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sábado, 1 de janeiro de 2022

Barceloz (Conto Popular), de Sílvio Romero

 

BARCELOZ

Em uma noite chuvosa de fazer horror estavam três fadas cumprindo o seu fado no jardim que ficava ao lado da casa de Barceloz, namorador das flores em botão, no que levava as noites todas velando. Como eram, por esse motivo, as fadas privadas de cumprir com sua missão naquele lugar, combinaram encantar a Barceloz na ocasião em que estivesse namorando o bogari. Apareceram nessa noite tenebrosa as três fadas, e na ocasião em que chegou o moço à janela puseram-se a julgá-lo. Dizia a primeira: 

— Este, que nos tem atrapalhado, há de sete anos não falar, e tendo esta flor para seu sustento.

A segunda disse: 

— Neste tempo há de tornar-se em mato virgem, não vindo alma viva nestes ermos durante os sete anos.

— A terceira disse: 

— Só há de ser desencantado pela filha da Peregrina, que está cumprindo a mesma pena.

Ditas estas palavras Barceloz encantou-se, a casa e todos que nela existiam. Quando Barceloz estava com seis anos de encanto a Ninfa, filha da Peregrina, completou os sete, e seguiu o mesmo destino de sua mãe, retirando-se em direção ao Reino da Torre de Ouro.

Anoitecendo-lhe no meio do caminho, e sendo noite escura e chuvosa, ela, como mulher, teve medo de ficar nas matas medonhas, e continuou a andar, a ver se encontrava alguma casa. Perdendo a esperança de a encontrar procurou uma árvore bem copuda e agasalhou-se debaixo à espera do sol. Alta noite chegaram as fadas, e então disse a primeira: 

—  Fademos, manas, fademos; no Reino da Torre de Ouro tem de haver uma grande festa, e tem-se de fazer uma escolha para desencantarem a mata que foi Barceloz, o Campo Negro, e a Bela das Belas. Estes três reinos têm de ser desencantados pelas três Peregrinas. Ninfa desencanta a Barceloz, a Morena desencanta a Bela das Belas, e Nandi o Campo Negro.

Ninfa que aí estava ouviu toda a conversa, pôs-se quieta e assustada.

Ao romper do dia pôs-se em caminho, e chegou trêmula de fome à beira de um rio, onde estava uma velha lavando roupa. A velha disse: 

— Minha netinha, o que faz você por aqui? Como é tão bonitinha! Eu quero levá-la para minha casa: quer morar comigo?

A moça respondeu: 

— Não posso ficar morando, posso ficar uns dias para descansar da viagem.

— Eu — disse a velha — só quero ter o gosto de te ver em minha casa.

Seguiram ambas. Chegando elas à casa, tiniam todas as coisas como se fossem repiques de sinos, e a Peregrina ficou pasmada de ouvir tanto rumor em sua chegada. A velha respondeu:

— Isto é meu filho que te desconheceu.

A velha apresentou a Peregrina ao filho, e este perguntou-lhe para onde ia. 

— Vou — respondeu a moça — ao Reino da Torre de Ouro; vou desencantar a um infeliz que está encantado no Reino das matas.

Disse então o monstro: 

— Ainda este ano lá não chegarás, e podes ir descansada que não hás de desencantar a Barceloz, pois só um beija-flor que ele tem a beijar; o bogari dar-te-á cabo da pele, e também uma serpente ao pé da janela, que só o vê-la faz horror; mas como minha mãe muito te quer, eu te vou dar alguns esclarecimentos. Leva este bogari e esta bola de vidro; acharás por estes dois objetos avultada quantia, que não deves aceitar. O rei também há de querer comprá-los; também lho não vendas. Ao chegares a Barceloz deve ser ao meio-dia, hora em que o beija-flor foi à fonte, e a serpente dorme; põe a flor na boca de Barceloz, e a bola na boca da serpente, e espera que venha o beija-flor; na chegada dele tira a flor do ramo e guarda. Quando o passarinho beijar a flor que está na boca de Barceloz, o passarinho cai, e a serpente acorda e quer morder, mas quebra os dentes na bola. Barceloz então se desencanta, aparece o palacete, e deves tirar do dedo do moço um anel que deves guardar para quando fores chamada pelo rei, e ele há de servir de sinal para casares com o moço, vencendo as invejosas.

Assim fez a Ninfa. Depois de tudo acabado, foi ela ter à presença do rei. Todos os sábios duvidaram que essa tivesse tanto ânimo. Ela mostrou o anel, que todos reconheceram. De repente chegou outra mulher, dizendo que ela é que tinha desencantado a Barceloz, e a Ninfa foi condenada à morte; mas foi livre por não ter a outra apresentado prova alguma; foi então aquela condenada à morte, casou-se Ninfa com Barceloz, havendo muita festa pra festa.



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Ano de publicação: 1883
Origem: Sergipe (Brasil)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2022)

História de João (Conto Popular), de Sílvio Romero

 

HISTÓRIA DE JOÃO

Houve um homem que teve um filho chamado João: morrendo o pai o filho herdou um gato, um cachorro, três braças de terra e três pés de bananeiras. João deu o cachorro ao vizinho, vendeu as bananeiras e as terras, e comprou uma viola. Foi tocar no pastorador das ovelhas do rei; quando o pastor chegava, ele se escondia, e nunca o pastor podia ver quem tocava a viola. As ovelhas, já muito acostumadas com o som da viola, não queriam mais se recolher ao curral, e quando o vaquejador as perseguia elas se metiam pelo mato, e cada dia desaparecia uma cabeça. João as ia ajuntando e exercitando ao som da viola todas as manhãs e tardes, e acostumando-as com o gato seu companheiro. O rei vendo as suas ovelhas sumidas, e pensando ser desmazelo do pastor, o despediu. Vindo João à feira fazer compras para levar para o mato, viu um criado do rei procurando um homem ou menino que quisesse ser pastejador de suas ovelhas. Logo que o criado viu a João se agradou dele, e disse: 

— Amarelo, queres tu servir ao rei como seu pastor?

