que se atrevia a ir buscar no
fundo do mar a sua irmã a princesa encantada.
Chamado pelo rei, Sargento ficou triste; mas
não negou, e foi falar com o seu cavalo que lhe disse:
— Não
tem nada; muna-se minha senhora de um garrafão de azeite doce, de um punhado de
sal e de uma carta de alfinetes; monte-se em mim, chegue na praia, com a sua
espada corte as ondas em cruz, que as águas se hão de abrir; entre, bote a moça
de garupa, e largue para trás a toda a pressa e bote sentido nas três palavras
que a moça disser no caminho. Tenha cuidado no bicho feroz que guarda a
princesa, porque ele há de persegui-la atrás; largue-lhe o sal e a carta de
alfinetes.
Chegado o dia, Sargento preparou-se e se pôs a caminho montado no seu cavalo, fez tudo como lhe disse o cavalo, servindo-se da espada para abrir, e do azeite para clarear o mar. Tirou a moça e largou-se para trás a toda a bride. Ao sair do mar a moça disse "Já!" — e o Sargento tomou nota. Estando um pouco adiante olhou para trás e avistou o bicho que vinha danado correndo, largou o sal e logo gerou-se no mundo um nevoeiro tamanho que o bicho não pôde romper. Continuou; adiante a moça encantada disse: "Bela!"
e ele tomou nota ainda. Olhando para trás, lá
vinha o bicho outra vez; largou a carta de alfinetes e gerou-se uma mata serrada
de espinhos e a fera não pôde passar. Já perto de palácio a moça disse:
— Tudo!
— ele de novo tomou sentido, e chegaram ao fim da viagem, havendo muita alegria
e muitas festas, e a rainha ainda mais perdida ficou pelo Sargento Verde.
No entanto a princesa encantada não falava;
estava muda. Com pouco a rainha levantou um quinto aleive ao Sargento, e foi
dizer ao rei que ele se atrevia, segundo dissera, a dar fala à muda. O Sargento
foi, como sempre, ter com o seu cavalo, que lhe disse:
— Não
tenha medo; na hora do almoço dê com uma corda na moça, até ela dizer qual foi
a primeira palavra que disse ao sair do mar, e o que ela quer dizer; no jantar
faça o mesmo, e indague pela segunda; na ceia o mesmo e indague pela terceira,
e a princesa ficará falando.
Assim fez ele. No almoço do dia seguinte
meteu a corda na princesa com as palavras:
— Fale,
moça! Qual a palavra que disse ao sair do mar?
A moça calada, e ele a dar-lhe, até que ela disse "Já!"
— O que quer dizer?
A muito custo ela disse:
— Já
quer dizer ‘já estou livre de tantos trabalhos.’
No jantar houve o mesmo, e a princesa disse:
— Bela!
quer dizer ‘são duas donzelas, ela e o Sargento Verde que se chama Lucinda.’
Na ceia o mesmo, e ela disse a última
palavra, que quer dizer:
— Tudo!;
se Lucinda fosse homem, há muito el-rei, meu irmão, seria cornudo.
Houve muito espanto de tudo aquilo; o
Sargento Verde voltou aos trajos de moça; a princesa ainda ficou no palácio e
falando, e o cavalo do Sargento desencantou-se num lindo moço. Este se casou com
a princesa desencantada; o rei se casou com Lucinda, porque a rainha morreu
amarrada em dois burros bravos, por ordem de seu marido.
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Ano de publicação: 1883
Origem: Sergipe (Brasil)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)