Respondeu João: 

— Que qualidade de rei é este que não caça e pasta no mato e precisa de ser pastorado? Esse rei é de pena, pelo ou cabelo?

O criado insultou-se, e disse-lhe: 

— Como te chamas?

João respondeu: 

— O Menino Ditoso.

O criado tomou-lhe o nome e largou-se para o palácio, e contou ao rei o que se tinha passado. Logo o rei mandou buscar o Ditoso debaixo de prisão. Chegou João com a sua viola e o gato metido num saco, e disse:

Deus vos salve, rei senhor,
nesta sua monarquia!
Salve a mim primeiramente
e depois a companhia.

Disse o rei: 

— Saibas que estás com sentença de morte, se não deres conta de todas as ovelhas que fugiram do rebanho.

Respondeu o Ditoso: 

— Eu sei lá quantas ovelhas faltaram no rebanho! 

Disse o rei: 

— Fugiram mil e quero todas aqui.

Retirou-se o João bem fresco; foi para o mato e deitou-se a dormir, e o gato foi caçar rolas para o jantar. Chegando a tarde, acordou o Ditoso e viu que nada ainda tinha feito, e pôs-se a tocar viola. Logo se reuniram todas as ovelhas, que eram duas mil e trezentas. Ele foi tocando a viola e seguindo para o palácio do rei, e as ovelhas foram acompanhando. O rei ficou espantado de ver tantas ovelhas, e disse-lhe: 

— Como pudeste ajuntar tantas ovelhas?

Respondeu: 

— Achei-as à toa.

— Serão minhas todas?  perguntou o rei. 

— Quem sabe não sou eu; veja se as conhece, eu trouxe as que encontrei.

— Tu agora tomarás conta do rebanho, que agora és meu pastor.

No outro dia antes do sol sair, o Ditoso pediu que batessem na porta do rei e dissessem que era tempo de seguirem para o mato. O rei acorda e chega à janela e diz: 

— Vai, Ditoso, pastorar.

O Ditoso respondeu: 

— Não posso sair sem rei, senhor, seguir no meio do rebanho, visto ser eu seu pastor, como disse.

— És o pastor das ovelhas do rei  disse este. 

— Agora sim — respondeu João  já me convenço de que o rei, meu senhor, não é de lã, nem de pena ou pelo; é rei de cabelo.

Nisto seguiu com o gato e as ovelhas para o mato.

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Ano de publicação: 1883
Origem: Sergipe (Brasil)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2022)

Os três irmãos (Conto popular), de Sílvio Romero

 

OS TRÊS IRMÃOS

Um homem teve três filhos que lhe pediram para aprender cada um o seu ofício. João aprendeu a ferreiro, José a carpinteiro e Joaquim a barbeiro. João e José pediram depois ao pai para irem ganhar a sua vida, e lhe pediram a bênção. Joaquim também pediu para ir ganhar a sua vida, e em vez de bênção pediu a sua herança. Quando este saiu deu uma topada que despegou uma unha do pé, e disse:

— Diabo te leve, portada do inferno!

O pai respondeu: 

—Nele entrarás, maldito!

O filho partiu para se encontrar com os irmãos; andou mais de um mês e não os encontrou. Desenganando-se de os não encontrar deixou-se ficar numa cidade, e, por ser noite, foi dormir na guarda do tesouro. Nesta noite entraram quatro ladrões para roubarem o tesouro e Joaquim foi preso com eles. Não tendo Joaquim pessoa que o conhecesse, escreveu ao pai, que não lhe respondeu.

O ferreiro da cadeia mandou procurar um oficial do ofício e João se apresentou. Tomou parte na tenda e passou a contramestre, e depois a mestre. Precisou-se também de um carpinteiro e apresentou-se José. No dia em que este se apresentou na cadeia, saía Joaquim escoltado para a forca. Os dois irmãos foram-se empenhar com o rei e a rainha para o soltarem. O rei respondeu: 

— Minha palavra não torna atrás.

Partiram-se os irmãos sem esperança. Os quatro ladrões tinham sido absolvidos e toda a culpa recaía sobre Joaquim. Quando estava ele já para ser enforcado, chegou um cavaleiro, ordenando que suspendessem os trabalhos, e entrou pelo palácio adentro e disse ao rei: 

—Venho para que atendas ao pedido que te fizeram os irmãos daquele padecente; isto já quanto antes, senão morrerás tu e ficará ele salvo e com a coroa.

Num abrir e fechar de olhos, deu o cavaleiro, que era o demônio, três estouros, e morreu o rei, ficando Joaquim com a coroa. João e José ficaram como vassalos do irmão. O boato de tal grandeza chegou aos ouvidos do pai de Joaquim, que correu e foi pedir perdão ao filho pelo que lhe tinha dito, quando saíra ele de casa. Joaquim respondeu-lhe: “Eu passei por muitos maus transes e quem me salvou foi o diabo; quem há de valer a vossemecê dos mesmos transes será rainha mãe:

Quero agora que me mostre
traste que desde que nasci
nunca, nunca eu conheci!
Para a sua salvação
quero me diga afinal
onde foi ela parar...

Respondeu o velho: 

— Rei senhor, filho meu, tua mãe eu a matei por ter dado à luz três filhos de uma vez; eu te criei com leite de uma vaca que está em poder do Rei das Colunas no Campo das Feras.

O rei disse: 

— Quero minha mãe e a vaca que me amamentou, e isto sem demora.

Retirou-se o velho muito triste; encontrou um cavaleiro que lhe perguntou o que tinha, ao que o velho respondeu que nada sofria, mas sentia ir morrer por vontade de seu filho: “porque para livrar-me é preciso dar-lhe conta de minha mulher e de uma vaca; a mulher matei-a e a vaca vendi-a. Não tenho remédio; estou perdido.” Respondeu o cavaleiro: 

— Não digas tal; tudo isto tem remédio. Quando acabares de percorrer os três rios deste reinado, hás de achares o que procuras; os rios distam uns dos outros mil léguas.

Tratou o velho de seguir viagem. 

No cabo de quinhentos dias chegou ao primeiro rio. Ficou na margem do rio, por o não poder atravessar, e à noite deitou-se debaixo de um arvoredo. À meia-noite chegaram os diabinhos para fazerem suas visagens; no mesmo instante o velho acorda e põe-se a escutar. Pergunta o diabo mais velho: 

— Ó capenga, diz-me o que fizeste?

Respondeu o capenga: 

— No reino das Três Colunas eu fiz uma mulher conceber três filhos de uma só vez; porque sabia que o marido a havia de matar.

Os diferentes diabinhos foram contando as suas façanhas: — Eu fiz o marquês da Bruma queimar as librés dos seus criados; — eu tenho a filha da condessa escondida no Vale do Sultão; — eu fiz a princesa namorar o estribeiro do rei; eu fiz a rainha vender a coroa.

Cada diabo dava uma resposta destas. Findou-se a sessão. O velho levantou-se e pôs-se a viajar. No fim de quinhentos dias chegou ao segundo rio, e aí na margem deitou-se a dormir. À meia-noite começaram as fadas a chegar para fazer seu ajuntamento. Disse a fada mais velha: 

— Fademos, manas, o que fizeram?

Começaram as fadas a dar as suas respostas: 

— Eu fiz um rei deserdar do trono a princesa; 
— eu fiz o Reino das Maravilhas encantar-se, só o desencantará o João ferreiro, que é vassalo do irmão; —  eu encantei a Cidade de Âmbar, só a desencanta o José carpinteiro; — eu encantei o Reino das Três Colunas, só o desencantará Jorge, pai dos três felizes, que todos três hão de ser reis, depois que o pai andar mil e quinhentos dias; terá de passar três dias debaixo d’água e ser comido pela serpente; depois de tudo isto será feliz.

O velho só por ouvir isto já estava mais morto do que vivo, por ver que tinha de passar tantos trabalhos. Pôs-se a caminho sem descansar. Estando muito fatigado, deitou-se num capão de mato e pegou no sono. Então ouviu uma voz que lhe dizia:

— Levanta-te, segue tua viagem senão serás vítima de uma serpente.

O velho acordou e pôs-se a correr; mas já era tarde, e foi engolido vivo por uma serpente. No ventre da serpente esteve o Jorge 496 dias, quando ela entrou num rio e levou três dias no fundo como se fosse peixe. Depois foi dar à costa nas matas encantadas do reino das Três Colunas, e aí morreu, saindo para fora o velho ainda vivo, mas muito magro e abatido. Pegou no sono e ouviu uma voz que dizia:

— Levanta-te, acompanha-me, pega estas chaves, abre aquela porta, e vai abrindo quantas fores achando; hás de ver dentro de uma bola de vidro um cabelo, dentro de uma caixa uma pedra e dentro de uma gaveta uma espada. Amola esta espada até ficar bem afiada e corta o cabelo nos ares. Se o não cortares de uma só cutilada, todos os bichos ferozes virão sobre ti e te devorarão. Se cortares de uma só vez serás feliz.

Jorge seguiu tremendo e medroso; abre as portas e encontra os objetos: amolou a espada um dia inteiro. Depois deu o golpe no cabelo e o cortou, enchendo a casa de sangue, tantos pingos quantos soldados. Achou sua mulher e a sua vaca.

Houve muitas festas, mandando Jorge todos adorar a vaca. Ficou bem com seu filho, e foram todos felizes.


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Ano de publicação: 1883
Origem: Sergipe (Brasil)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2022)

A Mãe d'Água (Conto popular), de Sílvio Romero

 

A MÃE D'ÁGUA


Foi uma vez havia uma princesa, que era filha de uma fada e do rei da Lua. A fada ordenou que a princesa fosse a rainha de todas as águas da terra, e governasse todos os mares e rios. A Mãe d’água, assim se ficou chamando a princesa, era muito bonita, e muitos príncipes se apaixonaram por ela. Mas foi o filho do Sol que veio a se casar com ela, ao depois de ter vencido todos os seus rivais em combate. Quando se deu o casamento houve muitas festas e danças e banquetes, que duraram sete dias e sete noites. As festas foram na casa do rei da Lua; acabadas elas os noivos partiram para a casa do Sol. Aí a princesa Mãe d’água disse ao seu marido que desejava passar com ele todo o ano, exceto três meses que havia de passar com sua mãe. 
O príncipe consentiu, porque fazia em tudo a vontade de sua mulher. Todos os anos a Mãe d’água ia passar com sua mãe debaixo do mar num rico palácio de ouro e de brilhantes os três meses do contrato. No cabo de muito tempo a nova rainha deu à luz um príncipe. 
Quando a princesa teve de ir de novo visitar a fada, sua mãe quis levar o principezinho, mas o rei não consentiu; e tanto rogou e pediu, que a rainha partiu sozinha, recomendando ao marido que tivesse muito cuidado no filho. Chegando no palácio da fada, a princesa a não encontrou porque ela estava mudada em flor. A moça desesperada começou a correr mundo, procurando a sua mãe. Então ela perguntou aos peixes dos rios, às areias do mar, às conchas das praias por sua mãe, e ninguém lhe respondia. Tanto sofreu e se lastimou que afinal o Rei das Fadas teve pena dela e perdoou a sua mãe, que se desencantou. Ambas, mãe e filha se largaram à toda a pressa para a casa do rei filho do Sol. Mas tinha-se já passado tanto tempo que o rei, vendo que sua esposa não vinha mais, ficou muito desesperado. 
Correu então o boato que a rainha tinha-se apaixonado por um príncipe estrangeiro e tinha por isso deixado de voltar. O rei, visto isto, se casou com outra princesa, que começou logo a maltratar muito o principezinho, botando-o na cozinha como um negro. 
Quando a rainha ia chegando a primeira pessoa que viu foi seu filho todo maltratado e sujo, e logo o conheceu e soube de tudo. Ela fugiu então com ele para o fundo das águas, e por sua ordem elas começaram a subir, até cobrirem o palácio, o rei, a rainha e todos os embusteiros da corte. Nunca mais ninguém a viu, porque quem a vê fica logo encantado e cai n'água e se afoga. 


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Ano de publicação: 1883
Origem: Sergipe (Brasil)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

O Papagaio do Limo Verde (Conto popular), de Sílvio Romero

 

O PAPAGAIO DO LIMO VERDE

Uma vez havia, num lugar retirado duma cidade, uma velha que tinha três filhas: uma de um só olho, outra de dois, e outra de três. Perto da casa da velha havia uma outra casa, onde morava uma moça muito bonita. Por esta moça namorou-se o príncipe real do reino do Limo Verde, que a visitava todas as noites, e lhe estava dando muitas riquezas. A velha vizinha entrou a desconfiar daquelas riquezas, e, uma vez por outra, ia à casa da moça para ver se pilhava alguma coisa, e nada... 

Uma vez sua filha mais velha, que tinha três olhos, lhe disse:

— Minha mãe, me deixe ir passar a noite na casa da vizinha que eu descubro o segredo. 

A velha concordou, e a moça dos três olhos foi. Chegando lá disfarçou: 

— Ó vizinha, há muito tempo que não lhe vejo; vim hoje passar a noite com você. 

— Pois não, vizinha, a casa está às ordens! — respondeu a bela namorada. 

Quando foi na hora de irem dormir, a dona da casa deu à sua companheira, em lugar de chá, uma dormideira. A moça dos três olhos ferrou no sono como uma pedra; roncou toda a noite e não viu nada. 

O príncipe real do Limo Verde veio, como de costume, encantado num grande e lindo papagaio; foi chegando e batendo com as asas na janela do quarto; a namorada abriu-a, e ele foi dizendo: 

— Dai-me sangue, dai-me leite, ou dai-me água! 

A moça apresentou-lhe um banho numa grande bacia; o papagaio caiu dentro da água a se arrufar e bater com as asas; cada pingo d’água que lhe caía das penas era um diamante, e assim é que a moça ia ficando cada vez mais rica. O papagaio, no banho, desencantou-se num lindo príncipe, que passou a noite com a sua namorada. De madrugadinha tornou a virar em papagaio, bateu asas e foi-se embora. A mulher dos três olhos não viu nada; voltou para casa e disse à mãe que tudo eram boatos falsos, e que na casa da vizinha não havia novidade. 

Daí a tempos a irmã de dois olhos se ofereceu para ir passar também uma noite na casa da vizinha; foi e chupou da dormideira, pegou no sono, e veio o papagaio, e ela nada viu. Voltou para casa sem descobrir o segredo. Passados dias, a moça de um só olho se ofereceu à mãe, dizendo: 

— Agora, minha mãe, minhas irmãs já foram, e eu quero também ir descobrir o segredo. 

As irmãs caçoaram muito dela: 

— Quando nós, que temos mais olhos do que tu, não vimos nada, quanto mais tu, que tens um só!... 

Enfim a velha consentiu, e a sua filha de um só olho foi. Chegando lá, fez muita festa à rica vizinha, e, quando foi a hora da ceia, fingiu que bebia a dormideira, e derramou-a no seio. Deitou-se e fingiu que estava dormindo. Lá para alta noite chegou o grande e bonito papagaio, batendo com as asas na janela; a dona da casa abriu, e ele se desencantou num moço muito formoso, e, como das outras vezes, dentro da bacia do banho ficou muito ouro e muitos brilhantes que a namorada guardou. A sujeitinha de um olho só via tudo caladinha. No outro dia bem cedinho largou-se para casa e contou tudo à mãe. No dia seguinte a velha foi quem veio passar a noite na casa da moça. Quando entrou para o quarto de dormir disfarçou e colocou umas navalhas bem afiadas na janela por onde tinha de entrar o papagaio. Ele, quando veio se cortou todo nas navalhas e disse para a namorada: 

— Ah, Maria ingrata! Nunca mais me verás; só se mandares fazer uma roupa toda de bronze e andares até ela se acabar... 

Bateu asas, e voou. A moça, que não esperava por aquilo, ficou muito desgostosa, e logo compreendeu a razão das visitas daquela gente a sua casa. Mandou fazer uma roupa toda de bronze, e com chapéu, sapatos e bastão também de bronze, e largou-se pelo mundo a procurar o reino do Limo Verde. Depois de muito andar, sem ninguém lhe dar notícia, foi ter à casa do pai da Lua. 

Lá chegando disse a que ia. O pai da Lua a recebeu muito bem, lhe disse que só sua filha lhe poderia dar notícia de tal terra, que ele não sabia; mas que ela, quando vinha para casa, era muito aborrecida e zangada com todos, que portanto a peregrina se escondesse bem escondida. Assim foi. Quando ela chegou, veio muito enjoada, dizendo: 

— Aqui me fede a sangue real! 

O pai a enganou, dizendo: 

— Não, minha filha, aqui não veio ninguém, foi um frango que eu matei para nós cearmos. 

A Lua tomou banho e se desencantou numa princesa muito formosa e foi para a mesa cear. Aí o pai disse: 

— Minha filha, se aqui viesse uma peregrina indagar por uma terra, tu o que fazias? 

— Mandava entrar e tratava muito bem, e se está aí apareça. 

A moça apareceu e disse a sua história. A Lua lhe respondeu que andara muitas terras; mas que daquela nunca tinha ouvido nem falar; mas o Sol havia de saber. A moça se despediu, e, na saída, a Lua lhe deu de presente uma almofadinha de fazer rendas toda de ouro, com os bilros de ouro, alfinetes de ouro e etc., tudo de ouro. A moça seguiu. Ao depois de muito andar, e estando já com os vestidos de bronze quase acabados, chegou à casa da mãe do Sol. Entrou e disse ao que ia. A mãe do Sol a tratou muito bem; disse que não sabia onde era aquela terra; mas seu filho havia de saber, porque andava muito; o que tinha era que quando vinha para casa era muito zangado, queimando tudo, e que ela se escondesse bem. Assim foi. Quando o Sol veio, foi aquele quenturão de acabar tudo, e dizendo: 

— Aqui me fede a sangue real, aqui me fede a sangue real! 

A mãe o enganou dizendo que tinha sido uma galinha que tinha preparado para o jantar. O Sol tomou seu banho e se desencantou num belo príncipe. Na mesa a mãe lhe disse: 

— Meu filho, se aqui viesse uma peregrina, perguntando por uma terra, tu o que fazias? 

— Mandava entrar e tratava muito bem. 

A moça apareceu e disse o que queria. O Sol lhe respondeu que nunca tinha ouvido falar em semelhante terra, que só o Vento Grande poderia saber dela, porque andava mais do que ele. A moça se despediu, e, na saída, o Sol lhe deu uma galinha de ouro, com uma ninhada de pintos todos de ouro, e vivos e andando. A moça seguiu viagem e foi ter, depois de muito trabalho, à casa do pai do Vento Grande. Lá chegando disse ao que ia, e o velho pai do Vento Grande respondeu que não sabia; mas que seu filho havia de saber, o que tinha era que, quando vinha, era como doido, botando tudo abaixo, e que a moça se amarrasse bem num esteio da casa. Assim ela fez. O Vento Grande quando veio chegando era aquele zoadão, que fazia medo, botando muros e telhados abaixo, e dizendo: 

— Aqui me fede a sangue real! 

— Não é nada, meu filho, foi um capão para nossa ceia. 

Assim o velho foi enganando até que ele tomou o banho e se desencantou num moço muito belo. Na mesa o pai lhe disse: 

— Se aqui viesse uma peregrina, tu o que fazias? 

— Mandava entrar e tratava bem. 

A moça apareceu e disse o que queria. O Vento Grande respondeu: 

— Oxente! Ainda agora passei por lá; é perto. Monte-se amanhã na minha cacunda, e, onde avistar um pé de árvore muito grande e copudo na frente de um palácio muito rico, agarre-se nos galhos, deixe-me passar que é aí. 

No dia seguinte, quando o Vento Grande partiu, a moça montou-lhe na cacunda e seguiram. 

Depois de muito voar por muitas terras e reinos, avistou o pé de árvore na frente dum grande palácio; o Vento logo de longe foi dizendo: 

— É ali; agarre-se nos galhos, senão eu a levo para o fim do mundo. 

Assim a moça fez; agarrou-se num galho da árvore, e o Vento seguiu. Ela desceu e pôs-se embaixo da árvore, imaginando um meio de entrar no palácio para ver o príncipe, ou ter notícias dele. Com pouco chegaram três rolinhas e se puseram a conversar nos galhos da árvore. Disse uma delas: 

— Manas, não sabem? O príncipe real do Limo Verde está muito mal; talvez não escape. 

Disse outra: 

— E o que será bom para ele? 

Respondeu a terceira: 

— Ali não há mais remédio; as feridas que ele recebeu na guerra são três e não saram; só se pegarem a nós três, nos tirarem os coraçõezinhos, torrarem e moerem, e deitarem o pó nas feridas. 

A moça ouviu toda a conversa das rolas; armou um laço e pegou todas três; matou-as, tirou os corações, torrou-os e fez um pozinho e guardou. Lá no reino tinha-se espalhado a notícia de que o príncipe estava à morte de umas feridas recebidas numas guerras. 

Não achando um meio de entrar no palácio, a peregrina tirou para fora a almofada de ouro, e se pôs a fazer renda. Veio passando uma criada do palácio, viu e foi dizer à rainha, mãe do príncipe: 

— Não sabe, rainha minha senhora, ali fora está uma peregrina com uma almofada de ouro, com birros de ouro, fazendo renda também de ouro, coisa mais linda que dar-se pode. Só vosmecê possuindo... 

A rainha mandou perguntar à peregrina quanto queria pela almofada. A moça respondeu: 

— Para ela não é nada; basta me deixar dormir uma noite no quarto do príncipe que está doente. 

A criada foi dar a resposta; mas a rainha ficou muito insultada e não quis. Mas a criada lhe disse: 

— O que tem, rainha minha senhora? O príncipe meu senhor está tão mal que nem conhece mais ninguém; que mal faz que aquela tola durma lá no quarto no chão? 

A rainha concordou; foi a almofada de ouro para palácio, e a peregrina dormiu no quarto do doente. Logo nesta primeira noite ela lavou bem as feridas que o príncipe tinha no peito, e botou nelas o pó dos corações das rolinhas; mas o príncipe ainda não deu por de si, e não a conheceu. No dia seguinte a moça foi outra vez para debaixo da árvore, e puxou para fora a galinha de ouro com os pintinhos, que se puseram a andar. A criada veio passando e viu. Correu logo para palácio e disse: 

— Ó rainha minha senhora, a peregrina está com uma galinha de ouro com uma ninhada de pintos, tudo vivinho e andando... Que coisa bonita! Só rainha, minha senhora, possuindo...

A rainha mandou propor negócio. A moça disse que não era nada; bastava deixar ela dormir mais duas noites no quarto do príncipe. A rainha não queria; mas a criada arranjou tudo e a moça foi dormir no quarto do príncipe, e deu a galinha e os pintos de ouro. Na segunda noite que ela dormiu em palácio, a moça continuou o tratamento, e aí o príncipe foi melhorando e já a ia conhecendo. Na terceira noite acabou o curativo e o príncipe ficou bom. Depois que ficou de todo com saúde, saiu do quarto e apresentou à rainha e ao rei a peregrina como sua noiva, e assim se desmanchou o casamento que já lhe tinham arranjado com uma princesa vizinha. Houve muita festa na cidade e no palácio... E eu (isto diz por sua conta o narrador popular) trouxe de lá uma panelinha de doce para lhe dar (referindo-se à pessoa a quem contou a história), mas a lama era tanta que ali na ladeira dos Quiabos escorreguei e caí e lá foi-se o doce. 

Entrou por uma porta,
Saiu por um pé de pato;
Manda o rei, meu senhor,
Que me conte quatro.
 

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Ano de publicação: 1883
Origem: Sergipe (Brasil)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)

O Rei Andrada (Conto popular), de Sílvio Romero

 

O REI ANDRADA
 

Havia um rei de nome Andrada, que tinha três filhas, e lhes disse que o que sonhassem lhe contassem todos os dias pela manhã. Uma delas, logo no dia seguinte, contou ao rei um sonho que foi o seguinte:

 — Sonhei que havia de mudar de estado nestes poucos dias, e cinco reis haviam de me beijar a mão, e entre eles el-rei meu pai.

O rei ficou muito zangado com a filha e lhe ordenou que, se de novo sonhasse aquilo, não lhe contasse mais, senão a mandaria matar. A moça tornou a sonhar coisa semelhante, e pela manhã, apesar de lhe rogarem as irmãs, ela contou o sonho ao pai. Ele mandou matá-la, e cortar-lhe o dedo mendinho que os matadores lhe deviam trazer.

Os criados do rei levaram a princesa para um ermo, e tiveram pena de a matar; cortaram-lhe somente o dedo, que levaram ao rei, deixando a moça nas brenhas. Ela começou a caminhar, e, muito longe, encontrou um buraco, e entrou por ele dentro, e, quanto mais entrava, mais o buraco se alargava até que ela foi dar num rico palácio. Aí ela tinha o almoço, a janta, e a ceia, sem ver ninguém, porque o palácio era encantado. Apenas ela ouvia, de um quarto que estava fechado, falar um papagaio. Depois de alguns dias, apareceu-lhe um lindo moço que lhe deu a chave do quarto, e disse que o abrisse e respondesse ao papagaio coisa que fizesse sentido ao que ele dissesse. O moço desapareceu. A princesa abriu a camarinha, e o papagaio, que era muito grande e bonito, e das asas douradas, ficou muito alegre, sacudindo-se todo, e disse: 

Como vem a filha
Do rei Andrada
Tão bonita,
Tão formosa,
E tão ornada! 

— Ó meu papagaio dourado,
Eu das tuas ricas penas
Pretendo fazer um toucado. 

Aí o papagaio desencantou-se no lindo moço que dantes lhe tinha aparecido, o qual moço mandou logo vir um padre e se casou com a princesa, mandando convidar cinco reis, que no cortejo beijaram a mão de sua noiva. No meio deles veio o rei Andrada. Todos os outros beijaram a mão da princesa, e, quando chegou a vez do rei Andrada, a nova rainha não lhe quis dar a mão; pelo que ele ficou muito injuriado, e foi queixar-se ao rei seu amigo, e dono da casa. O noivo, indo perguntar a razão daquilo, a moça lhe contou a sua história, o que sabendo o rei Andrada foi pedir perdão à sua filha.

 

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Ano de publicação: 1883
Origem: Sergipe (Brasil)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)

O Pinto Pelado (Conto popular), de Sílvio Romero

 

O PINTO PELADO

Foi um dia um pinto pelado estava pinicando num terreiro, achou um papelzinho e disse:

 — Bravo! vou levar esta carta ao rei, meu senhor.

E partiu. Chegando adiante, encontrou uma raposa, que lhe disse:

 — Aonde vai, pinto pelado?

— Quirrichi; vou levar esta carta a rei, meu senhor.

— Apois eu também quero ir.

— Apois entre aqui no meu oveiro —  respondeu o pinto. A raposa entrou e o pinto seguiu. Chegando mais adiante encontrou um rio, que lhe perguntou:

 — Aonde vai, pinto pelado?

— Quirrichi; vou levar esta carta a rei, meu senhor.

— Eu também quero ir.

— Apois entre aqui no meu oveiro.

Seguiu. Chegando adiante encontrou um espinheiro, que lhe perguntou:

 — Aonde vai, pinto pelado?

— Quirrichi; vou levar esta carta a rei, meu senhor.

— Eu também quero ir.

— Apois entre aqui no meu oveiro.

Seguiu, e, depois de muito andar, foi ter no palácio do rei. Entrou e entregou a carta. O rei se zangou por aquele atrevimento do pinto lhe ir levar um papel sujo, e o mandou jogar entre as galinhas e galos do poleiro, que muito o espancaram. Aí o pinto largou a raposa que caiu em cima dos galos e galinhas e acabou com tudo. O pinto largou-se para trás a toda a pressa. O rei, quando deu por falta de suas galinhas, mandou pegar o pinto. Saiu gente atrás dele. Mas o pinto quando avistou a gente largou o rio. Foi água por cima do tempo, e a gente não pôde passar. Arranjaram canoas, e passaram sempre; mas o pinto pelado já estava longe. A tropa avançou na carreira, e quando ia chegando perto do pinto, ele largou o espinheiro, e gerou-se no mundo aquela mata de espinhos muito grande e serrada que ninguém pôde varar. Então voltaram todos para trás, e o pinto pelado teve tempo de chegar ao seu terreiro, onde ninguém mais o incomodou.


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Ano de publicação: 1883
Origem: Sergipe (Brasil)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)

Uma das de Pedro Malazartes (Conto popular), de Sílvio Romero

 

UMA DAS DE PEDRO MALAZARTES

Um dia, Pedro Malazartes foi ter com o rei e lhe pediu três botijas de azeite, prometendo-lhe levar em troca três mulatas moças e bonitas. O rei aceitou o negócio. Pedro saiu e foi ter à casa de uma velha ali pela noitinha; pediu-lhe um rancho, e que lhe botasse as botijas no poleiro das galinhas. A velha concordou com tudo. Alta noite, Pedro Malazartes levantou-se, foi de pontinha de pé ao poleiro, quebrou as botijas, derramou o azeite, lambuzando as galinhas. De manhã muito cedo Malazartes acordou a velha, e pediu-lhe as botijas de azeite. A velha foi buscá-las, e, achando-as quebradas, disse:

 — Pedro, as galinhas quebraram as botijas e derramaram o azeite.

— Não quero saber disso, disse Pedro; quero para aqui meu azeite, senão quero três galinhas.

A velha ficou com medo, deu-lhe as três galinhas. Malazartes partiu e foi à noite à casa de outra velha; pediu rancho e que agasalhasse aquelas três galinhas entre os perus. A velha, como tola, consentiu. Alta noite, Pedro se levantou, foi ao quintal, matou as três galinhas, besuntando de sangue os perus. No dia seguinte, bem cedo, acordou a velha, pedindo as suas galinhas, porque queria seguir viagem. A velha foi buscá-las e encontrou o destroço; voltou aflita, contando a Malazartes. Ele fez um grande barulho até levar seis perus em troca das galinhas. Na noite seguinte, foi ter à casa de um homem que tinha um chiqueiro de ovelhas, e pediu-lhe para passar a noite em sua casa e que lhe agasalhasse aqueles perus lá no chiqueiro das ovelhas, porque bicho com bicho se acomodavam bem. O homem assim fez. Tarde da noite, Pedro foi ao lugar onde estavam os perus, e matou-os a todos labreando de sangue as ovelhas. Pela manhã levantou-se bem cedo e pediu ao dono da casa os seus perus. O homem indo-os buscar achou-os mortos, e voltou muito aflito, dizendo:

 — Pedro, não sabe? As ovelhas mataram os seus perus.

Ouvindo isto, Malazartes fez um grande espalhafato, gritando que o homem tinha morto os perus do rei e recebeu seis ovelhas pelos perus. Largou-se, indo dormir na casa de um homem que tinha um curral de bois. Aí ele fez as mesmas artimanhas, até pegar seis bois pelas seis ovelhas. Mais adiante, ele encontrou uns vendilhões de ouro e trocou os bois por ouro. Mais adiante encontrou uns homens que iam carregando uma rede com um defunto. Pedro perguntou quem era, disseram-lhe que era uma moça. Ele pediu para ir enterrá-la e eles deram. Logo que os homens se ausentaram, ele tirou a moça da rede, encheu-a de bastante ouro e enfeites, e foi ter com ela nas costas à casa de um homem rico que havia ali perto. Pediu rancho, e disse às filhas do tal homem que aquela era a filha do rei que estava doente, e ele andava passeando com ela, e pediu que a fossem deitar. Foram levar a moça para uma camarinha indo Malazartes com ela, dizendo que só com ele ela se acomodava. Deitou a moça defunta na cama e retirou-se, dizendo às donas da casa:

 — Ela custa muito a dormir, ainda chora como se fosse uma criança, quando chorar metam-lhe a correia.

Alta noite, Pedro foi e se escondeu debaixo da cama onde estava a morta e pôs-se a chorar como menino. As moças da casa, supondo ser a filha do rei, deram-lhe muito até ela se calar, que foi quando Pedro se calou. Depois ele escapuliu e foi para seu quarto. De manhã ele pediu a moça, que queria ir-se embora. Foram ver a filha do rei, e nada de a poderem acordar. Afinal conheceram que estava morta, e vieram dar parte a Malazartes. Ele pôs as mãos na cabeça, dizendo:

 — Estou perdido; vou para a forca; me mataram a filha do rei!...

Os donos da casa ficaram muito aflitos, e começaram a oferecer coisas pela moça, e Pedro sem querer aceitar nada, até que ele mesmo exigiu três mulatas das mais moças e bonitas. O homem rico as deu, e Pedro disse que dava uma desculpa ao rei sobre a morte de sua filha, e lhe dava de presente as três mulatas, para o rei não se agastar muito. Malazartes largou-se e foi logo para palácio, onde entregou ao rei as três mulatas com este dito:

 — Eu não disse a Vossa Majestade que lhe dava três mulatas pelas três botijas de azeite? Aí estão elas.

O rei ficou muito admirado. 

Entrou por uma porta,
Saiu por outra;
Manda o rei, meu senhor,
Que me conte outra.


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Ano de publicação: 1883
Origem: Sergipeo (Brasil)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)

O Sargento Verde (Conto popular), de Sílvio Romero

 

O SARGENTO VERDE
 

Havia um homem rico que tinha uma filha muito formosa; apareceu uma vez um moço também muito bonito que quis casar com ela. Contrataram o casamento. Mas Nossa Senhora, que era madrinha da noiva, lhe apareceu e disse:

 — Minha filha, tu vais te casar com o cão. Quando for no dia do casamento, depois da festa acabada, teu marido há de querer te levar para casa dele; tu, então, deves dizer a teu pai que só queres ir no cavalo mais magro e feio de todos, e quando chegares a um lugar da estrada onde faz cruz, teu marido há de tomar pela esquerda, tu deves tomar pela direita e mostrar-lhe o teu rosário para ele estourar e sumir-se para o inferno.

Passou-se. Quando foi no dia do casamento houve muito pagode e divertimento; mas a moça sempre triste.

Quando chegou a hora da partida veio um cavalo muito bonito e muito bem arreado para a moça se montar. Ela disse ao pai que não queria aquele, e só o mais feio e magro. O pai se espantou muito e não quis concordar; afinal foi obrigado a fazer os gostos da filha. Partiram os noivos; quando chegaram longe da casa havia no caminho uma encruzilhada; aí o cão quis botar a moça adiante pelo lado esquerdo. Então a moça disse:

 — Vá o senhor adiante que sabe do caminho de sua casa e não eu que nunca lá fui.

O cão aí se zangou; mas a moça tomou pela estrada da direita, mostrando-lhe o rosário. O cão estourou, e foi cair nas profundas, e a moça seguiu a toda a bride. Lá mais adiante, ela cortou os cabelos e vestiu-se de homem, toda de verde. Chegando a um reino, foi servir na guarda do rei com o posto de sargento. A gente toda a chamava de Sargento Verde. O rei tomou-lhe muita amizade, tanto que quase todas as tardes o convidava para ir passear com ele no jardim. A rainha ficou, com poucos dias, apaixonada por Sargento Verde. Uma tarde, depois de jantar, tendo-o o rei convidado para passear no jardim, ao passar ele pela rainha, ela lhe disse:

 — Olha, Sargento Verde, que lindos olhos, e que lindo corpo para divertir contigo!

O Sargento respondeu:

 — Não sou falso a meu rei.

A rainha despeitada levantou-lhe um aleive ao rei:

 — Saberá Vossa Real Majestade que Sargento Verde disse que se atrevia a subir e a descer as escadas de palácio montado no seu cavalo a toda a bride, dançando e atirando para o ar três limas, e todas três caírem num copo.

O rei ficou muito admirado e mandou chamar Sargento Verde, e contou-lhe o caso. O Sargento respondeu:

 — Saberá rei meu senhor que eu não disse tal; mas como a rainha minha senhora disse, eu vou fazer.

Saiu muito triste, e foi ter com o seu cavalo e lhe contou tudo; o cavalo disse que ele não se importasse, que no dia marcado fosse sem medo. 

No dia marcado Sargento Verde apresentou-se e andou pelas escadas a cavalo, correndo para cima e para baixo, dançando e atirando para o ar três limas e aparando todas três num copo. Houve muito viva, e a rainha ficou desesperada. Passaram-se dias; indo o rei passear de novo com Sargento Verde no jardim, ao passar ele pela rainha, ela lhe disse:

 — Olha que lindos olhos e que lindo corpo para divertir contigo!

— Não sou falso a meu rei — foi o que ele disse.

A rainha, despeitada ainda mais, levantou-lhe outro aleive, que foi:

 — Saberá Vossa Real Majestade que Sargento Verde disse que era capaz de plantar na hora do almoço uma bananeira no chão do palácio, e, quando fosse na hora do jantar, estar ela deitando cachos com bananas maduras.

O rei mandou chamá-lo e perguntou-lhe se ele se atrevia a tanto, e ele deu igual resposta à primeira e saiu vexado e foi ter com o seu cavalo, que o animou muito. No dia seguinte, na hora do almoço do rei, Sargento Verde levou um filho de bananeira, que plantou e na hora do jantar estava caindo de carregado de bananas madurinhas. Houve muito viva e muita saúde, e a rainha ficou ainda mais desesperada. Passados dias houve novo passeio do rei e do sargento no jardim, e novo oferecimento da rainha, e igual resposta do moço. A rainha armou-lhe novo aleive, que foi:

 — Saberá Vossa Real Majestade que Sargento Verde disse que se animava a andar montado no seu cavalo no largo do palácio, por cima de duas fileiras de ovos sem quebrar um só.

(Segue-se outra cena igual às precedentes). No dia seguinte o Sargento Verde caminhou diante de muita gente, por cima das fileiras de ovos sem quebra nenhum. Houve muita festa. A rainha ainda mais apaixonada ficou. Passados dias ela armou-lhe novo falso, que foi:

 — Saberá Vossa Real Majestade que Sargento Verde disse que se atrevia a ir buscar no fundo do mar a sua irmã a princesa encantada.

Chamado pelo rei, Sargento ficou triste; mas não negou, e foi falar com o seu cavalo que lhe disse:

 — Não tem nada; muna-se minha senhora de um garrafão de azeite doce, de um punhado de sal e de uma carta de alfinetes; monte-se em mim, chegue na praia, com a sua espada corte as ondas em cruz, que as águas se hão de abrir; entre, bote a moça de garupa, e largue para trás a toda a pressa e bote sentido nas três palavras que a moça disser no caminho. Tenha cuidado no bicho feroz que guarda a princesa, porque ele há de persegui-la atrás; largue-lhe o sal e a carta de alfinetes.

Chegado o dia, Sargento preparou-se e se pôs a caminho montado no seu cavalo, fez tudo como lhe disse o cavalo, servindo-se da espada para abrir, e do azeite para clarear o mar. Tirou a moça e largou-se para trás a toda a bride. Ao sair do mar a moça disse "Já!" — e o Sargento tomou nota. Estando um pouco adiante olhou para trás e avistou o bicho que vinha danado correndo, largou o sal e logo gerou-se no mundo um nevoeiro tamanho que o bicho não pôde romper. Continuou; adiante a moça encantada disse: "Bela!"

e ele tomou nota ainda. Olhando para trás, lá vinha o bicho outra vez; largou a carta de alfinetes e gerou-se uma mata serrada de espinhos e a fera não pôde passar. Já perto de palácio a moça disse:

 — Tudo! — ele de novo tomou sentido, e chegaram ao fim da viagem, havendo muita alegria e muitas festas, e a rainha ainda mais perdida ficou pelo Sargento Verde.

No entanto a princesa encantada não falava; estava muda. Com pouco a rainha levantou um quinto aleive ao Sargento, e foi dizer ao rei que ele se atrevia, segundo dissera, a dar fala à muda. O Sargento foi, como sempre, ter com o seu cavalo, que lhe disse:

 — Não tenha medo; na hora do almoço dê com uma corda na moça, até ela dizer qual foi a primeira palavra que disse ao sair do mar, e o que ela quer dizer; no jantar faça o mesmo, e indague pela segunda; na ceia o mesmo e indague pela terceira, e a princesa ficará falando.

Assim fez ele. No almoço do dia seguinte meteu a corda na princesa com as palavras:

 — Fale, moça! Qual a palavra que disse ao sair do mar?

A moça calada, e ele a dar-lhe, até que ela disse "Já!"

— O que quer dizer?

A muito custo ela disse:

 — Já quer dizer ‘já estou livre de tantos trabalhos.’

No jantar houve o mesmo, e a princesa disse:

 — Bela! quer dizer ‘são duas donzelas, ela e o Sargento Verde que se chama Lucinda.’

Na ceia o mesmo, e ela disse a última palavra, que quer dizer:

 — Tudo!; se Lucinda fosse homem, há muito el-rei, meu irmão, seria cornudo.

Houve muito espanto de tudo aquilo; o Sargento Verde voltou aos trajos de moça; a princesa ainda ficou no palácio e falando, e o cavalo do Sargento desencantou-se num lindo moço. Este se casou com a princesa desencantada; o rei se casou com Lucinda, porque a rainha morreu amarrada em dois burros bravos, por ordem de seu marido. 


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Ano de publicação: 1883
Origem: Sergipe (Brasil)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)